
A China começou a construir a maior Grande Muralha Verde do mundo: o grande perigo que isso acarreta — Foto: Divulgação
O projeto ambiental mais ambicioso da história moderna,a chamada Grande Muralha Verde da China,enfrenta uma crise de reputação após 48 anos de implementação. O que começou,em 1978,como um plano estratégico para conter a expansão dos desertos de Gobi e Taklamakan,e que envolveu o plantio de 66 bilhões de árvores,agora revela um aspecto preocupante: o impacto direto dessa intervenção humana na saúde pública da população.
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A seleção de espécies vegetais escolhidas por sua resistência e rápido crescimento,como artemísia,salgueiro e álamo,levou a um aumento alarmante nas taxas de alergias respiratórias. O pólen dessas plantas libera compostos voláteis que,longe de serem inofensivos,desencadeiam casos graves de asma e rinite alérgica.
De fato,os moradores das regiões ao redor dessas barreiras florestais têm agora o dobro da probabilidade de sofrer de alergias em comparação com o período anterior ao início do projeto. Diante desse cenário,as autoridades chinesas destinaram € 747 milhões para substituir espécies consideradas nocivas por outras mais seguras,como ginkgo e ameixeira,além de implementar fitormônios para inibir a liberação de pólen.


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Turistas visitam o Forte Jiayuguan,a âncora histórica da parte mais ocidental da Grande Muralha da China — Foto: Adam Dean/The New York Times


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Construção da muralha,com milhares de quilômetros,começou no século III a. C. e durou centenas de anos. — Foto: Robb Kendrick/The New York Times
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A muralha da China atrai visitantes de todo o mundo — Foto: Roberto Stuckert Filho

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Turistas em uma seção da Grande Muralha da China,em fevereiro de 2013. Uma caminhada de dois dias ao longo de um trecho remoto da Grande Muralha da China oferece vistas infinitas sem a distração de multidões. — Foto: Robb Kendrick/The New York Times
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Trecho da Grande Muralha,na área de Gubeikou,ao redor da Montanha Panlong,cerca de 90 milhas a nordeste de Pequim. Esta seção da muralha é um excelente exemplo da construção da dinastia Ming,construída entre 1568 e 1583,no topo de uma relíquia de uma parede que remonta a 1.000 anos antes. — Foto: Robb Kendrick/The New York Times

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A história da Grande Muralha da China está esculpida em pedra na base da entrada Jinshanling do muro — Foto: Robb Kendrick/The New York Times
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Jovem tira uma foto de um arco em ruínas em uma torre de vigia ao longo da Grande Muralha da China — Foto: Robb Kendrick/The New York Times

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Uma torre de vigia ao longo da Grande Muralha da China — Foto: Robb Kendrick/The New York Times
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Vista da Grande Muralha da China na província de Hebei em maio de 2006 — Foto: Chang W. Lee/The New York Times

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Torre Yao Gou Lou,parte da Grande Muralha da China,na província de Hebei,em maio de 2006. — Foto: Chang W. Lee/The New York Times
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Nesta foto tirada em novembro de 2006,visitantes escalam uma parte danificada da Grande Muralha na província de Hebei — Foto: Chang W. Lee/The New York Times
Muralha começou a ser erguida no século III a. C.,com objetivo de impedir a entrada de invasores estrangeiros; monumento tem milhares de quilômetros e levou centenas de anos para ficar pronto
Mas a controvérsia não se limita à saúde. Uma pesquisa recente publicada na revista Geophysical Research Letters analisou a dinâmica dessas florestas diante das mudanças climáticas. A equipe da Universidade de Pequim,liderada pelo ecologista Yuhang Luo,descobriu que as florestas plantadas apresentam uma cobertura vegetal que cresce 66% mais rápido do que a observada em áreas naturais. Embora esse aumento inicial na densidade da folhagem sugira maior capacidade de captura de CO₂,os especialistas alertam que esse efeito é temporário.
A vantagem dessas árvores atinge seu pico operacional entre os 30 e os 40 anos de idade,período em que seu desenvolvimento se estabiliza. Em contraste,os ecossistemas naturais apresentam um crescimento mais lento,porém contínuo,o que garante maior resiliência e capacidade de armazenamento de carbono no longo prazo.
Erros do passado e desafios para o futuro
A gestão intensiva dessas plantações também serviu de lição sobre erros cometidos no passado. Em 1991,na região de Ningxia,o governo precisou cortar e queimar 24 milhões de árvores devido a pragas provocadas por uma seleção inadequada de espécies. Da mesma forma,em Jingbian,o plantio de choupos acabou esgotando os recursos hídricos locais,paradoxalmente agravando a desertificação que pretendia combater. Essas experiências reforçam que a engenharia ecológica em larga escala se mostra ineficaz quando as características biológicas de cada território não são levadas em consideração.
O debate sobre a real eficácia desse cinturão verde permanece em aberto. Kevin Dsouza,pesquisador da Universidade de Waterloo,afirmou à Live Science que medir o sucesso da floresta apenas pela densidade da folhagem é um erro,uma vez que o carbono também é armazenado no solo e nas raízes. Embora o projeto tenha conseguido reduzir em 70% a intensidade das tempestades de areia,o equilíbrio entre os benefícios climáticos e os riscos à saúde e ao meio ambiente demonstra que a natureza não é facilmente moldada pela intervenção humana.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro