pesquisa rápida
Hoje:

Plebe Rude comemora 40 anos de disco de estreia, que tocará no C6, e revê histórias: ‘você via que havia vida inteligente no rock brasileiro’

Aug 10, 2026 estilo de vida saudável IDOPRESS

Plebe Rude — Foto: Divulgação

“Rachou... o concreto já rachou!” A frase que dá nome ao disco de estreia da Plebe Rude correu o sério risco de não entrar no registro — que,consequentemente,talvez tivesse outro nome.

— A EMI nos contratou para gravar um miniLP — lembra Philippe Seabra,cantor e guitarrista da Plebe,40 anos depois daquele 1986,justificando a autoproclamada alcunha de “o único cara da geração que não fumava maconha”. — Ou seja,só tínhamos direito a seis músicas. Fiquei muito ofendido com isso,inclusive. Já estávamos na estrada havia cinco anos,viajando de ônibus pelo Brasil,e tínhamos repertório para mais do que um disco inteiro.

Com o lobby de amigos como Herbert Vianna,que produziu o disco,e dos músicos da Legião Urbana,também contratados da companhia (mas com direito a um LP inteiro),a Plebe conseguiu dar um jeitinho de incluir uma sétima música.

— Falamos ao Herbert para explicar aos caras da gravadora que o verso que dava nome ao disco,da música “Brasília”,precisava entrar,e assim conseguimos lançar o disco com sete faixas — conta Philippe,lembrando que músicas como “Censura” já existiam,mas não couberam no disco. — Nossos embates com a EMI eram diários,por causa dessa história do repertório e também porque queríamos ter autonomia em relação ao som.

Assim nasceu “O concreto já rachou”,lançado em fevereiro de 1986 pela EMI-Odeon,companhia que já tinha colocado em circulação os discos de estreia da Blitz (“As aventuras da Blitz”,em 1982),dos Paralamas (“Cinema mudo”,1983),da Legião (“Legião Urbana”,1985) e outros. Com músicas como “Até quando esperar”,“Minha renda” e “Proteção”,o disco foi um sucesso,levando um rock mais agressivo,das raízes punks de Brasília,às rádios,ao Chacrinha (a letra de “Minha renda” fala em ir ao Chacrinha como uma espécie de venda da alma ao sistema,e a banda brinca com isso nos shows,mostrando um antigo vídeo de uma ida ao programa) e a palcos como os do Circo Voador e do Parque Lage,no Rio.

Continuar Lendo

Quarenta anos depois,“O concreto...” — que amargou alguns anos fora de catálogo,antes da chegada do CD e,depois,do streaming — ganha uma edição de luxo em LP,em vinil branco,com um disquinho extra,como os antigos compactos,com as versões demo de “Proteção”,“Johnny vai à guerra (outra vez)”,“Sexo e karatê” e “Minha renda”.

Ana XYZ e Marta Detefon

Além das versões mais básicas,registradas num pequeno estúdio de Brasília,“Sexo e karatê” tem a participação das cantoras Ana XYZ e Marta Detefon,colaboradoras na época.

— A gravadora Universal (que comprou o catálogo da EMI) fez um trabalho muito legal,e,acho,merecido — diz Philippe,sem falsa modéstia. — Ficou primoroso. Você tem que respeitar os clássicos,né? Eu ficava muito chateado quando morava em Nova York (ele é americano,nascido em Washington,DC,em 1966),em uma época de parada da Plebe,e não tinha como mostrar às pessoas o que a minha banda tinha gravado. A gente ganhou o disco de ouro antes da Legião!

Além do relançamento,o álbum será tocado na íntegra (é rapidinho,apenas 21 minutos; dá tempo de entrar mais material) no festival C6 no Rock,no Ibirapuera,em São Paulo,no dia 22,em que a Plebe se apresenta ao lado de artistas da mesma geração,também tocando seus clássicos,como Paulo Ricardo (“Revoluções por minuto”,do RPM),Blitz (“As aventuras da Blitz”),Titãs (“Cabeça dinossauro”) e outros.

— Quando essas bandas começaram a estourar,você ligava o rádio e via que havia vida inteligente no rock brasileiro — lembra Philippe. — Eu não gostava muito do RPM,mas aquela letra que dizia “Ouvimos qualquer coisa de Brasília/ Rumores falam em guerrilha” (“Revoluções por minuto”)... Eu pensava: “ele deve estar falando da gente”.

Livro de 640 páginas

Lançado em uma segunda onda do rock nacional dos anos 1980,“O concreto...” teve a sorte de pegar a EMI mais preparada para um registro do gênero.

— O Brasil ainda não tinha produtores de rock — lembra o baixista André X,que participa da chamada de vídeo de sua sala no Banco Central,em Brasília,onde trabalha. — O Herbert,já mais consagrado com os Paralamas (que lançaram em 1986 seu terceiro disco,“Selvagem?”,que também será tocando no C6),queria investir numa carreira de produtor,como ele nos conhecia de Brasília,assumiu o controle do disco e nos ajudou muito. Mas o som em si é mérito,principalmente,de Renato Luiz,técnico de estúdio da EMI.

Philippe e André fundaram a Plebe Rude em 1981 ao lado de Jander “Ameba” Bilaphra (guitarra e voz) e Gutje Woortmann (bateria),a partir da mesma cena punk da Turma da Colina,que gerou o Aborto Elétrico (banda de Renato Russo com os irmãos Flávio e Fê Lemos,baixista e baterista,respectivamente,que mais tarde formariam o Capital Inicial),a Legião e outras bandas. Depois de idas e vindas — como a parada entre 1994 e 1999 —,a banda hoje está estável com o baterista Marcelo Capucci e o cantor e guitarrista Clemente Nascimento,uma lenda do punk nacional,que há 22 anos se divide entre a Plebe e os Inocentes.

— Clemente foi literalmente o primeiro punk de São Paulo que a gente conheceu,ao descer do ônibus no Terminal Tietê,quando fomos tocar lá — lembra Philippe,que lançou em 2025 o livro “O cara da Plebe” (Editora Belas Letras),um calhamaço de 640 páginas com a história da banda e sua própria. — Ele estava na produção do Napalm,a casa que nos chamou para tocar.

'Herbert peitou a gravadora'

Clemente Nascimento,que fundou em 1981,na periferia de São Paulo,os Inocentes (que uniu integrantes das bandas Restos de Nada e Condutores de Cadáver) se lembra muito bem de seu primeiro contato com a Plebe Rude:

— Eu olhei e pensei: “São esses aí os punks de Brasília? Esses caras não vão durar dez minutos aqui em São Paulo!” — conta ele,às gargalhadas. — Plebe e Inocentes sempre foram bandas irmãs,estavam juntas em muitos eventos e festivais. Um dia,em 2002,eles me ligaram e chamaram para tocar em um show. Perguntei se era uma participação,e disseram que não,era o show inteiro,e sem ensaio. Fiz então a pergunta necessária: “Tem cachê?”. Entrei.

O responsável pela bateria da Plebe há 15 anos é Marcelo Capucci,que acompanhou o começo da banda como um jovem fã.

— Eu morava em Brasília até os 11,12 anos,e vi o começo da cena — lembra ele.

A memória também leva Herbert Vianna a Brasília,onde conheceu um Philippe ainda adolescente (ele formou a Plebe aos 15 anos).

— Herbert diz que eu tenho a melhor mão direita do rock nacional! — apressa-se a informar ele,hoje também produtor,com seu próprio estúdio na capital. — Sempre tem esse papo de que os Paralamas são uma banda de Brasília,que não é verdade,mas Herbert e Bi Ribeiro se conheceram aqui,eram amigos da galera. Depois que Herbert se mudou para o Rio,ele começou os Paralamas com o Bi e,na época,o Vital (sim,aquele da moto,que “passou a se sentir total”) na bateria,depois substituído por João Barone.

Show no Rio

O som da bateria em “O concreto já rachou”,aliás,era uma preocupação da banda,assim,como qualquer interferência da gravadora.

— O disco da Legião é meio mal gravado,né? — diz o sincerão Philippe,para logo fazer a ressalva. — Isso não tira a força do disco nem a lucidez das músicas,é claro. O som de bateria é ruim,também. Mas não era o Gutje tocando,é outra história. E aquele teclado horroroso em “O reggae”?

Um dos maiores sucessos do disco da Plebe,“Minha renda”,que versa exatamente sobre o que o sistema pode fazer com um artista,era um ponto especialmente sensível: “Ele trocam minhas letras,mudam a harmonia/ no compacto está escrito que a música é minha/ Já sei o que vou fazer pra ganhar muita grana/ Vou mudar meu nome para Herbert Vianna!”,diz a letra,debochada.

— Eu teria dado tilt no estúdio se eles tivessem tentado interferir em alguma coisa — admite Philippe. — Mas o Herbert peitou os caras,e tudo saiu como queríamos.

Além do C6 no Rock,este mês,e de outras datas,a Plebe Rude toca no Circo Voador no dia 30 de outubro

Pesquisa rápida

Reportagem diária do entretenimento brasileiro:Receba todas as últimas notícias e atualizações de entretenimento - sua melhor fonte de todas as coisas da cultura pop! De resenhas de filmes a notícias musicais, nós ajudamos você. Mantenha-se informado e nunca perca as últimas novidades do mundo do entretenimento. Por favor, siga-nos a qualquer momento!

© Reportagem diária do entretenimento brasileiro