
A médica patologista Evangelina Araújo,diretora do Instituto Ar — Foto: Instituto Ar/divulgação
GERADO EM: 09/04/2026 - 15:30
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O Brasil demora demais para adequar seus padrões de qualidade do ar aos preconizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2021,e esse atraso cobra um preço em mortes,diz uma das grandes responsáveis pelo avanço que o país fez nos últimos anos na área.
A médica patologista Evangelina Araújo,diretora do Instituto Ar,teve papel fundamental em pressionar o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) a adotar algum prazo para avançar nas regras de adoção desses padrões. Sua briga agora é para tentar diminuir os prazos determinados por essa medida,com datas que se estendem até 2044.
— Não tem cabimento o Brasil querer levar 24 anos para chegar nos padrões de qualidade do ar que a OMS — diz ela.
As regras vigentes hoje no Brasil permite que um cidadão do país respire até 15 μg/m³ (microgramas por metro cúbico) de material particulado fino (MP2,5),o poluente mais tóxico,enquanto a OMS indica o padrão de 5 μg/m³.
Em entrevista ao GLOBO,Araújo conta como foi a luta para conseguir avanços,ainda que limitados,nos últimos anos e fala sobre o que pode ser feito nos próximos.
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Porque é tão difícil pressionar o Conama a acelerar a agenda para adoção de critérios mais rígidos da qualidade do ar?
No Conama existe um debate muito grande,em que de um lado que ficam os órgãos ambientais estaduais,que são quem faz a gestão da qualidade do ar,o Ministério do Meio Ambiente e a indústria,muito juntos e unidos. Do outro lado estão a sociedade civil,o Ministério Público e o Ministério da Saúde. E nessa disputa é muito difícil avançar.
A gente chegou lá,como ONG,dando assessoria técnica para o Ministério Público,e começamos a brigar. Os órgãos ambientais diziam que não podiam elevar o padrão porque isso deixaria a qualidade do ar fora dos limites estabelecidos,e quem seria penalizado seria o Estado. Eles acham que primeiro têm que atingir o padrão determinado em âmbito nacional,para só depois mudar os padrões.
Então eles protelam a gestão,porque não acreditam que vão conseguir diminuir o nível de poluição do ar. Em 2018,eles até chegaram a aprovar as mudanças nos padrões intermediários de qualidade do ar,em etapas,mas sem dar nenhum prazo.
Os prazos que existem agora,então,mesmo insatisfatórios,foram atingidos depois de uma briga?
A nossa briga para ter prazo foi enorme. A gente tinha feito um trabalho em 2011 mostrando que,se até 2030 a poluição continuasse a mesma,nós teríamos 100 mil mortes só no estado de São Paulo como consequência disso. Imagine dizimar uma população de cidade de 100 mil habitantes? Quando aprovaram a resolução sem prazo,nós no instituto,junto com o Ministério Público,produzimos uma nota técnica e entregamos na mão da Procuradora Geral da República,que na época era a Raquel Dodge.
Ela entrou então com uma ação no Supremo Tribunal Federal,dizendo que a resolução 491/2018 do Conama era inconstitucional,porque não trazia proteção à saúde da população. O Supremo aceitou a ação,com a Carmen Lúcia como relatora,e mandou tudo ser refeito no Conama. Foi feito,mas o calendário é mesmo muito longo. Mesmo com toda essa luta,gente ficou com prazos absurdos,em que a gente só vai adotar o índice da OMS efetivamente em 2044.
Por que os órgãos ambientais dos estados não se comovem com os dados de mortes das pesquisas?
Na minha opinião,existe uma falta de responsabilidade muito grande dos órgãos ambientais. Infelizmente,no Brasil,eles não são independentes,eles respondem aos governos e têm uma gestão política. E falta,realmente,vontade.
Um avanço que tivemos mais recente foi a aprovação da Política Nacional de Qualidade do Ar em 2024,porque ela é lei. As resoluções do Conama são infralegais e não incorrem em penalidades para os estados pelo não cumprimento.
Com a nova política começou a haver um pouco de mudança dessa atitude do comportamento dos estados,mas só depois de anos e anos perdidos,protelando essa medida. Não tem cabimento o Brasil querer levar 24 anos para chegar nos padrões de qualidade do ar da OMS. Isso é uma loucura.
O Brasil está agora no nível 2 do padrão intermediário para chegar lá,e a briga dos médicos é que chegue mais rápido no nível 3. O nível 4 tem o prazo de 2044,e um padrão final ainda não tem prazo. Qual é a conta do impacto desse atraso?
A mudança do padrão intermediário 1 para o 2 já implica uma redução de 6% de mortes. Quando você pula para o padrão 3,você reduz mais 6% de mortes. Se estivéssemos hoje no padrão 3,isso significaria evitar 15% das mortes em relação ao padrão 1.
Quem paga essa conta é a população,com morte e com adoecimento. Ou seja,o setor do meio ambiente é quem faz a gestão da qualidade do ar,mas a saúde é quem paga a conta do atraso. E os dois setores não se conversam bem.
Estimar o impacto em termos absolutos é difícil. O último dado da Organização Panamericana de Saúde (Opas) sobre a mortalidade por poluição no Brasil é de 2018 e indica que nós temos 51 mil mortes por ano associadas à poluição do ar. Mas a gente sabe que é muito mais.
A poluição do ar passou a ser o maior risco para doenças crônicas não transmissíveis,que incluem as doenças cardiovasculares,doenças respiratórias e câncer. A poluição tem hoje um impacto acima de tabagismo,da má dieta e de falta de exercício físico,que são chamados riscos evitáveis.
Financeiramente,o custo de combater as fontes de poluição compensa o gasto que já temos com tratamentos nos sistemas de saúde?
Sim. Quando a o OMS entrou de sola junto com a ONU na questão da mudança do clima,em 2021,eles mostraram que só os gastos da saúde tem hoje já pagariam os custos para atingir tudo o que o Acordo de Paris prevê de redução das emissões de gases de efeito estufa.
A poluição causa 8 milhões de mortes no mundo por ano,mas entram nessa conta tanto impacto em mortalidade,quanto adoecimento,hospitalização,doença grave,perda de produtividade...
Qual tem sido o peso do lobby da indústria na agenda da qualidade do ar no Brasil?
A indústria quer atravancar. As cidades mais poluídas no Brasil são cidades industrializadas,como Cubatão e Volta Redonda,mesmo que hoje nas grandes metrópoles o principal emissor de poluentes seja o transporte.
E existe um outro problema seríssimo que é a queima da floresta. Algumas cidades das regiões Norte e Centro-Oeste têm níveis piores que as industrializadas. Manaus chegou a níveis de poluição iguais aos da China em 2024 em poluição do ar por material particulado das queimadas.
O Brasil tem um agenda com prazos já em 2030 para combate às emissões de CO2,que causam o aquecimento global,mas esse gás não é um poluente tóxico. As fontes do material particulado e dos gases-estufa,porém,são em grande parte as mesmas,vindas da queima de combustível fóssil. A agenda de qualidade do ar não pode pegar uma carona na agenda do clima para avançar mais rápido?
Pode sim. Qualquer medida que você faça para mitigação na área de clima,você já traz o benefício da saúde. E existem,inclusive,gases de efeito de estufa que também são tóxicos. É o caso de alguns poluentes de vida curta,como o ozônio. Nas políticas públicas,o que deveria ser pensado é que,se o Brasil tem meta para cumprir de emissão de gases-estufa,o país poderia ser bem mais rígido com emissão e controle de poluentes,porque as fontes são as mesmas.
Qual é a chance de o Brasil avançar no cenário político atual?
Isso vai depender muito do governo federal que entrar nessas eleições. Podemos especular o que pode ser feito supondo que se mantenha o governo atual. Se entrar o outro lado,tenho certeza que a gente não consegue progredir. Mas a gente nunca sabe. A gente tem que fazer agora,por exemplo,um plano de implementação da lei aprovada e isso precisa avançar.
No nível local também tem ações importantes. A prefeitura de São Paulo,tem uma lei de ônibus limpos,mas está atrasada no cumprimento. Mesmo os governos que não tem lei já poderiam estar se preparando,adquirindo veículos de energia mais limpa. Só que o lobby da indústria é muito poderoso. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) tem representação no Conama,e tem influência.
Depois de formada médica,como sra. se tornou ativista contra a poluição?
Eu me formei em patologia clínica e trabalho no mesmo laboratório do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP) onde fiz meu doutorado. Um dia,num congresso médico,eu assisti a uma palestra de sustentabilidade e fiquei apaixonada,porque eu tenho ligação com natureza. Eu fui conversar com o professor palestrante e ele me sugeriu fazer um curso na Fundação Getúlio Vargas. E eu fui.
Já na primeira aula,o tema foi poluição do ar. Por coincidência,o professor Paulo Saldiva,que foi meu orientador na patologia,estava trabalhando com poluição do ar também. A gente voltou a se encontrar então quando eu fundei a organização em 2008 e chamei ele para trabalhar.
No começo,a gente construiu as bases da organização muito com pesquisa e conhecimento. Mas depois nós nos convencemos de que conhecimento não era suficiente,e começamos a fazer advocacy,lidando com a política pra fazer a transformação e a mudança. Nós levamos para o ambiente as evidências que a gente tem na área da saúde,e elas são irrefutáveis. Um gestor da área de ambiente que nega essas evidências não está cumprindo o papel administrativo e de governo dele.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro