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Marieta Severo conta ‘história mágica’ que deu origem a livro sobre o diretor teatral Aderbal freire-filho, seu companheiro que morreu em 2023

Apr 14, 2026 Artes IDOPRESS

Aderbal Freire-Filho — Foto: Arquivo pessoal

RESUMO

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GERADO EM: 13/04/2026 - 18:36

Marieta Severo lança livro sobre legado de Aderbal Freire-Filho

Marieta Severo conta a "história mágica" que originou o livro sobre Aderbal Freire-Filho,seu companheiro falecido em 2023. Organizada por Patrick Pessoa,a obra "Teatro aberto: escritos de um diretor" reúne reflexões de Aderbal sobre teatro e política. O livro será lançado em 8 de novembro,no Teatro Poeirinha,data que seria o aniversário de 85 anos de Aderbal. A obra destaca o legado e a inovação teatral do diretor.

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Marieta Severo resolveu fazer a última visita ao apartamento do companheiro,Aderbal Freire-Filho (1941-2023),no Leblon,Zona Sul do Rio de Janeiro. É assim que começa a “história mágica”,como ela define,por trás do livro “Teatro aberto: escritos de um diretor”,organizado pelo filósofo,dramaturgo e crítico teatral Patrick Pessoa.

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A publicação reúne textos assinados pelo próprio Aderbal ao longo da vida e oferece um amplo panorama do pensamento de um dos nomes mais importantes dos palcos brasileiros. Percorre mais de três décadas de reflexões sobre teatro,política e criação artística.

Será lançada pela editora Cobogó no próximo dia 8,no Teatro Poeirinha. Data e o local não foram escolhidos por acaso. Nesse dia,Aderbal completaria 85 anos. No canteiro de flores daquele espaço — idealizado por ele,Marieta e Andréa Beltrão — estão depositadas as suas cinzas.

Aderbal Freire-Filho e Marieta Severo — Foto: Divulgação / Nil Caniné

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Mas vamos à tal história mágica...

Marieta e Aderbal formavam casal felicíssimo que nunca havia morado junto em 15 anos de namoro,“um acordo maravilhoso para duas pessoas que tiveram casamentos ótimos por 30 anos,mas queriam viver outras coisas”,resume ela. Mas quando ele sofreu um AVC,em 2020,a atriz montou uma UTI em sua casa,na Gávea,para acolhê-lo.

Um ano depois,diante da notícia de que não haveria recuperação,ela começou a organizar os pertences na casa dele. Doou as famosas calças jeans que ele não tirava do corpo e não poderia mais vestir. Doou os livros que ele mais amava,mas não conseguiria mais ler,para UniRio.

Restaram apenas algumas poucas obras,e Marieta fez questão de ir lá passar o olho pela última vez. Sabendo que também não seria nada fácil a derradeira despedida do apartamento onde compartilhou tantos momentos com seu amor,decidiu chamar Nelson Manhães,que trabalha no escritório da atriz,para apoiá-la.

— No que ele abre uma portinha do armário embaixo da estante e diz: “Sobrou um papel aqui...”. E eu: “Como assim sobrou um papel?” — conta ela,relembrando o espanto. — Já tínhamos feito a limpeza geral,reunido toda a papelada do Aderbal,inclusive,descoberto até contador passando a perna nele,enfim... Nelson me entregou as cinco folhas datilografadas. Quando comecei a ler,não acreditei: era um inventário dos quatro últimos anos de vida do Aderbal,com pensamentos e desejos escritos por ele quatro anos antes de completar 80 anos e dois antes do AVC.

Marieta Severo — Foto: Leo Aversa

‘Fiquei aturdida’

A ficha,então,caiu:

— Era uma carta em que me ele dirigia,dizia como queria que organizasse seus textos de teatro. Pensei: sou atriz; ele é diretor,tenho que obedecer suas marcas — continua ela.

ra exatamente o que ela viria a fazer. Mas antes precisou de um tempo para digerir tudo aquilo. Não entendia por quê,depois de tantos papos em que perguntava ao marido sobre seus projetos e pedia que listasse seus desejos,ele preferiu deixar uma carta. Uma carta que poderia nem ser encontrada...

— Eu vivia falando: “Vamos conversar,organizar a vida”. Que mulher não conhece isso? Uma coisa tipicamente feminina... e ele fazendo algo tipicamente masculino. — diverte-se.

A resposta talvez esteja na própria carta: “Sei que na loucura da novela ("O outro lado do paraíso") você não tem tempo de ler mais nada além do Walcyr Carrasco. Daí fico na dúvida e adio. Digo que vou mandar e adio”.

— Foi difícil lidar com tudo aquilo. Fiquei aturdida. Botei a carta na primeira gaveta da mesinha de cabeceira. Sabe esse lugar em que a gente enfia tudo ?

Quando se sentiu pronta,abriu a gaveta e começou por obedecer a primeira ordem de seu diretor contida na carta: “Cheguei a uma conclusão a respeito do livro sobre teatro que quis escrever e adio sempre: não tenho mais saco e tempo para escrevê-lo. Mas também cheguei a uma outra conclusão. De certa forma,já está escrito: Trata-se só de juntar meus muitos textos de programas de peças,entrevistas,prefácios... Às vezes,penso em contratar alguém...”.

Esse alguém se chama Patrick Pessoa,em quem Marieta pensou na hora. Cria de Aderbal no teatro,Patrick desenvolveu relação de parceria profissional,amizade e admiração com o diretor. Em seguida,a atriz procurou Isabel Diegues,da Cobogó,que viu nascer.

— Bel é filha da minha comadre (a cantora Nara Leão,mãe de Francisco,afilhado de Marieta). Para além das admirações e competências,tudo nesse livro é ligado pelos afetos — diz Marieta,dando nome ao fio que costura o projeto e deu origem ao livro “Teatro aberto: escritos de um diretor”.

Aderbal Freire Filho e Patrick Pessoa — Foto: Divulgação / Ana Paula Migliari

Marieta teve cuidado ao expor a intimidade do companheiro. Ficou na dúvida se tinha o direito de reproduzir trechos da carta como o que ele assume: “Não ganhei dinheiro,não fui um bom pai,não tenho netos.” A troca com Patrick foi fundamental para ela ir relaxando,“acomodando e sedimentando” as humanidades. Aos poucos,foi sentindo a confiança de que era bonito fazer dessa maneira,Aderbal aprovaria.

O amor rega também o desfecho do texto de Aderbal à mulher: “Em todos os meus sonhos estou com você. Eu te amo muito e nada é melhor do que estar perto de você.” Marieta sente falta dos longos papos (“a gente tinha muito assunto”),das viagens,da felicidade que,como diz o diretor na frase que abre o livro,“só é felicidade quando é compartilhada”.

— Tenho saudade da nossa vida juntos. Fomos casados com outras pessoas pelo mesmos 30 anos. O amor maduro é um presente que a vida te dá,uma oportunidade nova de poder viver um amor com a maturidade dos caminhos que já testou.

A trajetória de Aderbal

"Não é um livro sobre,mas do Aderbal,ele está encarnado ali”,brinca Patrick Pessoa,organizador de “Teatro aberto: escritos de um diretor”. Dividido em cinco capítulos,a obra traz um panorama abrangente da trajetória,do legado e pensamento de Aderbal Freire-Filho,que pode ser destacado em aspectos como a inovação na linguagem cênica e o compromisso com a resistência política e cultural.

Estão lá experiências importantes da carreira,como o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (CDCE),a passagem pela Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT),reflexões sobre políticas culturais e o papel do teatro na vida pública brasileira,além de iniciativas como o Teatro Poeira,que materializou sua concepção de teatro coletivo e aberto ao diálogo com o público.

As considerações do diretor sobre ofício são divertidas. “É um eterno angustiado,um suicida potencial. Entendo o enorme ego que um bando de diretores de teatro têm,coitados. Ninguém sabe o que eles fazem... O problema de ser artista sem rosto só deve incomodar a mãe do diretor,quando ela tem que explicar às amigas a profissão do filho”.

Montagem de "O que diz Molero" — Foto: Divulgação / Guga Melgar

As considerações dele sobre ofício do diretor são divertidas. Aderbal diz que todo mundo sabe o que faz o iluminador,o ator,o cenógrafo... Mas o diretor...: "É um eterno angustiado,um suicida potencial... Por isso,também entendo o enorme ego que um bando de diretores de teatro têm,coitados. Ninguém sabe o que eles fazem. Então esperneiam,vestem umas roupas diferentes. São uns marketeiros de primeira. Querem aparecer. O problema de ser artista sem rosto só deve incomodar a mãe do diretor,quando ela tem que explicar para as amigas a profissão do filho".

— Ele sempre teve essa sensação de invisibilidade,de que só existia como artista quando uma peça dele estava em cena. "Quando não está,o que eu sou?",pensava. Brincava porque tudo dele era permeado pelo humor,mas tinha essa angústia permanente — lembra Marieta Severo,que destaca a linguagem estilo "romance em cena" de montagens como como "O que diz Molero" e "O púcaro búlgaro". - A maneira que ele inventou de dramatizar um romance no palco é muito única. Foi uma grande contribuição para a linguagem do teatro. Aderbal era um professor de literatura.

Patrick faz coro e vai além:

- Tinha algo de paternal dele comigo. Estávamos trabalhando juntos quando ele fez 75 anos e eu tinha 37. Traduzimos "Na Selva da cidades",do (Bertolt) Brecth. Tinha uma confiança dele no que eu estava fazendo que fez com que o espaço do teatro se tornasse familiar para mim. Havia um contexto que me fez me sentir,finalmente,em casa,no teatro. Entendi que dava para trabalhar coletivamente. Além da paixão pela leitura para chegar na peça de teatro,a grande importância e contribuição do Aderbal era o trabalho de operação crítica em cima da obra. Ficava muito tempo convivendo com ela. E isso era muito parecido com o que eu fiz a vida inteira. Me fez perceber o que ele tinha de crítico,e de como a crítica podia ser uma criação.

Marieta conta que "o sentido do espetáculo" foi o que aprendeu de mais fino com ele:

— Tudo que acontecia em cena era fundamental para a magica teatral que ele queria criar: a maneira que a luz entrava,como o ator se movimentava,o figurino. Ele criava uma mágica cênica poderosa e muito tradutora do texto,havia uma fidelidade absoluta e uma invenção em cima daquilo. A visão cênica dele era muito precisa. Acreditava que cada elemento que estava no palco era precioso para contribuir para uma mágica que só acontece no palco.

Uma das passagens mais emocionantes do livro é a troca de emails entre ele e José Celso Martinez Correa,quando os dois falam sobre a importância de ter um teto todo seu para criar: Zé,o Teatro Oficina; Aderbal,o Poeira.

— Fui entendendo a importância de ter um espaço para criar. O Aderbal passou a maior parte da vida em condições econômicas precárias. Quando fui na casa dele,em 2015,fazer uma longa entrevista,ele tinha acabado de comprar (graças a união de uma herança + salário da TV Brasil,com que havia assinado contrato de trabalho por quatro anos + um empréstimo da Marieta) um quarto e sala no Jardim de Alah,e aquilo estava muito bom para ele. Isso me chamou atenção: um dos principais diretores teatrais do Brasil viveu nessa precariedade a vida toda.

No dia do lançamento do livro,numa noite que será comandada pela diretora Bia Lessa,também será lançado o site www.aderbalfreirefilho.com.br,com farta documentação da obra do diretor. É outro desdobramento do trabalho de organização e preservação do legado do Aderbal por Marieta.

Se ela está feliz com as realizações?

‑ É o meu presente de 80 anos e de 85 do Aderbal. Não preciso de mais nada! São muitas comemorações. Os astros deram as mãozinhas e estão abençoando. Tem o ponto não só de perpetuar o trabalho dele,de fazer ser mais difundido,mas da preservação da famosa memória,um dos pontos que sempre precisamos prestar atenção.

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— Aderbal foi muito apaixonada pelo que outras pessoas fizeram,era um mestre da admiração. O que fazia era ler livros que amou diante das plateias. Tinha algo de paternal dele comigo. Traduzimos juntos “Na selva das cidades”,do Brecht. A confiança dele no que eu estava fazendo fez com que,eu me sentisse em casa no teatro — diz o crítico teatral. — Além da paixão pela leitura,o trabalho da operação crítica em cima da obra era muito parecido com o que fiz a vida inteira. Me fez perceber como a crítica pode ser também criação.

Marieta conta o que de mais fino aprendeu com o diretor:

— Tudo que acontecia em cena era fundamental para a mágica teatral que ele queria criar: a maneira que a luz entrava,o figurino. Criava uma mágica cênica poderosa e tradutora do texto,havia fidelidade absoluta e uma invenção em cima dele. A visão cênica do Aderbal era precisa.

Uma passagem emocionante é a troca de emails entre ele e José Celso Martinez Correa sobre a importância de ter um teto todo seu para criar: Zé,o Poeira.

No dia do lançamento do livro,em noite comandada por Bia Lessa,outro desdobramento do trabalho de organização e preservação do legado do Aderbal por Marieta.

Se ela está feliz com os projetos?

— É o meu presente de 80 anos (a serem completados em novembro)! Não preciso de mais nada. Os astros deram as mãozinhas e estão abençoando.

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