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Presença de drones em aeroporto alemão pode ser primeiro passo da nova etapa da guerra de Putin contra a Otan

Aug 10, 2026 Ai IDOPRESS

Cargueiro ucraniano no aeroporto de Leipzig,na Alemanha — Foto: John MACDOUGALL / AFP

Autoridades alemãs afirmaram neste domingo ter avistado ao menos dois drones perto do aeroporto de Leipzig,dias depois da descoberta de uma aeronave não tripulada,carregada de explosivos,no mesmo local,a metros de um avião de transporte ucraniano. O caso não está sendo tratado como mera coincidência,mas sim como um possível indício do que seria a nova fase da guerra de Vladimir Putin na Europa: ao invés de concentrar suas ações apenas na Ucrânia,o Kremlin quer testar até onde vai a coesão dos aliados da Otan.

— Não estamos em guerra,mas somos alvo diário de uma guerra híbrida — declarou o ministro do Interior alemão,Alexander Dobrindt,em entrevista ao jornal Bild,horas antes do novo avistamento de drones em Leipzig. — Espionagem,sabotagem,ataques cibernéticos ou operações encobertas de potências estrangeiras com o objetivo de desestabilizar a Alemanha ou causar danos diretos são uma realidade constante.

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No ano passado,centenas de drones foram avistados perto de aeroportos civis na Espanha,bases militares na Polônia e instalações de uso duplo nos litorais da Noruega,Bulgária e Dinamarca. Voos chegaram a ser suspensos em alguns hubs,como Copenhague,e especialistas questionaram como,ou mesmo se seria possível,se proteger dos drones. As respostas foram,no mínimo,frustrantes.

— Nem todo aeroporto possui um sistema de detecção capaz de entender o que está acontecendo. Por isso,normalmente dependemos de pessoas em solo,equipes de segurança ou funcionários,para relatar avistamentos. E então,como você reage a isso? Se fosse para derrubá-los,quem faria o disparo? — questionou Jukka Savolainen,do Centro de Excelência Europeu para o Combate a Ameaças Híbridas,à rede alemã DW.

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Desde então,os drones,agora em menor número,continuaram a surgir nos céus europeus,especialmente em países próximos da Ucrânia — como Polônia e Romênia — e os Estados bálticos — Estônia,Letônia e Lituânia — que compartilham suas fronteiras com a Rússia,e desde o fim da União Soviética,em 1991,temem uma invasão de grande porte.

Mas os incidentes dos últimos dias parecem ser um passo adiante.

Na quinta-feira passada,um drone com uma carga considerável de explosivos foi encontrado perto de uma aeronave de transporte da Ucrânia em Leipzig,que levava a bordo uma carga de equipamentos militares para uso na guerra.

Segundo as autoridades locais,a aeronave foi descoberta por um funcionário do aeroporto,ao lado de dois cargueiros Antonov An–124,e só não explodiu por uma falha do detonador — se o mecanismo tivesse funcionado,o resultado seria devastador. No mesmo dia,um segundo drone colidiu com um avião de carga da empresa americana DHL,forçando um pouso de emergência em Hannover. Para Dobrindt,era a prova de que a Alemanha enfrenta “um novo tipo de perigo”.

— Considero grave a ameaça à Alemanha representada por ataques híbridos orquestrados pela Rússia — disse Roderich Kiesewetter,membro do partido Democrata-Cristão,que integra a coalizão governista,citado pelo jornal britânico Guardian. — Também acredito que a tentativa de ataque com drone no aeroporto de Leipzig foi um ataque híbrido direcionado. Ou seja,uma tentativa de ato terrorista,orquestrado pela Rússia.

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A Rússia rejeita as alegações sobre os dois incidentes em Leipzig,e tampouco se responsabilizou pelas ondas de drones sobre a Europa no ano passado.

— Há muitos políticos na Europa que agora tendem a culpar a Rússia por tudo. Eles sempre fazem isso sem fundamento,indiscriminadamente. É assim que vemos essas acusações — disse o secretário de Imprensa do Kremlin,Dmitry Peskov,em outubro passado à agência Tass.

Técnicos forenses da polícia preparam a operação de um robô antibombas perto de uma aeronave ucraniana no aeroporto alemão de Leipzig-Halle — Foto: Hendrik Schmidt/DPA/AFP

Em meio aos drones em Leipzig,o Wall Street Journal (WSJ) revelou na quinta-feira passada uma avaliação da inteligência dos EUA sobre uma mudança de planos em Moscou: pressionado na Ucrânia,Vladimir Putin estaria disposto a lançar um ataque limitado contra um dos membros da Otan na Europa,aproveitando fissuras na aliança (tornadas públicas pelo presidente dos EUA,Donald Trump),a queda nos estoques de armamentos defensivos e a aparente pouca disposição em Washington para novas guerras,diante de seus próprios problemas no Oriente Médio.

— Sempre foi um objetivo [da Rússia] desafiar a credibilidade da Otan e separar os Estados Unidos de seus aliados — disse Heather Conley,pesquisadora sênior do American Enterprise Institute,ao WSJ. — A grande incógnita é como os Estados Unidos responderiam a essa situação.

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Um ataque convencional,como o lançado contra a Ucrânia em 2022 ou contra a Geórgia em 2008,levaria ao acionamento do Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte,que trata do compromisso de defesa mútua entre os membros da aliança.

Mas ações híbridas,como definiu o ministro alemão,produzem efeitos localizados,são mais difíceis de atribuir responsabilidades e dificilmente acionariam a ordem de “um ataque contra um é um ataque contra todos”. Ao WSJ,Conley mencionou a pouca clareza sobre o modo de agir diante de ciberataques — que estariam na lista dos russos — ou drones,como os vistos na Alemanha,uma zona cinzenta que parece já ser explorada por Moscou. Segundo o jornal,as operações poderiam ocorrer em uma janela que vai do segundo semestre de 2026 até o início de 2029.

— O desafio da Otan sempre foi responder a um ataque que não acionasse o Artigo 5º,e é fato que,até o momento,os aliados da Otan preferiram não escalar a situação — acrescentou Conley.

Foi o que aconteceu em 2007,quando a Estônia sofreu o maior ciberataque de sua História,afetando bancos,empresas de comunicação,órgãos do governo e companhias privadas e públicas. A Rússia jamais assumiu a responsabilidade. Na ocasião,Moscou e Tallinn trocavam farpas devido à realocação de um memorial da Segunda Guerra Mundial na capital estoniana. A principal reação da Otan foi a criação do Centro de Excelência em Defesa Cibernética Cooperativa,sediado na Estônia. Nos últimos anos,ao menos 13 cabos submarinos foram danificados no Mar Báltico,em incidentes associados à Rússia e sua “frota fantasma”,causando problemas em larga escala.

“Convocamos a Rússia a cessar essas atividades desestabilizadoras,que desrespeitam as normas internacionais acordadas sobre o comportamento responsável dos Estados no ciberespaço. A Otan defende um ciberespaço livre,aberto,pacífico e seguro”,disse a aliança militar,em comunicado,no mês passado.

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No caso dos drones,a guerra na Ucrânia os consolidou como mecanismos extremamente eficientes para ataques pontuais — como o que poderia ter ocorrido em Leipzig — ou causar problemas nos céus. Sistemas convencionais de defesa aérea não se mostraram devidamente eficientes para combater essa ameaça,e os russos têm aprendido onde são os pontos fracos do espaço aéreo europeu. A curto e médio prazo,a aposta europeia na sorte,como a que deu certo em Leipzig,pode não se mostrar a mais acertada para conter a agenda bélica de Putin.

“Ucranianos e russos estão introduzindo gerações inteiramente novas de drones e defesas antidrones a cada poucos meses,e implantando-os em larga escala”,afirmou um artigo publicado pelo Centro de Análise de Políticas Europeias,em junho. “Os europeus simplesmente não estão acompanhando esse ritmo.”

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