
Leila Pereira,presidente do Palmeiras,e Bap,seu homólogo no Flamengo — Foto: Montagem sobre fotos do Jornal O Globo
Os últimos movimentos de clubes brasileiros nas redes sociais indicam uma mudança de paradigma na conturbada relação com a arbitragem nacional. Saem as notas de repúdio genéricas e entram reclamações com uma nova linguagem,mais elaborada,visual e estratégica. Em vez de apenas protestar contra um erro de campo,eles têm construído “dossiês” públicos,com vídeos,comparações de lances,estatísticas,citações diretas aos adversários e críticas direcionadas às decisões de árbitros,do VAR e até do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).
A mudança de postura ficou evidente nos últimos dias,em uma sequência de manifestações protagonizadas por Palmeiras,Flamengo e Atlético-MG. Em comum,os casos mostram que os clubes já não se limitam a pedir providências à CBF. O objetivo parece ser a disputa da “narrativa” — a palavra da moda —,que ajuda a criar um ambiente de pressão antes das partidas e reforça a linha argumentativa de que foram prejudicados enquanto seus adversários teriam sido beneficiados.
Na última semana,o Palmeiras adotou um discurso duro após uma decisão do STJD,que denunciou o jogador Maurício por uma cotovelada no zagueiro Cacá na goleada alviverde sobre o Vitória pelo Brasileirão (o meia recebeu apenas cartão amarelo). O clube voltou a utilizar suas redes sociais para enumerar casos semelhantes que não tiveram o mesmo olhar do tribunal esportivo na rodada.
A estratégia foi ampliada depois da nota divulgada pelo Flamengo,logo em seguida,em que o clube carioca disse haver uma “percepção de favorecimento” ao Palmeiras e sustentou o argumento com uma série de lances de diferentes partidas,comparando critérios adotados pela arbitragem e pelo VAR. O rubro-negro usou estatísticas para mostrar que o alviverde era o recordista de decisões a seu favor desde a implementação da tecnologia,em 2020.
A resposta do Palmeiras veio rapidamente nas redes. O clube publicou um comunicado rebatendo as alegações rubro-negras,transformando a discussão sobre arbitragem em um confronto institucional entre os dois concorrentes ao título brasileiro. Ontem,a presidente Leila Pereira classificou a nota do Flamengo como um documento “sem pé nem cabeça”. Ela alegou que o rival tenta criar uma narrativa de favorecimento sem respaldo nos fatos:
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— Cara de pau absurda,esqueceram o que aconteceu na final da Libertadores. Vocês nunca me viram questionando decisões da arbitragem em campo,isso não pode servir de muleta,mas todo mundo viu. Eles querem o quê? Que a arbitragem volte sem a tecnologia,como no passado?
Enquanto Fla e Palmeiras travavam a disputa de versões,o Atlético-MG entrou no debate após o confronto contra o Juventude pela Copa do Brasil. Em comunicado,o clube manifestou “indignação” com a arbitragem e solicitou que a partida seguinte fosse conduzida por uma equipe “isenta”,reforçando o ambiente de pressão sobre a Comissão de Arbitragem da CBF. Segundo os mineiros,houve um “pênalti claro sofrido pelo atleta Natanael,que foi ignorado no campo de jogo e sequer verificado no VAR”.
— As manifestações têm múltiplos destinatários: comissão de arbitragem,CBF,STJD e,principalmente,a própria torcida. Em um ambiente dominado pelas redes sociais,demonstrar que o clube está reagindo faz parte da gestão da imagem da diretoria. Embora uma publicação não altere o resultado de uma partida,ela pode aumentar o escrutínio sobre decisões futuras e influenciar o ambiente,fazendo da comunicação mais um elemento estratégico do jogo — analisa Ivan Martinho,professor de marketing esportivo pela ESPM.
A CBF foi procurada,mas não pretende se manifestar.
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