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Incertezas sobre o papel dos EUA no Oriente Médio guiam pacto de segurança entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia

Aug 17, 2026 Ai IDOPRESS

Presidente da Turquia,Recep Tayyip Erdogan (E),príncipe herdeiro da Arábia Saudita,Mohammad bin Salman (C),e o premier do Paquistão,Shahbaz Sharif (D),na assinatura do Acordo Conjunto de Defesa de Meca — Foto: Gabinete do Primeiro-Ministro do Paquistão/AFP

Ao anunciarem,há pouco mais de uma semana,um dos mais importantes pactos de segurança em décadas,Arábia Saudita,Paquistão e Turquia destacaram que ele refletia o compromisso “em fortalecer ainda mais sua segurança coletiva e em promover a paz,a segurança e a estabilidade na região e além dela,em prol de um futuro seguro e próspero”. Apelidado por alguns de “Otan Islâmica”,o Acordo de Meca também foi uma resposta de três potências locais às guerras no Golfo Pérsico e,mais importante,à queda na confiança nos EUA como garantidores da segurança.

— Existe um fator estrutural que é o fato dos EUA não ter mais a mesma demanda de petróleo do Oriente Médio que havia no passado. O que resta hoje é a aliança com Israel e o fato da região ser um palco relacionado ao mercado global de energia — afirma Feliciano Guimarães,professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo,em entrevista ao GLOBO. — Os EUA sempre estarão presentes ali,mesmo sem a necessidade imediata do petróleo. Mas neste cenário,novos avanços e arranjos políticos começam a surgir.

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Espalhados por bases,instalações compartilhadas e porta-aviões,os EUA mantêm uma presença constante nos arredores do Golfo Pérsico há décadas,turbinada por conflitos eventuais,como as intervenções no Iraque,a ofensiva contra o Estado Islâmico e,desde 2023,pelas guerras ligadas aos ataques do Hamas contra Israel em 2023. No ano passado,os americanos bombardearam o Irã,no desfecho do conflito de 12 dias entre iranianos e israelenses,e desde fevereiro conduzem a “Operação Fúria Épica”,hoje em banho-maria

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O poderio foi posto em xeque nos primeiros momentos da guerra,com o fechamento do Estreito de Ormuz (que provavelmente não voltará ao status quo habitual no curto prazo) e com a incapacidade dos americanos em fornecer proteção aos aliados no Golfo. Cidades como Dubai,Abu Dhabi e Doha se viram à mercê das retaliações iranianas,desfazendo em dias a imagem de ilhas de estabilidade. Bases usadas pelos EUA foram alvejadas,assim como o território israelense,quebrando também,como aponta Samira Adel Osman,professora de História da Ásia da Universidade Federal de São Paulo,a ideia de invencibilidade contra uma força em tese mais frágil.

— Eles perderam o discurso de que poderiam acabar com o conflito rapidamente,que não haveria resistência,e que os acordos construídos anteriormente levariam à normalização das relações no Oriente Médio — afirmou Osman ao GLOBO. — Neste cenário,não vejo o Pacto de Meca como uma afronta aos EUA,mas ele mostra que os interesses da região estão além dos interesses dos Estados Unidos.

O presidente americano,Donald Trump,disse,ontem,em sua rede social,a Truth Social,que os três países deram um “primeiro passo grande,ousado e importante” ao firmarem o acordo.

“Estou muito feliz em ver que a Arábia Saudita,a Turquia e o Paquistão finalmente assinaram recentemente o Acordo Conjunto de Defesa de Meca. Isso mostra como o Oriente Médio está se unindo e como os países finalmente poderão se defender de maneira mais efetiva”,escreveu Trump.

O plano anunciado no dia 7 de agosto é uma expansão de um compromisso de segurança firmado entre Riad e Islamabad em setembro do ano passado,quando os ventos da guerra já sopravam nos arredores do Golfo Pérsico. Havia rumores de que o Egito poderia se juntar à iniciativa,o que não se concretizou. Ao GLOBO,Feliciano Guimarães,explicou que cada uma das partes chega com uma vantagem estratégica.

— A Arábia Saudita tem dinheiro,capacidade financeira e posicionamento geográfico estratégico — explica Guimarães,se referindo à proximidade dos estreitos de Bab el-Mandeb,na entrada do Mar Vermelho,e de Ormuz,protagonista da guerra entre EUA e Irã. — A Turquia tem uma indústria militar de padrão Otan,com uma produção de drones poderosos. E o Paquistão tem um Exército muito grande e é uma potência nuclear. Não se trata de uma Otan do Oriente,mas ela tem uma capacidade notável.

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O Acordo de Meca não se desenha como uma alternativa aos EUA: os três signatários são aliados de primeira hora da Casa Branca,e têm interesses diretamente atrelados aos americanos. A ideia,avaliam analistas,é criar opções. A crescente instabilidade do presidente Donald Trump,que faz anúncios e recua em quantidade industrial,foi determinante,assim como seus discursos sugerindo que os países deveriam assumir mais responsabilidades em suas defesas,repetindo um corolário adotado para a Europa. Até o momento,Washington não expressou insatisfação com a iniciativa.

— O que essa nova ordem demonstra é que o Oriente Médio talvez tenha que se repensar,talvez não com o mesmo alinhamento às políticas de Washington,e que precise buscar outras possibilidades. É necessário ressaltar que essa não é uma aliança feita com a Otan,com a Rússia ou com a China,mas sim entre três atores regionais — aponta Osman. — É o momento de olhar para dentro,olhar para o que acontece internamente.

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Apontado por alguns como o alvo do pacto,o Irã observou à distância o lançamento da iniciativa,reservando até alguns elogios. Abbas Moghtadaei,membro da comissão de Segurança Nacional do Parlamento,disse que o acordo expressa a “frustração regional com os EUA”. Esmail Baghaei,porta-voz da Chancelaria,afirmou que ele reflete uma “mudança de percepção” sobre Washington. Abbas Araghchi,ministro das Relações Exteriores,declarou que era um sinal de “irmandade genuína” entre muçulmanos.

Vozes conservadoras se mostraram cautelosas,lembrando que os sauditas foram atacados por drones e mísseis do Irã e aliados,e que bombardearam milícias aliadas de Teerã no Iraque e podem retomar a ofensiva militar contra os houthis no Iêmen. Editoriais em jornais ligados à Guarda Revolucionária destacam que um Irã forte,como o regime tenta se projetar,não necessariamente vai atrair novos amigos.

— Irã,Turquia e Arábia Saudita sempre se apresentaram como atores geopolíticos importantes,que disputam a hegemonia regional,e se viram envolvidos com as questões da Palestina e com o desenrolar da guerra — afirmou Osman. — O pacto,em certa medida,tenta responder a isso. O Irã não foi destruído,pelo contrário,saiu mais forte da crise,uma vez que conseguiu demonstrar sua capacidade de resiliência. Quando a crise arrefecer,haverá uma nova configuração,e esse pacto se antecipa a esse cenário futuro.

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Entre analistas,é quase consenso que o plano surge com um grande perdedor: Israel. A iniciativa conta com uma nação abertamente hostil (Paquistão),uma cujos laços foram abalados após a guerra em Gaza (Turquia) e outra que via como potencial membro dos Acordos de Abraão,mas que agora vê ainda mais distante (Arábia Saudita). Reservadamente,um membro do governo israelense disse ao portal Ynet que “este acordo nos preocupa”,e que “é uma aliança dirigida contra Israel”.

— Eu o vejo objetivamente como uma derrota para Israel,porque quando os sauditas buscam um novo pacto,não mais mediado por Israel,há uma perda da influência que os israelenses vinham construindo e que desejavam construir na região — aponta Osman.

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Novas movimentações começam a surgir. Na mesma entrevista ao Ynet,o funcionário israelense defendeu o fortalecimento dos laços com Grécia,Chipre,Emirados Árabes Unidos (já integrantes dos Acordos de Abraão) e com a Índia,que também expressou questões sobre a presença paquistanesa no plano. Em fevereiro,o premier Narendra Modi esteve em Israel,onde louvou os “laços civilizacionais” com o anfitrião e foi chamado de “irmão” pelo premier Benjamin Netanyahu. Em Nova Délhi,a Chancelaria disse que está “analisando suas implicações,tanto sob a perspectiva de nossa segurança nacional quanto em relação a considerações sobre estabilidade regional e paz”.

— Não podemos subestimar os Acordos de Meca,mas tampouco podemos superestimá-los. Ele ainda precisa ser provado,mas não deixa de ser uma inovação institucional importante — conclui Guimarães.

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