
Benjamin Voisin como Meursault em 'O estrangeiro' — Foto: Divulgação/ Carole Bethuel
GERADO EM: 14/04/2026 - 16:37
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Terceiro título francófono mais vendido no mundo,“O estrangeiro” atravessa gerações. Há 80 anos,a obra-prima do franco-argelino Albert Camus vem desestabilizando leitores com seu retrato peculiar do absurdo existencial. Dá para entender,portanto,o tamanho do desafio do diretor François Ozon ao adaptá-la para o cinema.
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O filme homônimo estreia hoje,cercado de expectativa e inevitáveis comparações com o livro,eleito pelos franceses em 1999 como o mais importante do século XX. Conhecido por longas como “Swimming pool”,“Sob a areia” e “Jovem e bela”,Ozon admite que sentiu a pressão. À medida que mergulhava no projeto,porém,entendeu que precisava seguir o seu próprio caminho,sem medo de “trair” Camus,ganhador do Nobel da Literatura de 1957.
— Espero que a experiência de ler o livro e a de ver o filme sejam diferentes,mas complementares — diz o diretor,que já adaptou obras menos conhecidas,como a peça musical “Oito mulheres”. — Trago a minha interpretação,minha sensibilidade em relação a essa história. Se esse livro é tão universal e atravessa gerações,é justamente porque pode ser interpretado de maneiras diferentes,de um país para outro,de uma pessoa para outra. É isso que,na minha opinião,faz dele uma obra-prima.

François Ozon na Berlinale de 2022 — Foto: Divulgação/ Elena Ternovaja
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O enredo é o mesmo,ainda que o filme não siga a ordem cronológica exata do livro. Em Argel,capital da Argélia francesa,em algum momento da década de 1930,acompanhamos Meursault,um dos personagens mais opacos e impenetráveis da literatura.
Funcionário público de baixo escalão,ele recebe a notícia da morte da mãe e ganha uma folga para acompanhar o enterro. É difícil entender o que se passa em sua cabeça. Meursault não chora,não demonstra sentimentos,parece vazio. Após se despedir da mãe,vai ao cinema com a namorada e assiste a uma comédia,como se nada tivesse acontecido.
Detalhe importante: Meursault é um pied-noir,como eram chamados os europeus nascidos ou estabelecidos na Argélia colonial. Certo domingo,ele caminha pela praia e cruza com um “árabe” que havia se desentendido com um amigo seu. Desorientado pelo sol e pelo calor,aproxima-se do homem,que saca uma faca. Meursault dá o primeiro tiro e,sem razão aparente,dispara mais quatro vezes contra o corpo já inerte. A partir daí,começa a história de seu julgamento,em que o personagem passa a ser avaliado menos pelo assassinato do que por sua incapacidade de corresponder às normas sociais.
Muitos franceses conhecem essa história de cor desde o colégio. A linguagem simples e direta do livro,costuma causar forte impacto em leitores jovens,confrontados pela primeira vez com uma narrativa que recusa explicações e expõe a falta de sentido da existência. Não foi,contudo,o caso de Ozon.
— A primeira vez que li foi na escola,por obrigação — relembra o cineasta. — Devia ter uns 15 ou 16 anos,e o livro meio que passou por cima de mim. Eu me lembrava dele como um exercício escolar,não como um livro que me tocou pessoalmente.
Há três anos,o diretor voltou ao texto e teve outra reação. Ficou fascinado pela escrita aparentemente inadaptável. Mas permanecia a questão: como traduzir visualmente um romance tão ressonante e interiorizado? O cineasta italiano Luchino Visconti já havia realizado uma versão em 1967,com Marcello Mastroianni no papel principal. O resultado não agradou nem ao próprio diretor,nem à viúva de Camus. Antes de morrer,o autor francês havia manifestado sua oposição em levar sua obras às telas.
Ozon,por sua vez,optou por um preto e branco que remete às imagens de arquivo da Argélia Francesa. Também buscou materializar o não dito da prosa através da sensualidade de sua câmera. Seu Meursault é marcado pela presença física e sensorial do ator Benjamin Voisin. Ele não expressa sentimentos,mas é sensível aos sentidos do mundo: o mar,o sol,os corpos...
— Eu sabia desde o início que não poderia trabalhar com a identificação do público — diz o diretor. — A ideia foi apostar na observação e na fascinação. Escolher um ator com presença forte,alguém que o espectador observe quase como um cientista observa um inseto. Meursault é como uma folha em branco,onde projetamos sentidos

Benjamin Voisin e Rebecca Marder em cena de "O estrangeiro",de François Ozon — Foto: Divulgação/ Carole Bethuel
François Ozon também precisou lidar com a dimensão política da obra. Embora universal,o romance é marcado pelo contexto colonial. O homem morto não tem nome,é tratado apenas como “árabe”,como se não existisse para o narrador. Da mesma forma,Meursault acaba sendo julgado muito mais por não ter chorado no funeral de sua mãe do que por tirar a vida de um argelino. Se sua vítima fosse um francês,a história seria diferente.
Mais de 80 anos após a publicação da obra e quase 65 anos após a independência da Argélia,essas tensões ganharam outro peso,gerando novos debates. Publicado em 2013,o romance “Meursault,contra-investigação”,do argelino Kamel Daoud,reinterpretou o conflito pelo ponto de vista da vítima,dando-lhe um nome: Moussa.
Na tela,Ozon amplia ainda mais a existência dessa figura antes fantasmagórica. Além de nome,ele agora tem uma irmã disposta a contar sua história no tribunal. O diretor optou ainda por mudar o começo da trama. Em vez da célebre frase “Hoje,mamãe morreu”,o filme abre com a prisão de Meursault e só então volta para o início com um flashback. A primeira fala do protagonista agora é “Matei um árabe”,explicitando o seu racismo.
— Durante a promoção do filme,conversei com muitos argelinos — conta Ozon. — Lembro de uma senhora que disse que ler o livro sempre foi doloroso,porque,como argelina,ela não existia nele,não tinha nome. Isso é muito violento. O livro de Daoud nasce dessa invisibilização. E,para mim,era importante respeitar Camus,mas também dar voz aos árabes.
Talvez o ponto mais surpreendente da adaptação esteja na cena do assassinato. Ao intensificar os brancos da fotografia em preto e branco na praia,o diretor potencializa o sol ofuscante que confunde Meursault (o nome é uma junção de “morte” e “sol”). Não deixa de ser paradoxal,já que Camus,obcecado pela luz argelina,usava muitas cores para descrevê-la.

Benjamin Voisin em "O estrangeiro" — Foto: Divulgação/ Carole Bethuel
Conhecido por obras queer como “Verão 85” e “O tempo que resta”,Ozon oferece um possível subtexto homoerótico no duelo entre o assassino e sua vítima. A câmera se demora no corpo de Moussa com certa tensão carnal,mas o cineasta relativiza essa intenção.
— Acho que que muita gente tem enxergado homoerotismo na cena porque sou eu na direção — brinca Ozon. — Pessoas me disseram que Meursault estava matando a sua própria sexualidade. Bom,não era o que eu queria contar,mas tudo bem,cada um interpreta como quer. O que eu queria era imprimir sensualidade ao filme. Queria que houvesse beleza em torno de Meursault,e que o espectador sentisse isso.
Com homoerotismo ou não,o diretor segue o que está descrito no livro: dois homens frente a frente,o tempo suspenso,como num duelo de faroeste.
— O que me interessa,antes de tudo,é o absurdo desse confronto,um homem em pé,outro deitado,uma posição de dominação e outra de submissão — explica Ozon. — E esses objetos inevitavelmente fálicos,se entrarmos numa leitura psicanalítica: um revólver e uma faca. Afinal,o que esses homens fazem? É verdade,eles poderiam fazer amor. Mas não: eles atiram um no outro. É isso.
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