
Homem passa por painel com imagens do aiatolá Ali Khamenei e de seu filho,Mojtaba Khamenei,nos subúrbios ao sul de Beirute; Hezbollah agradeceu ao Irã por incluir o Líbano no acordo para encerrar a guerra no Oriente Médio — Foto: Anwar Amro/AFP
GERADO EM: 24/06/2026 - 20:26
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O sistema de poder do Irã continua supostamente o mesmo,com um líder supremo religioso e outras figuras do clero no Conselho dos Guardiães. Há ainda um presidente eleito pela população em eleições com restrições a candidatos e um Parlamento também escolhido por votação. Ambos sempre cuidaram mais do dia a dia do país,mas estavam abaixo dos aiatolás.
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Este modelo,no entanto,sofreu uma profunda transformação desde que os Estados Unidos e Israel decidiram atacar o Irã e matar o então líder supremo,Ali Khamenei,em bombardeio no final de fevereiro. O novo líder supremo,não desfruta do mesmo poder de seu pai. Seu estado de saúde ainda seria grave,ele ainda não apareceu em público e é visto mais como uma liderança simbólica.
Não dá para dizer que alguém seja o ditador do Irã,embora o regime seja ditatorial. Isto é,não há um Saddam Hussein ou um Bashar al-Assad,para usar como exemplo dois célebres ditadores da região que acabaram derrubados. Por este motivo,matar Khamenei não significou o fim do regime,diferentemente do que aconteceu no Iraque e na Síria após a queda de seus ditadores.
Passadas algumas semanas do início da guerra e após ataques matarem outras lideranças como Ali Larijani,formou-se uma espécie de junta para comandar o país na guerra e agora nas negociações. É um grupo de radicais com origem nas Guardas Revolucionárias.
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A atual junta que comanda o Irã está empoderada por ter sobrevivido à guerra contra os EUA e Israel. Negocia com Donald Trump em posição de força. Provou no conflito ter a capacidade de fechar o Estreito de Ormuz e atacar aliados americanos no Golfo Pérsico quando bem entender. Fortaleceu mais uma vez o Hezbollah no Líbano contra os israelenses,após o grupo claramente ficar enfraquecido na derrota na guerra de 2024,tendo inclusive de aceitar um governo adversário político em Beirute.
Integram a junta,entre outros que podem ser facilmente substituídos,o ex-prefeito de Teerã e presidente do Parlamento,Mohammad Ghalibaf,com histórico nas Guardas Revolucionárias; Ahmad Vahidi,comandante das Guardas Revolucionárias e conhecido por ser acusado de ter sido o arquiteto dos atentados terroristas contra alvos israelenses e judaicos em Buenos Aires nos anos 1990; e Mohammad Zolghadr,outro veterano das Guardas. Agem por consenso e levam em consideração posições de figuras mais extremistas e de mais moderadas dentro do regime.
Internamente,esta junta não se sente responsável para administrar questões como economia,saúde,educação e transporte dentro do Irã. Esta parte cabe ao presidente Masoud Pezeshkian,de uma linha mais moderada do regime e com pouca voz nas decisões envolvendo a guerra. O conflito também ajudou a conter ao menos momentaneamente os movimentos de protesto pedindo a queda do regime como os do começo do ano,quando ao menos 7 mil manifestantes teriam sido mortos.


Mesmo antes daquelas manifestações,já havia ocorrido uma liberalização em questões sociais,como uma tolerância maior com mulheres não se cobrirem e eventos como shows de música — longe de dizer que haja liberdade,embora atos pró-governo contem com mulheres sem o véu cobrindo o cabelo,segundo relato do New York Times em Teerã. Portanto,Trump e seu aliado Benjamin Netanyahu não derrubaram o regime,mas ajudaram a transformá-lo,ainda que não na forma como desejavam: hoje é um regime militarista,nacionalista,mais laico e ousado do que o anterior.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro