
O presidente dos EUA,Donald Trump,fala à imprensa em Maryland,em 12 de abril de 2026 — Foto: JIM WATSON / AFP
GERADO EM: 13/04/2026 - 17:42
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O comportamento errático e as declarações extremas do presidente dos Estados Unidos,nas últimas semanas reacenderam o debate sobre sua saúde mental — uma discussão que o acompanha desde que entrou na cena política nacional,há uma década. Falas desconexas,difíceis de acompanhar e,por vezes,carregadas de termos ofensivos culminaram na ameaça de que “uma civilização inteira morrerá esta noite”,ao se referir ao Irã na semana passada,e em um ataque contundente ao Papa Leão XIV no domingo,a quem chamou de “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”. As declarações deixaram muitos com a impressão de um líder desequilibrado.
Ilustração gerada por inteligência artificial: após chamar o Papa Leão XIV de 'fraco',Trump publica imagem de si mesmo que o retrata como uma figura semelhante a JesusPresidente dos EUA: Trump ameaça destruir embarcações do Irã com ‘mesmo sistema de morte’ usado no Caribe após início de bloqueio no Estreito de Ormuz
A Casa Branca rejeitou essa avaliação,afirmando que Trump está lúcido e apenas mantém seus adversários sob pressão. Ainda assim,os episódios levantaram questionamentos sobre a liderança dos EUA em um momento de guerra. Embora o país já tenha tido presidentes cuja capacidade foi colocada em dúvida — mais recentemente Joe Biden,com o avanço da idade —,raramente a estabilidade de um chefe de Estado foi tão debatida de forma pública e detalhada,e com implicações tão profundas.

Presidente dos EUA,concedeu entrevista coletiva ao sair da Casa Branca — Foto: BRENDAN SMIALOWSKI / AFP
Democratas,que há anos questionam a aptidão psicológica de Trump,voltaram a defender a aplicação da 25ª Emenda da Constituição americana,que permite o afastamento do presidente por incapacidade. Mas a preocupação não se limita a opositores,humoristas ou especialistas em saúde mental que analisam o caso à distância. O debate agora também aparece entre generais aposentados,diplomatas,autoridades estrangeiras e,de forma mais surpreendente,entre figuras da direita que já foram aliadas do presidente.
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A ex-deputada Marjorie Taylor Greene,republicana da Geórgia que recentemente rompeu com Trump,defendeu o uso da 25ª Emenda e afirmou à CNN que ameaçar destruir a civilização iraniana “não é retórica dura,é insanidade”. A comentarista conservadora Candace Owens chamou o presidente de “lunático genocida”. Já o teórico da conspiração Alex Jones disse que Trump “balbucia e parece que o cérebro não está funcionando muito bem”.
Parte das críticas vem de pessoas que trabalharam com o presidente e hoje são opositoras. Antes mesmo da ameaça ao Irã,Ty Cobb,advogado da Casa Branca no primeiro mandato de Trump,disse ao jornalista Jim Acosta que o presidente é “claramente insano” e que suas recentes publicações agressivas nas redes sociais “destacam o nível de sua insanidade”. Stephanie Grisham,ex-porta-voz da Casa Branca,afirmou que ele “claramente não está bem”.
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Trump reagiu com uma longa e irritada publicação nas redes sociais,na qual chamou críticos como Owens,Jones,Megyn Kelly e Tucker Carlson de “pessoas de baixo QI” e “problemáticas”,acusando-os de buscar publicidade barata.
Apesar das críticas vindas da direita,parlamentares republicanos seguem publicamente leais ao presidente,e não há sinais de apoio dentro do governo para acionar a 25ª Emenda,o que torna a hipótese improvável. Ainda assim,pesquisas recentes indicam crescente preocupação entre americanos sobre a aptidão de Trump,já o presidente mais velho a tomar posse,à medida que se aproxima dos 80 anos.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos de fevereiro apontou que 61% dos americanos acreditam que Trump se tornou mais errático com a idade,enquanto apenas 45% o consideram mentalmente apto para lidar com desafios,uma queda em relação aos 54% registrados em 2023. Já um levantamento da YouGov indicou que 49% o consideram velho demais para o cargo.
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Democratas intensificaram as críticas nos últimos dias. O senador Chuck Schumer classificou Trump como “extremamente doente”,enquanto o deputado Hakeem Jeffries o descreveu como “fora de controle”. Já Ted Lieu foi mais direto ao chamá-lo de “completamente insano”. O deputado Jamie Raskin chegou a solicitar uma avaliação médica formal,apontando sinais de possível declínio cognitivo.
Aliados do presidente rejeitam essas críticas e afirmam que o comportamento faz parte de uma estratégia. Para a colunista Liz Peek,Trump sabe exatamente o que está fazendo e usa pressão máxima — ainda que com declarações controversas — como ferramenta política e diplomática.

Presidente dos EUA,Donald Trump — Foto: KENT NISHIMURA / AFP
O próprio Trump,que já se descreveu como “um gênio muito estável” e frequentemente afirma ter sido aprovado em testes cognitivos,minimizou as críticas.
— Se for o caso,então precisamos de mais pessoas como eu — disse a jornalistas na semana passada.
O debate sobre sua estabilidade não é novo. Desde 2016,psiquiatras e especialistas vêm se manifestando,mesmo sem avaliá-lo diretamente. John F. Kelly,que foi chefe de gabinete de Trump,chegou a ler o livro "The Dangerous Case of Donald Trump",escrito por 27 especialistas,e concluiu que o então presidente tinha problemas mentais.


Questionamentos sobre a saúde mental de presidentes já ocorreram antes na história americana,de Abraham Lincoln a Ronald Reagan,mas raramente com o nível de exposição atual.
Alguns aliados comparam Trump a Richard Nixon,que teria adotado a chamada “teoria do louco” como estratégia de negociação durante a Guerra do Vietnã. O próprio Trump já sugeriu usar essa imagem a seu favor.
— Faça-os pensar que sou louco — teria dito à ex-embaixadora Nikki Haley.
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Desta vez,porém,o presidente afirmou não estar encenando. Em entrevista ao New York Post,disse que estava disposto a cumprir a ameaça de destruir a civilização iraniana.
Para o historiador Julian Zelizer,da Universidade de Princeton,o nível de preocupação atual não tem precedentes recentes. Diferentemente do passado,grande parte do comportamento presidencial ocorre de forma pública,amplificada por redes sociais e canais de televisão.
No segundo mandato,Trump parece menos contido e mais incoerente em alguns momentos. Ele tem usado mais palavrões,feito declarações baseadas em informações incorretas e se envolvido em digressões incomuns,de comentários sobre cobras venenosas no Peru a histórias equivocadas sobre sua própria família.
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Mesmo antes de atacar o Papa e publicar,depois apagando,uma imagem de si próprio como uma figura semelhante a Jesus,Trump já vinha causando preocupação com declarações agressivas. Em alguns casos,acusou críticos de traição e celebrou a morte de adversários.

Trump publica imagem de si mesmo como uma figura semelhante a Jesus — Foto: Reprodução
Apesar disso,o apoio político dentro de sua base permanece significativo. Para Zelizer,há um componente do cenário político americano atual,marcado pela polarização e que valoriza esse estilo de liderança.
— O que pode ser mais anti-establishment do que alguém disposto a agir fora de controle? — questiona.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro