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Mostra dentro de caminhão na Avenida Paulista aborda pensamento ambiental visionário de Tom Jobim

Aug 4, 2026 Ai IDOPRESS

A exposição 'Jobim-açu: maestro da natureza',montada em um caminhão estacionado na Avenida Paulista — Foto: Maria Isabel Oliveira

Na canção “Passarim”,lançada por Tom Jobim em 1987,o eu lírico suplica: “Passarinho,me conta,então me diz:/ Por que que eu também não fui feliz?” Numa entrevista,o próprio compositor dá o motivo: “Se o passarinho não puder ser feliz,se a gente matar todos os bichos,a gente também não vai ser feliz. Nós vamos destruir a vida na Terra,né?”,diz o músico num vídeo exibido na exposição “Jobim-Açu: maestro da natureza”,que estreia hoje em São Paulo. Dedicada ao pensamento ecológico de Tom,cujo centenário de nascimento será festejado em 25 de janeiro de 2027,a mostra imersiva é parte do projeto Caminhão de Histórias.

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“Jobim-Açu” ocupa a carroceria de um caminhão estacionado no Bulevar do Rádio,na Avenida Paulista (entre o Itaú Cultural e o Sesc). Tanto o interior quanto o exterior do veículo foram envelopados com uma obra inédita do arquiteto Danilo Zamboni inspirada na Mata Atlântica,verdadeira paixão do compositor,que afirmou várias vezes ter buscado no bioma inspiração para sua arte.

Atento aos animais

Dentro do caminhão,uma série de vídeos que exploram a relação de Tom com a natureza: ele aparece todo animado ao ver um mico no galho de uma mangueira,reclamando que “não deixam o mato crescer em paz” (denúncia repetida na canção “Borzeguim”) e afirmando que já era “ecologista” muito antes de conhecer a palavra.

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O título da exposição é emprestado da canção “Querelas do Brasil”,de Aldir Blanc e Maurício Tapajós,que celebra símbolos do país como os sertões,o saci e “Jobim-Açu” — “açu” significa “grande” em tupi. A curadoria é do jornalista Hugo Sukman e da cineasta Daniela Thomas,que também assina a direção artística.

A exposição "Jobim-açu: maestro da natureza",montada em um caminhão estacionado na Avenida Paulista — Foto: Maria Isabel Oliveira

Renata Lima,idealizadora do Caminhões de Histórias,conta que,inicialmente,o objetivo da mostra era simplesmente celebrar o centenário do maestro. No entanto,durante as pesquisas,o tema ecológico se impôs.

— Tom foi um visionário da questão ambiental,já falava de tudo o que está acontecendo hoje,os incêndios,as enchentes... Era até considerado um “ecochato” — diz Renata.

Coautora de “Toda minha obra é inspirada na Mata Atlântica”,obra lançada há mais de duas décadas que narra em fotos o amor do músico pela natureza,a fotógrafa Ana Jobim afirma que a preservação do meio ambiente era uma preocupação constante do marido.

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— Numa época em que o discurso ecológico não era tão forte como é hoje,Tom já lutava contra a derrubada de árvores e pela proteção dos povos indígenas. Ele era muito ligado à natureza,gostava dos bichos,era curioso. Às vezes,ele estava ocupado compondo ou no meio de um ensaio,ouvia o pio de um pássaro e parava tudo para ouvir — recorda a viúva do maestro,que prepara uma fotobiografia para o centenário do autor da melodia de “Garota de Ipanema” (a letra é de Vinicius de Moraes).

“Jobim-Açu” continua do lado de fora do veículo,onde estão espalhados 20 painéis com imagens e textos que passam em revista a trajetória do maestro: do nascimento na Tijuca (pelas mãos do mesmo médico que,anos antes,havia trazido ao mundo Noel Rosa) à infância numa Ipanema idílica,onde não havia nem asfalto; da criação da bossa nova (“uma música para cantar aqui no bairro”) à glória internacional,época em que gravou com Frank Sinatra nos Estados Unidos,mas morria de saudade de “bater um papinho de short,à tarde”,no Rio.

A exposição "Jobim-açu: maestro da natureza",montada em um caminhão estacionado na Avenida Paulista — Foto: Maria Isabel Oliveira

Trilha sonora

Os painéis também descrevem o desabrochar da consciência ambiental de Tom. Um deles lembra que o músico,quando jovem,gostava de caçar passarinho. Até que um dia,na Lagoa Rodrigo de Freitas,carabina em mãos,viu mães correndo para proteger os filhos debaixo de suas asas. Desistiu para sempre da caça e se tornou um militante.

— Lembro de colegas jornalistas que achavam um saco falar com o Tom porque perguntavam de música e lá vinha ele falar de árvore! — afirma Hugo Sukman,acrescentando que o desejo da mostra é apresentar Tom como uma “entidade da floresta”. — Hoje a gente percebe como ele estava certo ao abraçar essa causa.

A exposição vai tocar duas playlists de músicas de Tom. A primeira,com seis faixas,é dedicada a composições mais explicitamente inspiradas pela natureza,como “O boto” e “Águas de março”. A outra tenta cobrir toda a trajetória do compositor e reúne mais de 50 músicas,incluindo clássicos como “Chega de saudade” e “Se todos fossem iguais a você”.

Costuma-se localizar a chamada fase ecológica de Tom nos anos 1970,época de discos como “Matita Perê” (1973) e “Urubus” (1976). Sukman,porém,argumenta que toda a obra do compositor é marcada pela influência da natureza,que ele encarou como uma fonte inesgotável de metáforas. Um exemplo é o samba-canção “Foi a noite”,de 1956,que já bendizia a natureza do Rio de Janeiro: “A montanha,o sol e o mar.”

O curador afirma que Tom foi seduzido pela natureza na infância numa Ipanema ainda pouco urbanizada,quando jogava bola e soltava pipa na praia. Num vídeo exibido na exposição,o maestro diz que o bairro era “um sonho”,a areia da praia era tão fina que até “cantava” com o impacto dos pés dos moleques.

Pelo caminho

O projeto Caminhão de Histórias nasceu em 2013,quando Renata Lima encheu um veículo com os “Bichos” de Lygia Clark (esculturas que podem ser manipuladas) e percorreu sete cidades portuguesas. Em 2019,ela montou,no Rio,a mostra “Arte sobre rodas”,com obras sensoriais de Clark e Hélio Oiticica (1937-1980). Em 2024,reproduziu a casa da escritora Clarice Lispector na carroceria de um caminhão que percorreu várias cidades brasileiras,de Santa Catarina ao Maranhão. O ano passado foi dedicado à mostra “Lixúria”,que visava à conscientização ambiental.

“Jobim-Açu: maestro da natureza” fica estacionada na Avenida Paulista até o dia 16 deste mês. Depois,o caminhão passa por outras nove cidades,como Paraty,Rio de Janeiro e Fortaleza.

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