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Clarice Herzog, a heroína da memória

Jun 30, 2026 Ai IDOPRESS

Clarice Herzog em 2014 — Foto: Marcos Alves / Agencia O Globo.

RESUMO

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GERADO EM: 29/06/2026 - 21:18

Clarice Herzog: Símbolo de Resistência aos 85 Anos Contra o Esquecimento Histórico no Brasil

Clarice Herzog,que completa 85 anos,é uma figura emblemática na luta por memória e justiça no Brasil. Após a morte de seu marido,Vladimir Herzog,pela ditadura,ela dedicou sua vida a combater o esquecimento e a impunidade,alcançando marcos históricos na justiça brasileira. Mesmo enfrentando o Alzheimer,sua voz permanece um símbolo de resistência e coragem,personificando a luta contra o apagamento histórico no país.

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manhã,Clarice Herzog faz 85 anos. Ela ainda está aqui. Como Eunice Paiva,perdeu o marido assassinado pela ditadura,lutou por memória e justiça e agora chega ao ocaso em meio ao Alzheimer. Deve haver um significado profundo,que o país ainda não alcançou,o apagamento das lembranças na mente de guerreiras que lutaram para que o Brasil não se esquecesse. O país que insiste em esquecer.

Clarice é uma voz que permanecerá na história do Brasil. Quando Vladimir Herzog morreu,ela foi a primeira a gritar “Mataram o Vlado”. Zuenir Ventura me disse,certa vez,que esse grito dela aos jornalistas foi a hora primeira da resistência à mentira que a ditadura sustentou sobre a morte no II Exército. Quando tentavam enterrar às pressas o corpo do Vlado,ela gritou “Não enterrem”. Assim ela conseguiu que esperassem a mãe do Vlado,dona Zora,chegar para o enterro do filho único.

Ela continuou vocal e forte todos os anos da vida,a vida inteira,até que o silêncio se impôs pela doença. Em 1978,em plena ditadura,ela conseguiu que a Justiça responsabilizasse a União pela morte de Vladimir. Era inédito o processo e a sentença virou histórica.

A preocupação de Clarice não era vingança,não era indenização. Ela queria,como me disse um dia,que o país não se esquecesse.

— Fui à Justiça porque era a Justiça. Eles estavam matando pessoas. Queria mostrar que isso estava acontecendo no país. Eu tinha que fazer por mim,meus filhos e o país. Eu tinha que provar que ele foi assassinado.

Não foi fácil achar defensores da sua causa. Zuenir foi ao jurista Heleno Fragoso,o primeiro a aceitar. Depois,veio Sérgio Bermudes. Em São Paulo,a causa foi defendida por Marco Antonio Rodrigues Barbosa e Samuel MacDowell. Mas a ditadura impetrou mandado de segurança para que o juiz João Gomes Martins não julgasse o caso e,em seguida,o aposentou. Um outro magistrado,jovem,começando a carreira,herdou o caso e não se intimidou: Márcio José de Moraes condenou a União pela morte de Vladimir Herzog. Zora escreveu ao juiz. “Minha dor não tem consolo. Meu filho não voltará,mas seu bom nome não ficará manchado”. Entrevistei Márcio José de Moraes anos atrás e ele me disse “o Brasil descumpriu a ordem judicial”.

Clarice persistiu no mesmo caminho. Em 24 de maio de 2017,a Corte Interamericana de Justiça estava ouvindo as partes no processo que ela moveu contra o Estado brasileiro. De novo,se ouviu a voz de Clarice. O criminalista Alberto Torón,contratado pelo governo Temer,disse que não poderia haver punição dos assassinos porque “a coisa julgada não pode ser ofendida”,Clarice da plateia gritou: “Não é nada disso. Está tudo errado.”

Aquele julgamento,e a audiência com as partes,era o retrato do pior lado do Brasil. Michel Temer,o sétimo presidente da democracia,em vez de reconhecer o erro da ditadura,mandou oito pessoas,entre elas um general,contratou Toron,e todos foram defender o indefensável. O de que o país já tinha feito o possível. O Brasil que jamais condenou um único torturador estava ali para sustentar que nada mais havia a fazer. O momento em que uma jovem advogada da Advocacia-Geral da União interroga Clarice e tenta colocá-la em contradição —“mas a senhora recebeu certidão oficial certificada” — é de ter vergonha do país.

O Brasil acabou condenado,Clarice venceu esta também. Seu depoimento é um primor. Humano e corajoso. Contou da tragédia de Dona Zora atravessando a fronteira da Alemanha com o filho nos braços para ele não ser morto pelos nazistas. O abrigo na Itália e o refúgio final no Brasil onde ela achou que seu filho estava em segurança. Quando o presidente da Corte disse que valorizava a presença dela ali,Clarice respondeu: “eu é que agradeço a oportunidade. Um cara maravilhoso,do bem,o meu marido. Que morreu apanhando,um horror”.

Enquanto lutava por memória neste país que apaga os fatos e rasura a história,Clarice criou os filhos,fez carreira como pesquisadora qualitativa de opinião pública,criou o Instituto Vladimir Herzog para ser uma trincheira pública pelos valores democráticos.

Um dia,eu soube pelo seu filho Ivo que ela queria me visitar no Rio. Eu pensei em tudo o que serviria no almoço e a esperei com alegria. Infelizmente era o início da pandemia e ela não pôde vir. Essa quase visita me emociona. Eu a imagino chegando. Eu a abraçaria e diria: “Bem-vinda,Clarice,heroína do Brasil.”

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