
Cadetes do Corpo da Guarda Revolucionária iraniana durante o desfile militar anual em comemoração ao 44º aniversário da guerra Irã-Iraque,em Teerã,em 2024 — Foto: Arash Khamooshi / New York Times
GERADO EM: 23/04/2026 - 13:04
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Quando o aiatolá Ali Khamenei governava o Irã como líder supremo,ele exercia poder absoluto sobre todas as decisões relativas à guerra,à paz e às negociações com os Estados Unidos. Seu filho e sucessor,Mojtaba Khamenei,não desempenha o mesmo papel — ele não foi visto nem ouvido desde sua nomeação,em março. Agora,um grupo de comandantes experientes do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica,o exército ideológico da República teocrática,e seus aliados são os principais tomadores de decisão em assuntos de segurança,guerra e diplomacia.
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— Mojtaba está administrando o país como se fosse o diretor do conselho — disse Abdolreza Davari,um político que conhece Khamenei e atuou como conselheiro sênior do ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (2005 - 2013). — Ele se baseia muito na orientação dos membros do Conselho,e eles tomam todas as decisões coletivamente. Os generais são os membros do Conselho.
Mojtaba,escolhido por um conselho de clérigos de alto escalão como o novo líder supremo,está escondido desde que as forças americanas e israelenses bombardearam o complexo de seu pai no primeiro dia da guerra,em 28 de fevereiro,onde ele também morava com sua família. Seu pai,esposa e filho foram mortos. O acesso a ele é extremamente difícil e limitado neste momento,pois está cercado por uma equipe de médicos que estão tratando os ferimentos sofridos nos ataques aéreos.

Passo a passo da missão de ataque que matou Khamenei — Foto: Google Maps,Airbus/Soar Atlas e Arte O GLOBO
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Altos comandantes da Guarda Revolucionária e altos funcionários do governo não o visitam,temendo que Israel possa rastreá-los até ele e matá-lo. O presidente Masoud Pezeshkian,que também é cirurgião cardíaco,e o ministro da Saúde têm se envolvido em seus cuidados.


Embora Khamenei tenha ficado gravemente ferido,ele está mentalmente lúcido e ativo,de acordo com quatro autoridades iranianas. Uma de suas pernas foi operada três vezes e ele aguarda uma prótese. O líder supremo passou por uma cirurgia em uma das mãos e está recuperando as funções lentamente. Seu rosto e lábios sofreram queimaduras graves,o que dificulta sua fala e,futuramente,exigirá cirurgia plástica.

Manifestantes caminham diante de cartaz com a imagem do antigo líder supremo,Ali Khamenei,e do atual,no funeral do chefe da segurança do Irã,Ali Larijani — Foto: ATTA KENARE / AFP
Ainda segundo as autoridades,Mojtaba não gravou uma mensagem em vídeo ou áudio para não parecer vulnerável ou fraco em seu primeiro discurso público. Em vez disso,ele divulgou várias declarações escritas que foram publicadas nas redes sociais e lidas na televisão estatal.
As mensagens para ele são escritas à mão,seladas em envelopes e transmitidas por meio de uma corrente humana,de um mensageiro de confiança para o seguinte,que viajam por rodovias e estradas secundárias em carros e motocicletas até chegarem ao seu esconderijo. Sua orientação sobre diversos assuntos retorna da mesma forma.
A combinação entre as preocupações com sua segurança,os ferimentos e a enorme dificuldade de contatá-lo levou Khamenei a delegar as decisões aos generais — pelo menos por ora. Facções reformistas e linha-dura ainda participam das discussões políticas,mas analistas apontam que os laços construídos com os generais desde a adolescência de Khamenei,quando se voluntariou para lutar na guerra Irã-Iraque,fizeram deles a força dominante.
O presidente dos EUA,Donald Trump,afirmou que a guerra,juntamente com os assassinatos de vários líderes e membros do aparato de segurança do Irã,inaugurou uma “mudança de regime” e que os novos líderes são “muito mais razoáveis”. Na realidade,a República Islâmica não foi derrubada. O poder agora está nas mãos de militares linha-dura entrincheirados,e a ampla influência dos clérigos está diminuindo.


— Mojtaba ainda não tem o comando ou controle total — avaliou Sanam Vakil,diretora para o Oriente Médio e Norte da África da Chatham House,um instituto independente de estudos políticos. — Há,talvez,alguma deferência a ele. Ele assina os documentos ou faz parte da estrutura de tomada de decisões formal. Mas,no momento,ele se depara com situações já decididas.
O presidente do Parlamento iraniano,Mohammad Bagher Ghalibaf,ex-general da Guarda Revolucionária e principal negociador com os EUA no Paquistão,afirmou,no último sábado,que a proposta americana de um acordo nuclear e um plano de paz,bem como a resposta do Irã,foram compartilhadas com Khamenei e que suas opiniões foram levadas em consideração na tomada de decisões.

Presidente do Parlamento iraniano,Mohammad Bagher Ghalibaf — Foto: Arash Khamooshi/The New York Times
A Guarda Revolucionária,formada como protetora da Revolução Islâmica de 1979,acumulou poder de forma constante por meio de importantes cargos políticos,participações em setores-chave da indústria,domínio das operações de inteligência e cultivo de laços com grupos militantes no Oriente Médio que compartilham a inimizade do Irã em relação a Israel e aos EUA.
Mas sob o comando do patriarca Ali Khamenei,eles ainda tinham que,em grande parte,acatar sua vontade como uma figura religiosa singular que também servia como comandante-em-chefe das Forças Armadas. Ele empoderou a Guarda Revolucionária,e com o tempo ela se tornou o instrumento e o pilar de seu governo.
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O assassinato de Khamenei no primeiro dia da guerra criou um vácuo e uma oportunidade. A Guarda Revolucionária se uniu a Mojtaba na luta pela sucessão que se seguiu e desempenhou um papel fundamental em sua escolha como o terceiro líder supremo do Irã.
— Mojtaba não é supremo,ele pode ser o líder nominalmente,mas não é como seu pai era — disse Ali Vaez,diretor do International Crisis Group no Irã. — Mojtaba é subserviente à Guarda Revolucionária porque deve sua posição e a sobrevivência do sistema a eles.
A Guarda Revolucionária possui múltiplas alavancas de poder. O comandante-em-chefe é o Brigadeiro-General Ahmad Vahidi. O general Mohammad Bagher Zolghadr,recém-nomeado chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional,é um antigo comandante linha-dura da Guarda Revolucionária. Já o general Yahya Rahim Safavi,também comandante,atuou como principal conselheiro militar tanto do pai quanto do filho,líderes supremos.
Os oficiais entrevistados afirmam que os generais consideram a guerra com os Estados Unidos e Israel uma ameaça à sobrevivência do regime e,após cinco semanas de intensos combates,estão confiantes de que conseguiram conter a ameaça. Em todos os momentos decisivos,eles assumiram a liderança na definição da estratégia e na alocação de recursos.
Os generais desestabilizaram a economia global ao fechar o Estreito de Ormuz,por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial em tempos de paz,e usaram quaisquer ganhos na guerra como alavanca para superar rivais políticos internos. Segundo fontes,o presidente eleito e seu gabinete foram instruídos a se concentrarem apenas em assuntos internos,como garantir um fluxo constante de alimentos e combustível e assegurar o funcionamento do país.
O ministro das Relações Exteriores iraniano,Abbas Araghchi,foi marginalizado nas negociações que liderava com os Estados Unidos antes da guerra. Ghalibaf,então,assumiu a liderança dos esforços diplomáticos — escolha feita pelos generais. Mojtaba tem acompanhado tudo e,ainda de acordo com as fontes,raramente ou nunca apresenta objeções aos generais.

Uma fotografia divulgada pelo governo do Paquistão mostra a delegação iraniana liderada pelo presidente do parlamento iraniano,Mohammad Bagher Ghalibaf (o segundo da direita para a esquerda),e pelo ministro das Relações Exteriores,Abbas Araghchi (o segundo da esquerda para a direita). Eles foram recebidos pelo chefe do exército paquistanês,Asim Munir (à esquerda),Ishaq Dar (à direita),em Islamabad,Paquistão,na sexta-feira — Foto: Ministério das Relações Exteriores do Paquistão/Reuters/via The New York Times
Foram os membros da Guarda Revolucionária que elaboraram a estratégia para os ataques do Irã contra Israel e os estados do Golfo Pérsico,bem como o fechamento do estreito ao tráfego marítimo. Também foram eles que concordaram com um cessar-fogo temporário e aprovaram a diplomacia paralela e as negociações diretas com os Estados Unidos. Pela primeira vez,vários generais da Guarda Revolucionária fizeram parte da delegação iraniana que negociou com Washington.
Esta reportagem sobre a nova estrutura de poder do Irã baseia-se em entrevistas com seis autoridades iranianas,dois ex-funcionários do regime,dois membros da Guarda Revolucionária,um clérigo de alto escalão e três pessoas próximas à Mojtaba Khamenei. Outras nove pessoas com ligações à Guarda e ao governo também descreveram a estrutura de comando. Todas falaram sob a condição de anonimato.
Autoridades iranianas e outras três pessoas próximas ao líder supremo afirmaram que a deferência de a Mojtaba à Guarda Revolucionária se devia,em parte,à sua recente ascensão ao poder. Ele não possui a estatura política e a influência religiosa que fizeram de seu pai uma figura tão singular. E isso se deve aos seus profundos laços pessoais com a Guarda.
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Quando Khamenei tinha 17 anos,ele se ofereceu como voluntário para lutar na guerra Irã-Iraque. Foi,designado para uma brigada da Guarda Revolucionária chamada Batalhão Habib. A experiência o moldou e ele criou laços para a vida toda. À medida que cresciam e envelheciam,muitos membros do batalhão ascenderam a cargos influentes nas Forças Armadas e na Inteligência.
Khamenei concluiu seus estudos em um seminário teológico,alcançando o posto de aiatolá,considerado um erudito e jurista da fé xiita. Trabalhou no complexo de seu pai,coordenando operações militares e de inteligência para ele,função que consolidou ainda mais seus laços com os generais e chefes de inteligência.
Entre seus amigos próximos do Batalhão Habib estão o clérigo Hossein Taeb,antigo chefe de inteligência da Guarda Revolucionária,e o general Mohsen Rezaei,que o comandou na década de 1980 e foi chamado de volta da aposentadoria. Ghalibaf também é um amigo de longa data.
Durante anos,Khamenei,Taeb e Ghalibaf se reuniam semanalmente para longos almoços de trabalho no complexo do aiatolá,segundo autoridades iranianas e três pessoas próximas a Khamenei. Eles ficaram conhecidos como o “triângulo do poder”. O trio foi acusado por um clérigo mais moderado,Mehdi Karroubi,de interferir na eleição presidencial de 2009,na qual ele era candidato,e de fraudar os resultados em favor do então presidente,Ahmadinejad. Karroubi perdeu,e a derrota eleitoral levou a meses de agitação,protestos e violência.
Essas relações pessoais agora influenciam bastante a dinâmica entre Khamenei e os generais. Segundo o político Abdolreza Davari,eles se tratam pelo primeiro nome e se veem como iguais,não como superiores e subordinados.
Mas os generais não são as únicas vozes à mesa. A política iraniana nunca foi monolítica,e o sistema é projetado para ter estruturas de poder paralelas. Desentendimentos e divisões sempre foram comuns e,em muitos casos,públicos entre figuras políticas e comandantes militares iranianos. Pezeshkian e Araghchi também têm assentos no Conselho de Segurança Nacional.
Mas sob a atual liderança coletiva,são os generais que prevalecem e,não há sinais de desordem entre eles.
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Na última terça-feira,enquanto as equipes de negociação iranianas e americanas se preparavam para viajar a Islamabad para uma segunda rodada de conversas,os generais interromperam as negociações. Havia dias que surgiam divergências sobre se o Irã deveria continuar as conversas com o vice-presidente americano,JD Vance,caso o presidente Donald Trump mantivesse o bloqueio marítimo ao Irã. Cerca de 27 navios iranianos já haviam sido impedidos de entrar ou sair de portos iranianos. A Marinha dos EUA apreendeu dois navios pertencentes ao Irã,enfurecendo ainda mais os generais,que consideraram a ação uma violação do cessar-fogo.
Trump havia publicado uma série de mensagens nas redes sociais sobre forçar o Irã a ceder a todas as suas exigências e renovou as ameaças de bombardear usinas de energia e pontes do país caso o regime não concordasse com um acordo.

Trump ataca a Otan após reunião privada com o chefe da aliança e critica falta de apoio no Irã — Foto: Kent Nishimura/AFP
O comandante-em-chefe,general Vahidi,e vários outros generais argumentaram que as negociações eram inúteis porque o bloqueio demonstrava que Trump não estava interessado em negociações e queria pressionar o Irã a se render,de acordo com autoridades e dois membros da Guarda Revolucionária.
As autoridades disseram que Pezeshkian e Araghchi discordaram. Pezeshkian alertou para as graves perdas econômicas da guerra,estimadas pelo governo em cerca de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,4 trilhão,na cotação atual),e para a necessidade de alívio das sanções para a reconstrução. Também surgiram divergências sobre até que ponto o Irã deveria prosseguir com o fechamento do estreito.
Os generais,venceram e as negociações fracassaram.
Trump,por sua vez,prorrogou o cessar-fogo,mas manteve o bloqueio até que,segundo ele,os "líderes fragmentados" do Irã apresentem sua própria proposta de paz. O que acontecerá a seguir não está claro. Tampouco está claro se a Guarda Revolucionária permitirá concessões suficientes aos Estados Unidos em relação ao programa nuclear iraniano para que um acordo de paz se concretize,incluindo as duas questões controversas: o congelamento do enriquecimento e a renúncia ao estoque de 400 quilos de urânio altamente enriquecido.
Uma facção radical no Irã,embora não seja dominante,se opõe a quaisquer concessões,acreditando que,se o Irã continuasse lutando,derrotaria Israel e os Estados Unidos. Os apoiadores dos radicais têm tomado as ruas em manifestações noturnas,agitando bandeiras e jurando derramar seu sangue pela república islâmica. Quando Araghchi publicou nas redes sociais que o Irã estava abrindo o estreito,os radicais o atacaram,acusando a equipe de negociação de trair seus apoiadores.
Os radicais são apoiadores de Saeed Jalili,um candidato presidencial ultraconservador,que foi afastado das decisões,mas ainda exerce alguma influência,inclusive sobre a televisão estatal,dirigida por seu irmão. Alguns exigiram que Khamenei gravasse uma mensagem em vídeo ou áudio para confirmar publicamente seu apoio às negociações com Washington. Em um comício em Teerã,a multidão que se dirigia a Khamenei gritava: "Comandante,dê-nos a ordem e nós a cumpriremos".
Ghalibaf dirigiu-se à nação na televisão estatal na noite de sábado,assegurando aos iranianos que Khamenei estava envolvido. Ele adotou um tom desafiador,mas pragmático,afirmando que o Irã havia obtido conquistas militares,incluindo o abate de um caça americano — mas que agora era hora de usar esses ganhos em negociações diplomáticas.
— Às vezes,vejo nosso povo dizer que os destruímos — disse Ghalibaf. — Não,não os destruímos e vocês precisam entender isso. Nossos avanços militares não significam que somos mais poderosos que os Estados Unidos.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro