
A ex-presidente do Chile e líder do Balanço Ético Global (BEG),Michelle Bachelet,a ministra Marina Silva e o presidente Lula — Foto: Divulgação
A disputa pela sucessão do português António Guterres como secretário-geral da ONU tem colocado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em lado oposto aos seus vizinhos sul-americanos. Em meio à tensão diplomática com Argentina e Paraguai,Lula tem feito campanha para a ex-presidente chilena Michelle Bachelet,enquanto o presidente argentino,Javier Milei,e o paraguaio,Santiago Peña — além do próprio chefe de Estado chileno,José Antonio Kast — apoiam o diplomata argentino Rafael Grossi,atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea).
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O cargo é tradicionalmente rotativo,embora não exista uma regra sobre a nacionalidade de quem deve assumir. Assim,após quase dez anos de comando europeu,a expectativa é que o eleito seja da América Latina,ainda que outros países possam apresentar suas candidaturas. A última vez que um latino-americano esteve no posto foi com o peruano Javier Pérez de Cuéllar,entre 1982 e 1991.
Bachelet e Grossi figuram entre os favoritos,ao lado de Rebeca Grynspan,ex-vice-presidente da Costa Rica,e Carolyn Rodrigues Birkett,embaixadora da Guiana. Também estão na disputa María Fernanda Espinosa,diplomata do Equador,e Macky Sall,ex-presidente do Senegal e único candidato fora da América Latina.
O governo brasileiro chegou a discutir formas de apoiar financeiramente a candidatura de Bachelet,após o próprio governo chileno retirar o apoio. O nome dela havia sido lançado em fevereiro,quando Gabriel Boric,de esquerda,ainda governava o Chile. Alinhado à direita sul-americana,após tomar posse,Kast também decidiu endossar Grossi.
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A eleição de um novo secretário-geral não tem uma data para acontecer,e a escolha ocorre por meio das chamadas “straw polls”,votações informais e confidenciais realizadas entre os 15 integrantes do Conselho de Segurança da ONU. Nesse formato,a cada rodada,os países membros do colegiado avaliam os concorrentes por meio de três opções: “incentivar”,“desencorajar” ou “sem opinião”.
Como a votação é secreta,os resultados detalhados não são divulgados oficialmente,embora o desempenho dos candidatos costume influenciar as negociações diplomáticas nas semanas seguintes. A primeira reunião,em 30 de julho,indicou favoritismo para Grynspan.
No Palácio do Planalto,o nome da costa-riquenha é visto como positivo,mas a defesa por Bachelet segue inalterada. Na avaliação de Lula,Bachelet tem o melhor histórico para assumir o comando da ONU. Além de presidir o Chile por dois mandatos,ela foi diretora da ONU Mulheres e Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos entre 2018 e 2022.
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Professor titular de Relações Internacionais da UnB,Roberto Goulart Menezes lembra que Bachelet liderou uma forte iniciativa diplomática para aproximar a Aliança do Pacífico e o Mercosul durante seu segundo mandato,é entusiasta da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e de mecanismos de governança regional,pautas também defendidas por Lula.
— O apoio do Brasil é muito importante,tem um peso diplomático de buscar voto com países do Caribe e africanos. Há também um trabalho de bastidor,o apoio de Lula não é protocolar — afirma Goulart Menezes.
Para impulsionar a candidatura de Bachelet,o Brasil precisa reunir pelo menos nove votos favoráveis no Conselho de Segurança e,sobretudo,evitar o veto de qualquer um dos cinco membros permanentes do órgão: China,Estados Unidos,França,Reino Unido e Rússia. Na semana passada,Lula defendeu o nome da chilena em telefonema para o presidente russo,Vladimir Putin.
A próxima rodada de votação informal do Conselho de Segurança ocorrerá no fim de agosto. O Palácio do Planalto vê a disputa em aberto e espera que não haja cenário definido até a Assembleia Geral da ONU,em Nova York,que começa em 8 de setembro.
Vice-presidente do conselho curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri),o embaixador José Alfredo Graça Lima relativiza o peso do apoio de Argentina,Chile e Paraguai a Grossi,lembrando que é o aval dos integrantes permanentes do Conselho de Segurança que fará a diferença na escolha final:
— Será muito fácil para França ou Reino Unido carregar votos de países de origem africana. Se eles fixarem apoio na costa-riquenha,que lidera as consultas,ela leva. Costa Rica é país amado por todos,não tem contencioso com ninguém. Sendo da região (América Latina),é o que interessa.
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A disputa nos bastidores entre Lula e os vizinhos pelo comando da ONU ocorre no momento mais tenso da relação diplomática entre Brasil e Argentina,após Milei chamar o petista de “corrupto”,“ladrão” e “presidiário”. Em resposta,o governo brasileiro rebaixou o nível das relações diplomáticas com a Argentina. Com a decisão,o embaixador brasileiro Julio Bitelli não voltará para Buenos Aires. A representação diplomática passará a ser comandada por um encarregado de negócios. Com isso,o embaixador da Argentina no Brasil,Guillermo Daniel Raimondi,perde,na prática,suas funções como representante argentino em território brasileiro.
O Planalto rejeita a ideia de que uma derrota de Bachelet representaria um fracasso diplomático de Lula. Na avaliação de auxiliares,apenas haveria ônus político para Lula se Bachelet desistisse da disputa por algum veto de membro permanente do Conselho de Segurança,como os Estados Unidos. A expectativa é que Donald Trump opte pelo candidato menos progressista,que não faça defesas enfáticas sobre governança global.
O presidente brasileiro costuma ser crítico à falta de eficácia da ONU na mediação de conflitos mundiais e não concorda com o poder concentrado dos membros permanentes do Conselho de Segurança — EUA,Reino Unido,China,Rússia e França. Mais de uma vez,chamou os presidentes desses países de “senhores da guerra”. Ao discursar em fóruns mundiais,Lula tem cobrado a reforma do órgão e uma maior representação da América Latina e da África.
— Os cinco membros do Conselho de Segurança,os membros permanentes,que,quando se criou o Conselho de Segurança,era para garantir a paz no mundo após a 2ª Guerra Mundial,viraram os senhores da guerra — afirmou Lula na reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia,na Espanha,em abril.
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