
Crianças devem ser estimuladas a ler — Foto: Divulgação
GERADO EM: 07/07/2026 - 22:01
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Mais da metade das famílias brasileiras nunca,ou quase nunca,lê um livro com seus filhos pequenos. A maioria raramente canta,conta histórias ou brinca com números no dia a dia. Esse é um achado revelador do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-estar da Criança (IELS),conduzido pela OCDE no Ceará,no Pará e em São Paulo — e não deixa dúvida de que a aprendizagem acontece muito além da escola.
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O estudo traz números inéditos sobre o desenvolvimento das crianças em linguagem,pensamento matemático e habilidades socioemocionais. O mais importante,porém,não está nos scores. Está no que eles revelam sobre a complementaridade entre o que acontece dentro e fora da escola e sobre a necessidade de políticas públicas que considerem as interações cotidianas entre adultos e crianças como peça-chave no enfrentamento das desigualdades.
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Um exemplo está nos resultados de linguagem: próximos da média internacional,mas com importantes variações internas. O IELS mostra que as diferenças têm cor e raça e já se manifestam aos 5 anos de idade. As iniquidades nos marcos da aprendizagem devem alertar sobre quem ainda não tem acesso à creche e à pré-escola e,com a mesma urgência,sobre a qualidade das práticas e interações que ocorrem nelas. Implementar políticas que fortaleçam a atuação de professoras e professores implica estruturar caminhos para apoiar de perto quem atua nos contextos mais vulneráveis,a fim de garantir que todas as crianças vivenciem experiências frequentes de leitura,diálogo e exploração,com escuta e responsividade nas rotinas.


O estudo mostra,com igual clareza,que a escola não é resposta única para todos os desafios. O ambiente de aprendizagem em casa tem associação forte com o desenvolvimento das crianças. E é justamente aí que o cenário se mostra mais árido. A baixa prevalência da leitura com as crianças pequenas é uma das formas como a desigualdade se instala,independentemente do que acontece nos contextos formais de educação.
As diferenças começam cedo e se acumulam. O debate sobre aprendizagem no Brasil precisa encarar que não basta investir na qualidade e na equidade dentro da escola se,fora dela,o desenvolvimento continua determinado pelo nível socioeconômico da família.
A boa notícia é que essa equação não é imutável,tampouco exige condições ideais para as transformações começarem. Há evidências consolidadas de que interações cotidianas ricas e regulares acumulam impacto ao longo da vida de uma criança. Não se trata de acrescentar mais uma tarefa à rotina das famílias,nem de exigir que cuidadores atuem como professores.
Fazer uma receita com a criança,lendo o texto juntos,conversando sobre comidas,quantidades,sabores e memórias,é um exemplo singelo de atividade cotidiana com enorme potencial de desenvolvimento. O que transforma uma rotina comum em experiência de aprendizagem é a presença do adulto,a disposição de escutar o que a criança tem a dizer e um mínimo de repertório para reconhecer e potencializar o que ali acontece.
O próximo passo é investir em iniciativas que ofereçam apoio estruturado,orientações concretas e acessíveis e agentes que reconheçam o potencial educador das famílias — assumir que a responsabilidade por criar condições para o desenvolvimento no ambiente doméstico não é das famílias isoladamente,já sobrecarregadas com jornadas de trabalho extenuantes.
Precisamos integrar essas iniciativas a políticas intersetoriais que articulem os contextos dentro e fora da escola,que fortaleçam as famílias e que tratem o desenvolvimento na primeira infância como o que ele é: uma questão de equidade,com resposta possível,a partir da ação e responsabilidade coletiva.
*Beatriz Cardoso e Nicole Paulet Piedra são,respectivamente,conselheira estratégica e diretora executiva do Laboratório de Educação
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