
O Cozido do Gracioso,que é servido toda primeira terça-feira do mês — Foto: Divulgação
GERADO EM: 29/04/2026 - 20:59
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Foi o Leo Aversa quem começou o inventário dos pratos clássicos que evaporaram dos cardápios. Constatou que o antes desejado filé com fritas,suculento e sensual,hoje é restrito aos cardápios infantis. Soa quase como uma heresia gastronômica fazer um pedido desses em restaurantes badalados. Depois,veio a indignação de Joaquim Ferreira dos Santos ao saber que apenas um dos mais de cem bares do Comida di Buteco usou jiló,uma entidade das baixelas de botequim,como ingrediente do petisco concorrente. Chegou a minha vez. O que andam fazendo com os cozidos na cidade?
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Antes prato de prestígio em bares e restaurantes,com dia certo no menu e tudo,o cozido virou mais uma opção morna e sem tempero em tabuleiros suados de estabelecimentos a quilo. Juntam legumes aleatórios preparados sem respeitar o tempo de cada um,embutidos salgados demais,um feijão esfarelado,tacam tudo no mesmo saco,e fim. Pirão? Nem pensar. Um desgosto.
Por sorte,a insistência de alguns lugares faz a tristeza nem pensar em chegar à mesa. Eles funcionam como uma espécie de Liga da Justiça da nossa história de comes e bebes,que por muito tempo foi chamada tristemente de baixa gastronomia.
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Um dos heróis da resistência das nossas tradições é o Gracioso,desde 1960 fazendo história na Sacadura Cabral,na região central do Rio. Lugar de mesas grandes,conversas altas e brindes fáceis. Desde que o bar abriu as portas,terça-feira é dia de cozido. Um cozido português com alma carioca. Tirando o ano e cinco meses que o bar demorou para se reerguer de um incêndio devastador,nunca falhou.
É lá que um time de boêmios da cidade se reúne para botar o papo em dia entre um chope,um risole de camarão ou umas tirinhas de queijo coalho fritas com melado cuidadosamente servidos pela Paulinha para ninguém perder o foco no personagem principal.
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Quando a comida chega,o negócio muda de figura. Ficam quase em silêncio enquanto degustam a iguaria,deixando escapar algumas onomatopeias pontuais. É o Clube do Cozido do Gracioso (CCG),que acontece uma vez por mês,sempre na primeira semana,e tem até manifesto emoldurado pendurado na parede.
É todo um ritual. A estrela do dia chega tal como deve ser: fumegante,numa travessa funda e retangular de barro,coberta por uma folha inteira de couve. O vegetal verde-escuro é o guardião da beleza e da temperatura do cozido. A cada edição,um confrade diferente tem o privilégio de descortinar o sem fim de sabores preservados ali.
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Verduras,legumes,enchidos,carnes,feijão branco e a banana-da-terra vão se reacomodando à medida que cada um pega o seu quinhão. Sabem que estão ali para isso mesmo,para serem pescados sem ordem,sem protocolo. Ninguém é mais importante do que ninguém. E não precisa fazer cerimônia. Do prato que abraça,comem muitos. Ali,um cozido pode acalmar até quatro corações generosos. Feridos,três.
O mês vira hoje,terça tem cozido. Quem chegar é bem-vindo. Como diz o manifesto escrito pelo fundador da confraria,o economista apaixonado pelo Rio e seus sabores Guilherme Studart: "Cozido é a celebração da vida,da amizade. Ninguém sai de barriga vazia. Muito menos de alma".
Leo,Joaquim,nos vemos lá?
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro