
Pessoas se reúnem junto à cerca no local de confrontos perto de Fnideq,na fronteira entre Marrocos e Espanha,em 31 de julho — Foto: Abdel Majid Bziouat/AFP
Em face dos numerosos depoimentos de migrantes acusando autoridades de Marrocos de omissão — ou até de incentivo — durante o frenesi migratório em direção à cidade espanhola de Ceuta,no norte da África,o governo em Rabat culpou a “difusão de informações enganosas” pelo fenômeno,que resultou em ao menos 73,5 mil travessias em questão de horas na semana passada e um número de mortes que pode ter ultrapassado uma centena. O papel das redes de desinformação na emergência fronteiriça foi corroborado em parte pela Espanha,que apontou o dedo para a inércia do governo marroquino como um fator central da crise,que ocorre em meio a tensões diplomáticas e energéticas envolvendo Rabat,Madri e Argel.
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A conclusão dos serviços de inteligência espanhóis traz uma avaliação ambígua sobre o papel de Marrocos. As autoridades descartaram que Rabat tenha premeditado ou planejado o fluxo migratório,mas,por outro lado,não teria freado a onda humana,inclusive facilitando o acesso à fronteira — e tirado proveito da crise,que colocou pessoas em situação de vulnerabilidade no centro de um jogo geopolítico com várias frentes e atores.


O panorama do setor de inteligência espanhol é endossado pela avaliação de analistas e dezenas de relatos de migrantes que cruzaram a fronteira europeia — alguns dos quais estão entre as cerca de 69 mil pessoas obrigadas a retornar nos últimos quatro dias. Entre os relatos que chegaram à imprensa internacional,alguns descreveram ter recebido instruções diretas sobre por onde prosseguir,enquanto outros disseram não ter sido confrontados pelas autoridades com que cruzaram no caminho.
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— Vídeos mostram as forças de segurança passivas diante de caminhões cheios de migrantes — afirmou o analista do International Crisis Group Riccardo Fabiani. — Há elementos suficientes para estimar que [o governo de] Rabat está envolvido nesta crise.
Mesmo analistas mais cautelosos questionaram a facilidade com que um fluxo tão grande de pessoas conseguiu chegar ao território europeu sem maior resistência. Pierre Vermeren,pesquisador especializado no Magreb,apontou que a polícia marroquina é "muito eficaz,organizada e informada",indicando que "poderia ter bloqueado as estradas" se quisesse ter impedido as travessias. Haizam Amirah,diretor do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos de Madri,disse ser "difícil acreditar que as autoridades não estivessem a par do que acontecia,ou mesmo que não tenham facilitado um deslocamento populacional de tal magnitude". O reforço à segurança só aconteceu horas após a crise deflagrada.

Centenas de migrantes entram em Ceuta após cruzar fronteira com Marrocos
Os migrantes parecem ter sido apenas a ponta de um complexo emaranhado de interesses políticos e econômicos. Uma variável é a posição espanhola sobre o Saara Ocidental,uma ex-colônia localizada a oeste de Marrocos,que está no centro de uma disputa que também inclui a Argélia — um ator regional importante. Uma importante onda migratória,que levou cerca de 10 mil pessoas a Ceuta em 2021,foi resultado de uma flexibilização marroquina da fiscalização,no que foi amplamente apresentado como uma represália ao fato de Madri ter recebido o líder da Frente Polisário,grupo que luta pela independência do Saara Ocidental,para tratamento médico.
As tensões foram superadas após o governo espanhol acatar,em 2022,uma resolução do Marrocos sobre a autonomia do território. Em contrapartida,a mudança de posição criou rusgas entre Madri e Argel,que apoia os rebeldes saarauis. Pouco antes da atual onda migratória,o primeiro-ministro da Espanha,Pedro Sánchez,visitou o presidente da Argélia,Abdelmayid Tebún,em um gesto histórico de reaproximação — um ato mal recebido em Rabat,por motivos para além da disputa pela ex-colônia.
Entre os anúncios feitos por Sánchez e Tebún durante o encontro em julho está um compromisso político de Madri adquirir mais gás natural liquefeito (GNL) proveniente de Argel — que envia cerca de um terço do gás natural comprado pelos espanhóis internacionalmente. Os detalhes técnicos ainda não foram postos pelos dois lados,mas a pretensão espanhola entra em colisão com interesses marroquinos,que são concorrentes diretos dos argelinos em megaprojetos de distribuição de gás para a Europa.

Disputa pelo mercado de gás natural com a Europa: Marrocos e Argélia lideram iniciativas regionais africanas concorrentes — Foto: Arte/O GLOBO
Os dois países representam dois dos projetos mais arrojados de fornecimento de gás natural para a Europa na atualidade. Rabat é o principal idealizador de uma iniciativa conhecida como Gasoduto Atlântico Nigéria-Marrocos,uma iniciativa com custo estimado em US$ 25 bilhões,que integraria 13 países,cortando 6,8 mil quilômetros pela África Ocidental,integrando o sistema ao gasoduto Magreb-Europa — atualmente desativado,mas que levava GNL,sobretudo da Argélia,para Córdoba,na Espanha,via Marrocos.
O governo argelino,lidera a iniciativa do chamado Gasoduto Transaariano,um projeto que encurtaria o caminho do gás natural nigeriano para o mercado europeu,por uma infraestrutura de 4,1 mil quilômetros cruzando o Níger e se conectando ao gasoduto Medgaz,que atualmente opera enviando GNL para Almería. O projeto,orçado em US$ 13 bilhões,poderia se conectar facilmente a outros mercados,como o francês e o italiano,que mantêm negócios energéticos com a Argélia.
A disputa pela melhor posição estratégica em um setor duramente afetado pelas guerras entre Rússia e Ucrânia e EUA e Irã seria motivo para pressionar um ator-chave. Se esse era o objetivo,a tentativa funcionou. A crise na fronteira de Ceuta colocou o governo progressista de Sánchez na mira da Europa,com governos conservadores,como o da italiana Giorgia Meloni,defendendo a exclusão do país do espaço Schengen,de livre circulação na União Europeia. Nesta terça,o bloco europeu realiza uma reunião de ministros do Interior a fim de discutir o controle das fronteiras.
Desafetos do governo espanhol também usaram o fato para atacar o Gabinete. Autoridades dos EUA apontaram para o quadro enfrentado pela Espanha como um vislumbre do que seria um governo de esquerda no país,emulando o discurso anti-imigração de Donald Trump. O presidente americano tem entrado em confrontos diretos o premier espanhol,sobretudo no que se refere à negativa de Madri de abrir portos e aeroportos para a campanha militar de Washington contra o Irã. Em contrapartida,tem o apreço do rei marroquino Mohammed VI,que confirmou que irá dar o nome do republicano a uma importante estrada do país.
Para quem cruzou a fronteira — nem todos marroquinos,uma vez que o país também é ponte para a Europa de migrantes da África Saariana e Subsaariana —,as grandes disputas políticas nunca foram um fator determinante. A série de golpes de Estado no Sahel e fatores de instabilidade em muitos dos países forçam a migração de quem busca melhores condições de vida.
No caso particular dos marroquinos,embora o país tenha conquistado reconhecimento como um dos países estáveis da região,a realidade interna ainda é difícil,apesar das tentativas da monarquia de demonstrarem uma imagem de modernização. Os dados atuais apontam que o desemprego entre jovens de 15 a 24 anos é de 29,2%,sendo o grupo mais afetado por faixa etária — e,aparentemente,um dos mais presentes na tentativa de chegar a Ceuta.
— Você acha que,se eu tivesse emprego,teria ido? — disse Ahlam al-Adnan,de 22 anos,ouvido pelo New York Times.
Ele não foi o único. A falta de perspectiva,que contribuiu para que muitos se lançassem na perigosa travessia,motivou grandes protestos no ano passado,liderados pela geração Z. A pauta dos manifestantes marroquinos incluía principalmente reclamações sobre a empregabilidade e a falta de investimentos em saúde e educação. Mais de 2,4 mil pessoas enfrentaram processos judiciais relacionados aos protestos,segundo um balanço feito em junho. (Com AFP,Bloomberg e NYT)
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