
O jornalista Helio Gurovitz,editor de opinião do GLOBO e autor de 'Meia-palavra' (Cajuína) — Foto: Divulgação
Fascinado pelos mistérios do tempo,o jornalista Helio Gurovitz,editor de opinião do GLOBO,sempre resistiu à chamada Teoria B,a tentativa de explicá-los mais aceita pela física e pela filosofia analítica. Enquanto a Teoria A sustenta que a passagem do tempo é um fenômeno real (os acontecimentos deixam de ser futuros,tornam-se presente e depois passado),a Teoria B afirma que passado,presente e futuro não têm realidade objetiva. Apenas descrevem a posição dos eventos em relação uns aos outros. Ou seja: todos momentos coexistem e a passagem do tempo é uma ilusão da nossa consciência.
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Formado em ciência da computação e fluente na linguagem matemática,Gurovitz decidiu contestar a Teoria B — não no campo da física ou da filosofia,mas na ficção. João,um dos personagens de “Meia-palavra” (Cajuína),seu romance de estreia,desenvolve o Teorema de Katz para provar que o tempo de fato existe.
— O livro nasce de um certo inconformismo meu com essa visão predominante sobre o tempo. Sabemos que nosso tempo é limitado,temos que tirar o melhor proveito dele e isso gera muita angústia — diz o jornalista de 58 anos,que lança “Meia-palavra” nesta quinta-feira (23),às 19h,na Casa República,durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
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O romance,que atravessa décadas e se estende por mais de 800 páginas,acompanha cinco amigos da infância à maturidade: João é um cientista introspectivo,frustrado com a precarização do trabalho intelectual. Paulo é um jornalista competente e ambicioso,que enfrenta desafios na vida afetiva. Sérgio é um músico boêmio e sedutor. E Bóris e Max são gêmeos: o primeiro é arquiteto dos ricos e famosos e o segundo vive afastado do irmão (de quem era inseparável) e descobriu tardiamente sua homossexualidade. No começo da narrativa,topamos com os cinco,todos com cerca de 30 anos,num réveillon na mesma praia onde se divertiam nos verões da adolescência. Eles haviam combinado de voltar ao local na virada de 1999 para 2000.
No reencontro,ensaiam-se algumas reconciliações,conflitos futuros já começam a dar as caras e eles se perguntam quem é que ganhou a aposta filosófica feita anos antes. “João dizia que nada mudaria nas nossas vidas. Seríamos os mesmos,com as mesmas ideias,os mesmos defeitos e os mesmos problemas. Eu dizia que não,que a gente poderia mudar tudo e ser bem-sucedido em milhares de coisas”,recorda Paulo. Às vésperas do ano novo,porém,as opiniões deles a respeito do tempo já não eram as mesmas da adolescência e ninguém sabia dizer quem tinha razão.
Cada um dos cinco encara de maneira distinta as grandes questões da vida. O tempo é uma delas. A religião é outra. João,por exemplo,se interessa pela tradição intelectual do judaísmo,enquanto para os gêmeos a religião era identificada com memória e a origem familiar. Gurovitz optou por explorar os assunto por meio das visões de diferentes personagens para evitar que o romance tivesse uma única voz e que esta estivesse muito colada à do autor.
— Uma característica,não necessariamente um problema,da literatura contemporânea é um certo narcisismo. Os autores acabam projetando suas vidas nos personagens,a expressão mais acabada desse fenômeno é a autoficção. Quis fugir dessa fórmula,que me pareceu uma saída fácil — afirma Gurovitz,que passou oito anos trabalhando em “Meia-palavra”. — O mundo é complicado,a mesma questão pode ser abordada com diferentes focos,os mesmos fatos inspiram interpretações diversas. Meu objetivo foi construir personagens que tivesse visões plurais diante da vida.
O romance é hábil em mostrar impacto do tempo histórico — marcado por eventos como a queda do Muro de Berlim,o 11 de Setembro e os protestos de junho de 2013 — nas vidas dos personagens. Um dos capítulos narra a correria na redação onde Paulo trabalhava durante a cobertura do atentado terrorista que derrubou as torres do World Trade Center — ele não imaginava que seu futuro profissional também se decidia naquele dia. Anos depois,o bar mitzvá de seu filho e o casamento de Max se realizam nas datas das maiores manifestações de 2013. Algumas figuras do passado recente fazem aparições no livro,como o guru da direita Olavo de Carvalho (1947-2022) e Antonio Palocci,ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff.
Gurovitz diz que,filosofia e ciência à parte,“Meia-palavra” é sobre o tempo que coube à sua geração viver:
— Correndo o risco de simplificar demais as coisas,eu acho que a minha geração vai entregar o mundo pior do que o que nós herdamos,que era o mundo do pós-guerra,de valores consolidados. A Humanidade tinha atravessado dores profundas e parecia ter superado certas questões. Hoje,olhando para o mundo que estamos deixando aos nossos filhos,percebo que o que a gente achava que tinha sido resolvido não foi — diz o autor.
Quanto à dúvida de João e de Paulo — se o tudo permanece o mesmo ou se o tempo muda tudo —,“Meia-palavra” dá bons argumentos para ambas as hipóteses.
— Não acho que a haja uma resposta. A literatura nos ajuda a mudar a qualidade das perguntas,se dedicarmos energia a elas — aposta Gurovitz. — Talvez a mudança seja uma ilusão da nossa cabeça,mas eu,assim como os personagens,já vivi situações de profunda transformação,se não objetiva,pelo menos subjetiva. E a subjetividade é o campo da literatura por excelência.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro