
Cemitério São Francisco Xavier — Foto: Divulgação
GERADO EM: 09/07/2026 - 22:30
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Já na alameda de entrada do cemitério Père Lachaise,em Paris,é possível encontrar casais ou até mesmo famílias inteiras desfrutando de piqueniques ou conversando como se estivessem no Jardin des Tuileries. Em Buenos Aires,grupos de turistas se encontram cotidianamente no cemitério da Recoleta. Guias especializados fazem um tour pelas lápides,mostrando com orgulho a história argentina. Aqui,no Brasil,ainda somos tímidos quando tratamos desse espaço. Seja por cultura,por apreensão ou por distância. “Visitar cemitério? Tá doido?”,alguns questionam. O cemitério é um tabu.
E não deveria ser. Até para entendermos a nossa dimensão no tempo e para onde vai toda essa estrada. Uma simples,porém atenta,caminhada entre túmulos nos faz questionar sobre nossa vida,parcerias e escolhas. Será que está valendo brigar por isso? Será que aguentar essa mala é preciso mesmo? Será que estou levando essa vida com a barriga? Tenho o costume de observar as fotinhos. Ali tem histórias,sonhos,decepções,vidas. Isso vale para o Mausoléu dos Matarazzo,na Consolação,à gavetinha paga em duras prestações. O cemitério nos iguala e por isso é tão assustador para alguns.
Em uma área reservada para a futura expansão do cemitério de Ricardo de Albuquerque,moradores construíram um pequeno complexo de lazer que incluía campo de futebol,churrasqueira e até vestiários. Nos fins de semana,o espaço reunia dezenas de pessoas para partidas de futebol,confraternizações e churrascos. Em dias mais movimentados,mais de cem frequentadores passavam pelo local.
A situação chamou a atenção da imprensa no início dos anos 2000. As reportagens descreviam um cenário inusitado: enquanto famílias visitavam túmulos,grupos de amigos se reuniam. O “campinho do cemitério”,como ficou conhecido por muitos moradores da região,acabou em 2005,quando a prefeitura decidiu encerrar a ocupação e determinou a demolição das estruturas existentes.
Antes de se tornar um dos maiores cemitérios da América Latina,a área ocupada hoje pelo Complexo do Caju já servia como local de sepultamento de pessoas escravizadas e seus descendentes. Ali funcionava o chamado Campo Santo da Misericórdia,criado no início do século XIX para receber enterramentos que não encontravam espaço nos tradicionais templos religiosos da cidade.
Entre os registros mais antigos está o de Vitória,filha de uma mulher escravizada,considerada uma das primeiras pessoas sepultadas na região. Na época,os enterros da população negra costumavam ocorrer em terrenos afastados dos centros urbanos,muitas vezes sem qualquer identificação.
Em 1851,foi inaugurado o Cemitério São Francisco Xavier,marco importante na reorganização dos serviços funerários da Corte. A localização não foi escolhida por acaso. O mar chegava muito mais próximo do local do que atualmente,e era comum que os corpos fossem transportados por embarcações,um dos meios de locomoção mais utilizados no Rio de Janeiro do século XIX.
Ao longo de quase dois séculos,o local transformou-se em um verdadeiro retrato da história brasileira. Entre seus sepultados estão personalidades como Tim Maia,Cartola,Noel Rosa,Dolores Duran,Claudinho e Barão do Rio Branco.
Passadas mais de seis décadas,o túmulo de Tânia Maria,no cemitério de Inhaúma,continua recebendo flores,velas e orações. Conhecida como Taninha,a menina de apenas 4 anos tornou-se personagem de uma das páginas mais chocantes da história policial do Rio de Janeiro. Para muitos visitantes,ela é tratada como uma santa popular. Há quem faça promessas e peregrinações até seu túmulo.
O crime ocorreu em 1960 e transformou Neyde Maia Lopes em uma das mulheres mais conhecidas do noticiário brasileiro. A história começou quando Neyde se envolveu com Antônio,um homem casado e pai de duas filhas. Segundo relatos da época e apenas uma das versões,ela descobriu posteriormente que o companheiro mantinha a família e passou a pressioná-lo para que escolhesse entre as duas relações.
Sem obter a resposta desejada,Neyde aproximou-se da família sem o conhecimento de Antônio. Ganhou a confiança de Nilza,esposa dele,e também das crianças. Frequentemente aparecia com balas,doces e pequenos presentes.
No dia 30 de junho de 1960,aproveitando-se da ausência da mãe no horário de saída da escola,Neyde apresentou-se para buscar a pequena Tânia. Os funcionários permitiram que a criança saísse com ela. A menina foi levada para uma área próxima ao antigo Matadouro da Penha,onde hoje existe uma praça.
De acordo com as investigações,já durante a noite,Neyde cortou parte dos cabelos da criança e,em seguida,disparou um tiro de revólver calibre 32. Não satisfeita,ainda ateou fogo ao corpo. Funcionários da região perceberam movimentações suspeitas,avistaram a fogueira e ajudaram a direcionar as investigações.
A brutalidade do crime chocou o país. Os jornais passaram a chamar Neyde de “Fera da Penha”,apelido que atravessou gerações e permaneceu associado ao caso. Julgada e condenada,ela recebeu pena de 33 anos de prisão,mas deixou a cadeia após cumprir cerca de 15 anos.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro