
Terapia com chatbot é debatida por especialistas — Foto: Freepik/IA
Uma pessoa acorda no meio da noite,sobrecarregada e precisando conversar com alguém. Mas,em vez de ligar para um ente querido ou marcar uma sessão de terapia,abre o ChatGPT.
Ao redor do mundo,chatbots com inteligência artificial estão se tornando companheiros,mentores,confidentes e,para um número crescente de pessoas,terapeutas informais.
Estudos descobriram que muitos usuários recorrem à IA para discutir dificuldades pessoais,buscar apoio emocional,refletir sobre seus sentimentos e entender melhor sua saúde mental.
O apelo é fácil de entender. Chatbots não julgam. E,ao contrário dos serviços de saúde mental sobrecarregados,não mantêm as pessoas em longas listas de espera.
Mas,à medida que as ferramentas de IA se tornam mais presentes na saúde mental,torna-se cada vez mais importante entender onde a tecnologia pode realmente ajudar – e onde estão seus limites.
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Os chatbots de hoje aparentemente conseguem fazer tudo – desde responder a perguntas complexas até oferecer conselhos sobre relacionamentos – tudo isso com uma voz notavelmente humana e empática.
Especificamente na área da saúde mental,pesquisas têm demonstrado que sistemas de IA podem fornecer informações úteis,incentivar a autorreflexão e oferecer apoio emocional em algumas situações.
Alguns estudos sugerem,inclusive,que ferramentas de saúde mental baseadas em IA podem ajudar a reduzir os sintomas de ansiedade e depressão quando cuidadosamente projetadas e utilizadas de forma adequada.
A IA também começa a mostrar potencial para auxiliar as pessoas a praticarem a reestruturação cognitiva,incentivando-as a considerar maneiras alternativas de interpretar situações difíceis.
Ao mesmo tempo,pesquisadores,clínicos e órgãos reguladores têm levantado sérias preocupações.
Sistemas de IA podem dar conselhos imprecisos – por vezes concordando com crenças prejudiciais ou reforçando-as em vez de incentivar as pessoas a buscarem ajuda adequada – e podem não detectar sinais de crise.
Um sistema de IA pode parecer compreensivo,mas não consegue realmente entender a pessoa por trás da conversa. Diferentemente dos profissionais de saúde mental,a IA não está sujeita aos mesmos padrões profissionais ou regulatórios caso algo dê errado.
Mais do que simplesmente fornecer informações,o cuidado com a saúde mental depende de confiança,empatia,julgamento clínico e conexão humana.
É por isso que muitos especialistas veem a IA como uma ferramenta para apoiar o cuidado com a saúde mental,em vez de algo que possa ou deva substituí-la.
Nós,do grupo de pesquisa 2DN da Universidade de Auckland,temos investigado uma aplicação interessante: a detecção precoce de sinais de depressão.
A depressão frequentemente afeta a forma como as pessoas se comunicam. Alterações na velocidade da fala,pausas,tom de voz,escolha de palavras e expressão emocional podem fornecer pistas sobre o estado mental de uma pessoa.
Esses são exemplos do que os pesquisadores chamam de "biomarcadores digitais" – padrões mensuráveis em nosso comportamento ou fisiologia que podem fornecer pistas sobre nossa saúde. Os pesquisadores também estão investigando muitos outros,incluindo expressões faciais,padrões de sono e atividade física.
Nosso trabalho explora se a IA pode aprender a reconhecer padrões tanto na fala quanto no texto.
Em vez de diagnosticar pessoas ou substituir médicos,o objetivo é desenvolver ferramentas que auxiliem na triagem e no monitoramento,ajudando a identificar pessoas que possam se beneficiar de uma avaliação mais aprofundada.
Isso é semelhante à forma como dispositivos vestíveis podem detectar atividades cardíacas incomuns sem substituir um cardiologista. Em vez disso,eles fornecem aos médicos mais uma informação para auxiliar na tomada de decisões.
A IA pode apoiar o cuidado com a saúde mental de muitas outras maneiras.
Ela tem o potencial de expandir o acesso a serviços,apoiar comunidades carentes,identificar problemas precocemente e ajudar as pessoas a entender e gerenciar melhor seu próprio bem-estar mental.
Ela também pode reduzir as barreiras para a busca de ajuda e até mesmo personalizar terapias,adaptando o suporte às necessidades individuais quando dados suficientes e de alta qualidade estiverem disponíveis.
Mas,com essas oportunidades,surgem desafios óbvios.
Os dados de saúde mental estão entre as informações mais sensíveis que uma pessoa pode compartilhar. Privacidade,segurança e consentimento informado devem ser cuidadosamente protegidos. Os sistemas de IA também podem herdar vieses dos dados usados para treiná-los,o que pode afetar seu desempenho em diferentes populações.
Existe também o risco de dependência excessiva. Pesquisas recentes sugerem que as pessoas podem depositar muita confiança em sistemas de IA,mesmo quando a tecnologia está errada.
Como a IA frequentemente responde de maneiras que parecem de apoio ou validação,os usuários podem aceitar seus conselhos sem questioná-los ou buscar ajuda profissional. Em contextos de saúde mental,essa confiança pode ter sérias consequências.
Ainda assim,é inevitável que o papel da IA na saúde mental – assim como em todas as outras áreas da vida – só cresça nos próximos anos.
Seu maior valor pode estar em ajudar as pessoas a compreenderem melhor seu bem-estar mental e apoiar os profissionais clínicos a identificar riscos mais cedo.
A tecnologia consegue reconhecer padrões. As pessoas oferecem empatia,confiança e julgamento clínico. O futuro do cuidado em saúde mental provavelmente dependerá da combinação dos pontos fortes de ambos.
* Dushanthi Madhushika Manamalage é doutoranda na Faculdade de Engenharia e Design; Frederick Sundram é professor de Psiquiatria; Partha Roop é professor de Engenharia Elétrica,de Computação e de Software,e Reza Shahamiri é professor Sênior de Engenharia de Software,todos na Universidade de Auckland,Waipapa Taumata Rau.
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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