
Foguete Hanbit-Nano,que será lançado do Centro de Lançamentos de Alcântara — Foto: Divulgação / FAB
O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) prepara-se para um volume de operações inédito na última década,com três voos programados neste segundo semestre. A base aeroespacial tem longa tradição militar,mas as missões que rasgarão o céu do Maranhão ainda este ano terão o ritmo ditado quase exclusivamente pela iniciativa privada. Essa dinâmica,que agora ganha tração no Brasil,já é vista em outros países,impulsionando uma renovada corrida espacial.
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A startup sul-coreana Innospace é a mais proeminente inquilina de Alcântara e prepara o lançamento do foguete suborbital Sebit este mês — a previsão é o próximo dia 19. Na sequência,retomará a campanha orbital do Hanbit-Nano,que passou por rigorosos reforços estruturais após a falha na primeira missão e por uma apuração completa do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa),finalizada em junho.
O Hanbit-Nano é um lançador orbital de pequeno porte,projetado para colocar em órbita satélites comerciais de até cerca de 90kg destinados,por exemplo,a comunicações,segundo o Ministério da Ciência,Tecnologia e Inovação.
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O projeto visa transformar o Maranhão em um polo permanente e gerar demandas locais de logística e aquisições. A empresa asiática afirma que o interesse no Brasil vai muito além da posição equatorial,que propicia economia de combustível.
— Para a Innospace,Alcântara não é apenas um local de lançamento geograficamente vantajoso,mas uma importante base operacional e de negócios apoiada por cooperação institucional estabelecida e experiência acumulada de campanha — afirma Jae Min Kim,porta-voz global da empresa.
A startup sul-coreana já atua no país por meio de sua subsidiária local,a Innospace do Brasil,estabelecida em novembro de 2020,e tem um acordo de uso do centro espacial válido por cinco anos,assinado em 2022. À medida que a frequência de voos e a escala de negócios aumentarem,o plano é fomentar a cadeia produtiva maranhense.
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— A empresa tem como objetivo gerar uma demanda comercial sustentável por lançamentos e contribuir para o desenvolvimento de um ecossistema conectado com as capacidades institucionais,industriais e de pesquisa do Brasil — acrescenta Kim.
Ele destaca ainda que a prioridade imediata é garantir a execução de serviços de forma segura e regular a partir de Alcântara.
Esse ecossistema em movimentação impulsiona,de forma simultânea,o Microlançador Brasileiro (MLBR). Financiado com R$ 189 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico,o projeto visa inserir o Brasil no lucrativo mercado de pequenos satélites. O veículo encontra-se na fase de testes em solo de seus motores,aguardando ensaios de carregamento de propelente e acionamento em bancada.
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A engenhosidade brasileira encontrou um atalho na infraestrutura asiática: componentes do MLBR estão “pegando carona” nos lançamentos da Innospace para realizar validações na prática. Para os idealizadores do projeto,o intercâmbio com operadores globais no mesmo espaço acelera o amadurecimento da indústria local.
— O MLBR foi concebido desde o início considerando sua inserção no mercado de lançamentos. Embora o acesso autônomo do Brasil ao espaço seja um objetivo estratégico,o mercado de pequenos satélites é global,e há potencial para atender clientes de diferentes países — afirma Rafael Mordente,CEO da Concert Space,empresa integrante do consórcio nacional.
Apesar do otimismo corporativo,a nova economia espacial do Brasil esbarra em desafios profundos. Segundo especialistas,a falta de infraestrutura básica ameaça a viabilidade e a permanência de clientes estrangeiros a longo prazo.
Pedro Palotta,analista de missões espaciais do canal Space Orbit que acompanhou in loco o último lançamento da Innospace,observa que a cadeia de suprimentos no Maranhão é precária,o que dificulta o atendimento das exigências de clientes internacionais. Ele relata a inexistência de um porto para o desembarque de peças pesadas e alerta sobre a inviabilidade da atual malha viária.
— Para mandar um caminhão de oxigênio líquido,algo muito necessário para fazer lançamento de foguetes,você precisa pegar oito horas de estrada — adverte Palotta. — A única forma de atravessar para Alcântara,vindo de São Luís,é com ferry boat,no qual vários caminhões não passam,mal tem sinal de celular. Sem investimentos,as empresas estrangeiras vão se mudar para onde consigam operar sem todos esses problemas.
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João Ribeiro Júnior,engenheiro que já chefiou o Departamento de Desenvolvimento Aeroespacial da Infraero e foi vice-diretor técnico da extinta binacional Alcântara Cyclone Space (ACS),também cita a dependência crônica de investimentos massivos:
— A instalação de um Complexo de Lançamento para um veículo de grande porte,somada às infraestruturas básicas como porto de atracagem,prédio de preparação de satélites,hangares e acomodações de cargas,exigirá investimentos que ultrapassarão US$ 1 bilhão.
Esse cenário impõe um choque de realidade às expectativas financeiras que cercam a exploração comercial da base. A necessidade de arcar com cifras monumentais,aliada aos gargalos logísticos e à ausência de garantias estatais robustas,coloca em xeque a ideia de que o mercado conseguirá,por si só,solucionar as deficiências de Alcântara.
Para analistas,a relutância do Estado em assumir esse custo reflete a forma como o país tem lidado com o setor aeroespacial. Segundo Ribeiro Júnior,mais do que uma eventualidade,o descompasso é estrutural e reflete uma política marcada por desaceleração ou interrupção das iniciativas nacionais após o trágico acidente com o foguete VLS,em 2003,que afastou o país do desenvolvimento de veículos próprios.
O cientista político e professor de Relações Internacionais Maurício Santoro avalia que o arrendamento das instalações para a iniciativa privada estrangeira acaba se tornando a alternativa mais pragmática diante do histórico do setor:
— O ideal seria um modelo atrelado à transferência de tecnologias e outras formas de parceria. Mas não vivemos nesse mundo,e a segunda melhor opção para o Brasil é ceder o uso do Centro de Lançamento em troca de uma remuneração financeira. Os líderes políticos nunca consideraram a área como prioritária,ela sempre teve de disputar verbas escassas com vários outros projetos governamentais.
Hoje,o que há de mais próximo ao modelo ideal traçado por Santoro é o esforço coletivo em torno do MLBR,cuja principal bandeira é o domínio da tecnologia orbital com capital 100% doméstico,garantindo autonomia estratégica na nova era espacial.
— Hoje,dependemos da disponibilidade de lançadores e bases de outros países. Com essa capacidade instalada no Brasil,poderemos executar programas espaciais voltados para áreas como monitoramento ambiental,comunicações,pesquisa científica,agricultura,gestão de desastres e defesa — conclui Mordente.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro