
. Pórticos do sistema free flow substituem as antigas praças de pedágio e permitem a passagem sem parada mas a adaptação ainda gera dúvidas,multas e debate sobre prazos — Foto: hermes de paula/13-09-2023
GERADO EM: 11/04/2026 - 20:17
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Desde a implementação em 2021,o sistema de pedágio eletrônico conhecido como free flow — sem cancelas ou cabines físicas,que permite a passagem de veículos por pórticos em velocidade normal — já acumulava,até fevereiro,mais de três milhões de multas por evasão em todo o Brasil,volume que transformou o modelo,apresentado como símbolo de modernização,em alvo de críticas,denúncias e disputa política. Só no Rio de Janeiro,na rodovia Rio-Santos,houve 1,4 milhão de autuações; no Rio Grande do Sul,mais de 1,1 milhão.
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Infográfico sobre rodovias que já adotaram Free Flow — Foto: Editoria de Arte
A promessa do novo sistema era de uma cobrança mais justa,proporcional à distância percorrida,além de maior fluidez no trânsito e redução de emissões,já que elimina paradas. Na prática,porém,a implementação tem revelado um cenário mais complexo.
Relatos de usuários,documentos técnicos e discussões no Congresso apontam problemas recorrentes: dificuldade de acesso às plataformas de pagamento,atraso na disponibilização dos registros de passagem por pedágios,cobranças indevidas e comunicação ineficiente com motoristas.
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Hoje,o não pagamento da tarifa no prazo estabelecido de 30 dias,mesmo por desconhecimento,é enquadrado como infração grave,com multa de R$ 195,23 e cinco pontos na carteira de habilitação.
Para críticos,a lógica transforma uma dívida civil em penalidade de trânsito. O deputado federal Hugo Leal (PSD-RJ),autor de um projeto que prevê ampliar prazos e até suspender multas aplicadas,afirma que o sistema pune o usuário por falhas estruturais:
— Não se trata de um perdão clássico de multas,e sim de dar uma nova oportunidade de pagamento,diante de erros nos sistemas,dificuldade de acesso e falta de comunicação.
Uma das principais críticas é a falta de integração nacional. Motoristas que percorrem diferentes rodovias precisam acessar múltiplos sites ou aplicativos de concessionárias para o pagamento de débitos.
Na prática,isso cria o que usuários já chamam de “pedágio invisível”: o motorista passa pelo pórtico sem parar,por vezes sem perceber,e só descobre a cobrança depois,quando já está em atraso.
Há ainda relatos de passagens pelos pedágios que demoram semanas ou até meses para aparecer nos sistemas,o que impede o pagamento no prazo e leva à aplicação automática de multas.
Na Costa Verde fluminense,por exemplo,onde o sistema foi implantado na BR-101,na Rio-Santos,sob administração da Concessionária do Sistema Rodoviário RioSP/Motiva — que também é responsável por trecho da BR-116,na Via Dutra —,motoristas relatam de erros pontuais a problemas sistemáticos.
O presidente da Associação de Moradores de Itimirim,em Itaguaí,Raphael Cendon,diz não ser contra o modelo,mas critica a forma como ele foi implantado:
— Não somos contra o free flow. Onde ele existe,não tem engarrafamento. O problema é que deram só três meses para adaptação.
Ele próprio acumula episódios em que considera a cobrança indevida. Em um deles,afirma que foi cobrado quando o carro estava sendo transportado por um reboque. Em outro,a cobrança ocorreu como se ele estivesse passando,simultaneamente,nos dois sentidos da rodovia.
— Alegam que minha TAG estava em outro veículo. Pedi as imagens e disseram que só com ordem judicial — contou. — E eu fiquei sabendo disso porque tenho a TAG,imagina quem não tem?
As TAGs são adesivos eletrônicos de pagamento automático,que permitem passar por pórticos de pedágio sem paradas ou cancelas.
Outros motoristas contam histórias semelhantes. Um deles,que comprou um carro no fim de 2025,passou meses transitando entre os pórticos do free flow e consultando o sistema sem encontrar débitos,até que,de uma vez,surgiram diversas cobranças acumuladas,já vencidas e com multas. Outro afirma ter quitado todas as passagens pelos pedágios e,meses depois,recebeu cobranças retroativas. Há ainda registros de veículos isentos,como triciclos e de pessoas com deficiência,sendo cobrados,além de casos de duplicidade de cobrança.
No Rio Grande do Sul,onde o sistema foi implementado pelo governo do estado,sob a gestão da concessionária Caminhos da Serra Gaúcha (CSG),também há queixas,incluindo multas a veículos oficiais e que prestam serviço à área de saúde.
— Estamos falando de carros oficiais sendo multados,de veículos da saúde,que transportam pacientes para hemodiálise,recebendo tantas multas que precisaram ser substituídos. TAGs que não funcionam. Veículos guinchados sendo autuados,caminhões com eixo suspenso sendo cobrados como se estivessem carregados. Isso não é um erro pontual. Isso é uma falha sistêmica — denuncia o vereador Dioni da Rosa (PP),vereador de Portão,Rio Grande do Sul.
No Reclame Aqui e plataformas afins,há relatos de problemas semelhantes em outras rodovias federais com o sistema. Quatro concessionárias administram o sistema no Brasil: a Nova 381 S.A. é responsável pelo sistema na BR-381/MG; a Way-262 administra os pórticos da BR-262/MG. A Nova 364 fica com a BR-364/RO,e a EPR Iguaçu controla a BR-277/PR e a BR-369/PR.
A complexidade do modelo também abriu espaço para fraudes. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) alerta para a existência de dezenas de sites falsos que simulam páginas de pagamento. Nesses golpes,motoristas são induzidos a inserir dados do veículo e realizar pagamentos via Pix ou boleto para criminosos.
Apesar das críticas,especialistas e usuários reconhecem vantagens no modelo. Eliminação de filas,redução do tempo de viagem e ganhos ambientais são apontados como avanços relevantes.
A ANTT afirma que tem intensificado a fiscalização e cobrado das concessionárias melhorias na comunicação e no atendimento ao usuário. Em nota,diz que “recebe e analisa manifestações dos usuários,e eventuais cobranças indevidas serão apuradas e corrigidas”. A agência pede que denúncias e reclamações sejam feitas no canal da Ouvidoria,pelo número 166. “O free flow representa um avanço relevante na modernização,sendo que incorreções e alterações não previstas em contrato e que impactam negativamente os usuários não serão permitidas”,diz o texto.
A Motiva afirma que o free flow tem resultados positivos e está consolidado,com presença em 19 rodovias de seis estados. Na Rio-Santos,diz,a taxa de adimplência chega a 94%,e 69% dos motoristas utilizam TAG,ante os 30% do início da operação. Segundo a empresa,o sistema tem baixa taxa de reclamação (uma a cada 3.800 passagens) e alto nível de eficiência,com 99% das tarifas registradas em 48 horas e índice de acerto superior a 99% ao identificar veículos.
A Nova 381 informou que eventuais problemas de duplicidade ou inconformidade na categorização do veículo são corrigidos pelo sistema,que “garante acurácia na cobrança de passagens por TAGs e nas convencionais,disponíveis para consulta pelo site pedagioeletronico.nova381.com ou aplicativo Nova 381”.
As outras concessionárias citadas não responderam.
Pontos positivos
Cobrança proporcional ao usoTarifa baseada no trecho percorrido,em vez de valor fixo por praça de pedágio.Maior fluidez no trânsitoElimina paradas,reduz filas e melhora o tempo de viagem.Redução de emissõesMenos frenagem e aceleração diminuem consumo de combustível e poluição.
Pontos negativos
Cobranças indevidas ou duplicadasHá relatos de erros,atrasos no sistema e veículos isentos sendo tarifados.Dificuldade de pagamentoFalta de um sistema unificado obriga o usuário a acessar vários sites/concessionárias.Risco de golpesProliferação de sites falsos e cobranças fraudulentas aproveitando a confusão do sistema.
Como pagar o free flow
O motorista que não tem a TAG que permite o débito automático deve ficar atento se o free flow é adotado pela rodovia por onde passou e verificar se há alguma cobrança em seu nome no site da respectiva concessionária. O débito entra no sistema de concessionária e há um prazo de 30 dias para pagá-lo. No entanto,há queixas de que existe uma demora para que a cobrança seja computada. Não há notificação ao motorista. O não pagamento implica em multa de R$ 195,23 e 5 pontos na CNH.
Como evitar golpes
A ANNT orienta que o motorista deve desconfiar de cobranças inesperadas. E nunca clicar em links ou abrir QR codes para pagamento imediato,além de ignorar mensagens de remetentes não verificados. É importante verificar se há cobrança no site oficial da concessionária. Nunca se deve informar dados pessoais ou do veículo em plataformas suspeitas e é preciso ficar atento a sinais de fraude,como erros de português e URLs estranhas. Por fim,o motorista deve sempre denunciar golpes.
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