
O presidente dos Estados Unidos,Donald Trump — Foto: Mandel NGAN / AFP/06/07/2026
Tem trazido sensatez aos debates a presença de representantes do empresariado e do meio acadêmico nas audiências públicas realizadas em Washington pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre o processo em que o Brasil é acusado pelo governo Donald Trump de práticas comerciais injustas e discriminatórias. No mês passado,o USTR sugeriu a imposição de tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Nesta semana,os afetados puderam apresentar seus argumentos,como já havia ocorrido depois do primeiro tarifaço.
Editorial: Socorro por tarifaço era necessário
Numa demonstração de como a questão tem implicações políticas,o senador Flávio Bolsonaro,pré-candidato do PL à Presidência,compareceu às audiências para tentar reverter ao menos em parte o estrago provocado pela ação desastrosa de seu irmão Eduardo e de seu grupo de bolsonaristas junto ao governo Trump. Por trazer elementos mais sólidos,porém,é a atuação das empresas que poderá surtir algum efeito sobre as autoridades americanas.
Editorial: É deplorável celebrar tarifas para ganho político
As entidades presentes nas audiências terão cinco dias para enviar documentação complementar,em seguida o USTR fará sua recomendação final. Em paralelo,o governo brasileiro negocia com os americanos. Como sempre ocorre com Trump,a decisão deverá ter fundo político. Mas a melhor estratégia à disposição do Brasil é a ação conjunta entre governo e o empresariado. Noutras ocasiões,Trump já se mostrou suscetível a pressões e recuou.
O USTR acusa o Brasil de práticas que considera prejudiciais aos Estados Unidos: decisões arbitrárias da Justiça contra plataformas digitais,o uso de um sistema de pagamento eletrônico desfavorável a bandeiras de cartão de crédito (Pix),tarifas baixas que beneficiam produtos de outros países em detrimento dos americanos,barreiras ao etanol,negligência na proteção da propriedade intelectual,no combate à corrupção e ao desmatamento ilegal. Noutra investigação,que se debruçou sobre alegações de trabalho forçado e incluiu vários países,o USTR propôs mais 12,5% de tarifa sobre produtos brasileiros.
No primeiro dia de audiência,representantes brasileiros mostraram que elevar as tarifas aumentará os custos da indústria americana,com impacto inflacionário. “As perguntas foram mais técnicas,mais específicas e mais aprofundadas”,disse ao GLOBO Marcos Matos,diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil. Desta vez,entidades dos dois países trabalharam de forma mais colaborativa. Em carta,multinacionais como Coca-Cola,Nestlé,Tesla e eBay alertaram sobre os impactos negativos das tarifas para o consumidor americano. No painel sobre o Pix,depoentes ressaltaram que Índia e Estados Unidos também têm sistemas de pagamento digital.
Desde o tarifaço de 2025,Trump tenta usar barreiras comerciais para interferir em assuntos domésticos do Brasil. Candidato preferido de Trump,Flávio encaminhou documento ao USTR solicitando que as tarifas sejam adiadas para depois das eleições,pois agora podem fortalecer o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É um argumento ruim,que reflete um misto de desespero com oportunismo. Quanto mais distante a política se mantiver do debate,melhor. O tarifaço deveria ser cancelado por ter bases frágeis. A saída são negociações técnicas e sensatas.
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