
Posto de gasolina no Rio — Foto: Luiza Moraes/Agência O Globo
GERADO EM: 19/04/2026 - 03:18
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As investigações recentes envolvendo estruturas financeiras associadas ao caso Master e à atuação de fundos administrados por instituições como a Reag ampliaram um debate que vai além do sistema financeiro. Elas ajudam a evidenciar como redes sofisticadas de movimentação de recursos podem estar conectadas a setores da economia real,entre eles o mercado de combustíveis e lubrificantes. Ainda que a apuração siga em andamento,o episódio reforça um alerta importante: a economia do crime organizado tornou-se mais complexa,estruturada e interligada,exigindo resposta igualmente coordenada do poder público,do setor privado e da sociedade.
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O setor de combustíveis e lubrificantes é especialmente vulnerável a essa infiltração. Trata-se de um mercado de grande escala,com elevada circulação de caixa,cadeia logística extensa e carga tributária relevante. Quando esses fatores se combinam com lacunas regulatórias,tributárias e de fiscalização,abrem-se brechas para organizações criminosas explorarem o mercado,financiarem atividades ilegais e lavarem recursos.
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Estimativas do Instituto Combustível Legal revelam que o Brasil perde cerca de R$ 29 bilhões por ano no mercado de combustíveis por causa de irregularidades. Desse total,aproximadamente R$ 14 bilhões decorrem de sonegação fiscal e inadimplência estruturada,enquanto cerca de R$ 15 bilhões estão ligados a práticas como adulteração,fraude volumétrica,furto e roubo de cargas,pirataria e atuação de empresas irregulares. Esses números expõem a dimensão da economia paralela criada em torno da cadeia de combustíveis e lubrificantes.


Nos últimos anos,o problema ganhou escala e sofisticação. A atuação criminosa deixou de se restringir a ilícitos em postos ou ao roubo de cargas e passou,em alguns casos,a alcançar estruturas empresariais mais complexas e mecanismos financeiros voltados à movimentação e à ocultação de recursos. Levantamentos do setor sugerem que ao menos 845 postos de combustíveis no Brasil estão sob influência ou controle de facções criminosas,num universo de cerca de 45 mil postos em operação.
Essa realidade deve ser lida dentro de um quadro mais amplo da economia ilegal no país. Estudos mostram que o crime organizado movimentou cerca de R$ 350 bilhões na economia brasileira em apenas três anos. Outro levantamento,da CNI,estima que o “Brasil ilegal” tenha provocado prejuízos de R$ 453,5 bilhões à economia nacional em 2022.
O enfrentamento desse quadro precisa ser tratado como política pública estruturante. Não se trata apenas de proteger empresas ou de preservar arrecadação. Trata-se de impedir que atividades essenciais ao funcionamento do país sejam capturadas por redes criminosas.
O Brasil avançou com medidas importantes,como a monofasia tributária da gasolina,do diesel e da nafta,além da intensificação de operações integradas entre Receita Federal,polícias,Ministério Público e Agência Nacional do Petróleo,Gás Natural e Biocombustíveis. Também é fundamental avançar no combate ao devedor contumaz,distinguindo inadimplência eventual de fraude estruturada.
Combater o crime organizado no setor de combustíveis não é apenas uma agenda regulatória ou fiscal. É,acima de tudo,defender o Estado,proteger a economia formal e assegurar concorrência leal.
*Emerson Kapaz é presidente do Instituto Combustível Legal
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro