
Francisco mostra a foto de Breno,que era envolvido com o tráfico da Cidade de Deus — Foto: Marcelo Theobald
GERADO EM: 11/04/2026 - 18:47
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De cabeça baixa e voz contida,o sargento da Polícia Militar Francisco (nome fictício) fala como se cada palavra exigisse um enorme esforço. É março de 2026,mas a memória insiste em levá-lo de volta a 2021,quando passou 21 dias internado com Covid-19 no hospital da corporação. Foi acompanhado pelo filho Breno Barbosa Diniz,que,na época,fotografou um quadro na parede na unidade de saúde com os dizeres: “Enquanto há vida,há esperança”. Hoje,a frase não faz mais sentido para o pai.
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Ele já não tem esperança de encontrar o filho vivo. Quer apenas recuperar o corpo de Breno,de 24 anos,que desapareceu em 19 de fevereiro na Cidade de Deus,Zona Sudoeste do Rio,onde atuava como gerente do tráfico de drogas. A angústia de Francisco diante da falta de respostas sobre o paradeiro do jovem se mistura ao temor de que a própria farda possa ter contribuído para a morte do filho.
O rapaz ocupava uma função de destaque no tráfico local: era gerente de uma boca de fumo no conjunto habitacional conhecido como AP (Apartamentos) da Cidade de Deus,onde nasceu e foi criado. Cabia a ele coordenar a venda de drogas em pelo menos dez pontos e monitorar a movimentação policial no entorno da comunidade. No dia seguinte ao desaparecimento,parentes ouviram de traficantes da região que Breno foi considerado “X9”,termo usado para rotular informantes.
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Francisco não conseguiu escolher a foto do filho para o cartaz de desaparecido,feito pela família em busca de informações sobre a localização de Breno. Sempre que olha para uma imagem do rapaz,segura a fotografia com força e começa a chorar. Mas logo a couraça dos 15 anos de Polícia Militar toma conta e o policial se recompõe. Breno é um dos 19 filhos de Francisco e,segundo o pai,era uns dos mais próximos:
— Foi um dos filhos que mais se preocupou comigo (durante a internação). Ficou em casa cuidando dos outros irmãos do casamento atual para que minha esposa pudesse me acompanhar no hospital.
O jovem,diz Francisco,era estudioso na infância,tirava boas notas e concluiu o ensino médio. Foi um adolescente brincalhão e atrevido,mas nunca causou preocupação à família. Para o pai,Breno acabou sendo iludido pela criminalidade e pela sensação de poder.
— O que aconteceu com meu filho foi ilusão,que é o que acontece com esses adolescentes. É decepcionante,principalmente porque ele tinha estudo e podia ter corrido atrás de coisas honestas. Ele não tinha motivo para entrar nesse mundo. Ele não precisava — afirma.
O policial conta que desconfiou do envolvimento de Breno com o tráfico em 2023 e tentou convencê-lo a se afastar de alguns amigos e ir morar com ele em uma cidade do interior. Não conseguiu.
— Se eu tivesse certeza,poderia ter feito algo. Ele teria que responder pelos crimes como qualquer outro,não passo a mão na cabeça. Mas no Brasil não existe pena de morte. O que fizeram com ele foi homicídio — diz Francisco.
Quando a família perguntava sobre a origem do dinheiro e os horários de trabalho incomuns,Breno usava como justificativa o ferro-velho que tinha na comunidade. O pai chegou a tentar pegá-lo de surpresa em algumas ocasiões; Francisco afirma,porém,não ter encontrado indícios de envolvimento com o crime.
A confirmação só veio em 21 de fevereiro,dois dias após o desaparecimento do jovem. Desarmado e sozinho,Francisco percorreu cinco comunidades dominadas pelo Comando Vermelho em busca de respostas sobre o paradeiro de Breno. Em todas teve a mesma resposta: o que aconteceu com Breno ocorreu nos Apartamentos. Foi na Cidade de Deus que ouviu de um bandido que o rapaz estava no crime.
— Descobrir pela boca de um traficante que meu filho era gerente da boca foi um choque — afirma o sargento.
Um inquérito da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) aponta que o jovem foi vítima de homicídio e ocultação de cadáver. Ao menos cinco traficantes são investigados,entre executores e mandantes. A hipótese de que Breno teria sido morto por ser filho de policial é considerada,mas não é a principal linha de investigação.
Breno e a família estiveram juntos pela última vez em 16 de fevereiro,numa festa de aniversário. Nas imagens registradas,o jovem aparece sorrindo e brincando com crianças. Três dias depois,já na noite do dia 19,ele foi visto em um churrasco numa praça da Cidade de Deus. Pouco depois,foi até um local conhecido como Embala,onde é feita a endolação de drogas,e não deu mais notícias. O último contato foi uma mensagem enviada à namorada por volta das 23h.
O rapaz teria ido ao local para resolver com traficantes uma dívida de R$ 29 mil,que adquiriu após perder parte das drogas durante uma ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
O desaparecimento de Breno mergulhou a família numa busca incessante. Sem apoio oficial,parentes foram até uma área de desova de cadáveres na Cidade de Deus e cavaram,em meio à lama,na esperança de encontrar o corpo,até que foram ameaçados e expulsos por criminosos.
Foi em uma postagem numa rede social em 21 de fevereiro — vista quase um mês depois — que,pela primeira vez,alguém falou sobre a morte de Breno. Um colega de infância do jovem postou uma foto dele e escreveu que o “dinheiro foi chegando e as falsas amizades também” e que tentou tirar o jovem dessa “vida maldita”,mas não conseguiu.
Enquanto lida com a decepção de o filho ter se tornado criminoso e enfrenta o luto,o policial,afastado das funções por licença médica,está frustrado com a corporação.
— Estou destruído,decepcionado com a minha corporação. Disseram que não era simples,que precisava pensar em uma operação. E ficou por isso. Meu batalhão está tratando como se tivessem matado uma galinha,não meu filho. Sou policial militar,não existe largar o corpo de um filho lá dentro — afirma Francisco,que segue percorrendo unidades do Instituto Médico-Legal (IML) e hospitais da cidade à procura do corpo.
— Como policial,sei que,quando o chefe (do tráfico) não quer,o corpo não aparece. Mas,como pai,eu continuo procurando. Eu só quero justiça e o corpo do meu filho — conclui.
19 de fevereiro: Breno desaparece à noite,após sair de um churrasco em uma praça da Cidade de Deus e ir se encontrar com outros traficantes. O último contato foi com a namorada,às 23h.
20 de fevereiro: A família fica sabendo do sumiço de manhã,pela namorada,e inicia as buscas.
21 de fevereiro: Familiares vão até o Sítio,ponto de desova de cadáveres,para escavar o local em busca do corpo de Breno,mas são ameaçados e expulsos por criminosos. Também percorrem hospitais e vão ao Instituto Médico-Legal (IML). O pai registra o desaparecimento na 32ª DP (Taquara).
De 21 a 25 de fevereiro: O pai percorre ao menos cinco comunidades dominadas pelo Comando Vermelho em busca de notícias sobre Breno
3 de março: Francisco informa à Delegacia de Descoberta de Paradeiros o que descobriu.
9 de março: O pai pede ajuda ao batalhão onde trabalha para a recuperação do corpo do filho.
19 de março: O ferro-velho administrado por Breno na Cidade de Deus é incendiado por criminosos. Na mesma noite,traficantes comemoram a morte do rapa
* Estagiária sob supervisão de Giampaolo Morgado Braga
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro