
Na cabeça do eleitor,economia e governo viraram uma coisa só — Foto: Magnific
GERADO EM: 27/05/2026 - 22:30
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Roberta tem 38 anos,é caixa de supermercado em Osasco,mãe de dois,ganha dois salários mínimos. Não votou no Lula em 2022 e não vai votar em 2026. Quando perguntam se a economia melhorou,ela responde sem pensar: “piorou,e muito.” A Roberta é o Brasil real que decide eleição em outubro. Em abril,a Quaest mostrou que metade dos brasileiros pensa como ela; entre não-lulistas,passa de 75%.
O problema é que os dados dizem o contrário. A massa salarial bateu recorde em 2025. O desemprego está em 5,1%,mínimo histórico. O salário mínimo teve ganho real. Em qualquer manual,é melhora. Mas a Roberta não mente: ela diz uma verdade que o manual não vê,porque o manual mede média e a vida cobra o item.
Aqui mora a armadilha do debate eleitoral. As pesquisas mostram que quem desaprova o governo Lula e quem acha que a economia piorou são,em geral,as mesmas pessoas. A sobreposição é das mais altas já registradas no país. E é aqui que o analista apressado escorrega: correlação não é causalidade. Duas coisas andarem juntas não significa que uma cause a outra. A direção pode ser qualquer uma: a má avaliação contaminando a percepção,a economia ruim produzindo o voto contra,ou uma terceira coisa — a vida que aperta,o noticiário que machuca — empurrando as duas ao mesmo tempo. Não há como saber a direção. Mas sabemos uma coisa: na cabeça da Roberta,economia e governo viraram uma coisa só. Quando ela olha o supermercado,vê política. Quando olha política,vê o supermercado.
Por isso não adianta insistir no PIB. A Roberta está vendo o aluguel que comeu o aumento,o gás que sobe três vezes por ano,três blusinhas da Shein no lugar do Mizuno que o filho pediu e,sobretudo,a fatura do cartão que virou bola de neve. Num país em que a renda das classes C e D oscila pela informalidade que virou regra,o cartão deixou de ser meio de pagamento e virou complemento de renda. Quando o mês aperta,ela compra na fatura aberta. Quando sobra um pouco,o juro já comeu. Esse é o grande funil que drena o salário,maior que a Shein,maior que as bets. A Roberta faz parte do que chamamos de “pobre premium”: ganha o suficiente para não receber Bolsa Família,mas pouco demais para fechar o mês. Sente que paga a conta de todo mundo,e que ninguém olha para ela. A vida dela não desabou — mas encolheu. E vida que encolhe não produz gratidão,mesmo com gráfico subindo em Brasília.
O que muda a percepção da Roberta não é dado,é cena. É o cartão renegociado num Desenrola com teto real de juros e o governo enfrentando o banco em público,com cara e nome. É a taxação dos super-ricos virando lei,dando ao eleitor a sensação de que alguém olhou para o andar de baixo e cobrou o andar de cima. É o fim da escala 6x1,devolvendo um dia da semana para a Roberta passar com os filhos sem culpa. São essas entregas — no boleto,no calendário,na dignidade — que entram onde o PIB nunca entra.
Nada disso vai transformar a Roberta numa eleitora petista,e não precisa. Mas pode fazer com que ela diga,em outubro: “pelo menos esses aí brigaram pelo nosso lado.” Em eleição apertada,é isso que move o ponteiro. A economia,hoje,é uma disputa de sentido,não de planilha. Quem traduz dado em cena,ganha. Quem insiste no gráfico,fica falando sozinho enquanto a Roberta troca de canal.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro