
A escritora e influenciadora Carla Lemos,criadora da página Modices,blog e perfil de redes sociais,vivenciou episódios traumáticos na Lapa — Foto: Reprodução
Dois socos,puxão de cabelo,empurrão. Após agressões em uma casa de shows,falta de acolhimento na delegacia. Na noite que seria de samba entre amigos na Lapa,no centro do Rio,a escritora e influenciadora Carla Lemos,vivenciou episódios traumáticos. Ela denunciou na polícia ter sido agredida por um homem com socos no rosto. Seu supercílio se abriu. O caso foi registrado na 5ª DP (Lapa).
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“Minha amiga me convidou para ir ao samba. Fazia tempo que eu não conseguia ir a uma roda,e essa era especial: o lançamento do audiovisual do Samba Independente dos Bons Costumes. A roda do SIBC acontece na Fundição Progresso,que frequento desde a adolescência,já fui a shows lá sozinha. Um lugar onde eu sempre me senti segura,principalmente pela política da casa contra assédio. Era para ser só mais uma quinta-feira feliz.
Entrei com dois amigos. Em certo momento,fui ao banheiro. Quando voltei,dois homens tinham surgido. Um de camisa bege tombava sobre todo mundo,comportamento típico de quem está bêbado,e um outro com ele trocava ameaças com quem estava em volta.
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Eu disse: “Agora tem espaço livre aqui na frente,dá dois passinhos porque você está caindo em cima de mim”. Ele foi.
No palco,o samba foi interrompido para uma mulher fazer o alerta de toda quinta-feira: não toleramos assédio,nenhum tipo de violência contra a mulher. Nisso,os dois amigos cambaleantes saíram,e o mais forte deles,o de camisa bege — um rapaz branco e jovem —,jogou bebida em todo mundo ao redor. Do lugar onde eu estava,avistei os dois discutindo com outra pessoa e,em seguida,retornando.
A partir daí,só lembro de violência. O de camisa bege me dá um empurrão de um lado,depois um soco na maçã do rosto,que doeu bastante,e,na sequência,um soco na testa. Sigo tentando me defender. Percebo o samba parando e gente se juntando ao meu redor. Ouço a cantora no palco falando: “Estão agredindo uma mulher,ela está sangrando”. Homens se juntam e o agridem para tirá-lo de cima de mim,e consigo me afastar. Quando olho para minha mão toda ensanguentada,percebo que essa mulher sou eu. Vou para perto do palco,olho para minha camiseta e vejo uma mancha de sangue vermelho vivo. Levo a mão à testa,quente,tentando achar a fonte do sangramento. Olho pra minha amiga e pergunto: “tá muito ruim?” A cara dela,aterrorizada,diz que sim.
Sou conduzida para o ambulatório. Logo o agressor de camisa bege chega também. Começo então a entender. Ele só parou quando mais de cinco homens o tiraram de cima de mim. E só conseguiram pará-lo depois que a cantora avisou que tinha uma mulher sangrando.
Uma sequência de violência só porque eu era a pessoa mais fraca,a menor que esse homem achou quando voltou ao lugar onde o ameaçaram. Ele não bateu no homem mais alto,mais forte,que discutiu com ele. Ele concentrou a violência em mim. Talvez tenha suposto que estávamos todos juntos,não sei. Sei que evidentemente o foco estava em mim,uma mulher que não dirigiu a palavra a ele. Ele puxava minhas tranças e socava,segundo relatos de quem viu a cena do chão e do palco.
No ambulatório,ele fala ao telefone e trata a situação com deboche e desdém. Tenta ir embora,mas os seguranças o impedem. Querem me conduzir ao hospital,mas eu digo que só vou quando a polícia chegar para levá-lo. A polícia chega. Eu digo que quero ir primeiro para a delegacia,para que o delegado veja o meu estado. Chegando lá,descubro que não há mais delegados na delegacia. Eles agora atuam remotamente. Vou então para o Hospital Souza Aguiar,junto com o agressor e seu amigo. Levei seis pontos no supercílio.
Na sala de espera,o amigo do agressor ficava nos rondando,e minhas amigas me protegiam. Voltamos para a delegacia e,enquanto eu esperava para dar depoimento,o agressor passou e mandou beijinho — na frente dos policiais que estavam lá,presenciando tudo,e que não podiam fazer nada.
Aqui chegamos a outra violência: quem decide se alguém fica preso em flagrante muitas vezes nem está na delegacia. O delegado avalia remotamente,com base em documentos digitalizados que os policiais mandam pelo sistema. Foi minha advogada quem falou por telefone com a delegada de plantão — ela decidiu meu caso sem nunca ter visto meu rosto pessoalmente,sem ter visto o agressor debochando dentro da delegacia. Os policiais que estavam lá não tinham autonomia para agir diferente. Minha advogada,ao perguntar por telefone à delegada se aquilo não configurava violência de gênero e ao relatar o menosprezo pela minha condição de mulher,ouviu que não havia elementos suficientes.
Mesmo com os depoimentos e o laudo do hospital,ele não foi preso em flagrante. Foi liberado. Você pode bater numa mulher até ela sangrar e sair andando livremente. Voltar para sua casa em São Paulo,para o cargo sênior numa grande empresa. Um homem branco,com endereço fixo,emprego estável — o retrato de quem o sistema tende a proteger primeiro.
Isso aconteceu na madrugada do dia em que a Lei Maria da Penha completou 20 anos. As autoridades disseram que ele não ficou preso justamente porque meu caso não se enquadra na lei,já que eu nunca vi nem falei com o agressor antes na vida. Coincidentemente,nessa semana o STF está julgando se a lei deve ser ampliada para casos como o meu: quando um completo desconhecido resolve descontar a raiva dele numa mulher que ele nem conhece,só porque pode. Isso é misoginia em sua forma mais pura. E precisa ser tipificada como tal.”
*Em depoimento a Thayná Rodrigues.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro