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Pedro Almodóvar redescobre um pouco da leveza em ‘Natal amargo’, seu novo filme

May 28, 2026 Filmes IDOPRESS

Pedro Almodóvar no lançamento de 'Natal amargo',no Festival de Cannes — Foto: Anna Kurth/AFP

RESUMO

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O cineasta revelou que o novo longa deve encerrar sua fase de produções autobiográficas,afirmando que o projeto é 'provavelmente o último sobre mim mesmo' e que planeja mudar de rumo no futuro. O longa-metragem marca o retorno de Almodóvar à Espanha e à sua língua,após o diretor realizar seus três projetos anteriores com elencos e cenários estrangeiros. A trama acompanha um diretor em crise criativa que usa dramas de amigos em seu roteiro,levantando um debate sobre a "sensibilidade ética de um criador". O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

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Aos 76 anos,Pedro Almodóvar admite que,com o avançar da idade,veio perdendo o bom humor de seus primeiros projetos,gerados à luz da revolução comportamental que celebrou o fim da ditadura de Francisco Franco,nos anos 1970.

— Sinto muita falta de poder fazer um filme como “Mulheres à beira de um ataque de nervos” (1988) novamente,com aquela mesma paixão e alegria. Mas essa paixão,que nunca me deixou nesses meus 60 anos de carreira,se tornou ainda mais dramática com o passar do tempo — contou o diretor espanhol no Festival de Cannes,onde competiu pela Palma de Ouro com “Natal amargo”.

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O novo filme do lendário cineasta devolve o autor de “Tudo sobre minha mãe” (1999) à sua língua e ao seu país de origem,depois de trabalhar com elenco e paisagens estrangeiras em “A voz humana” (2020),“Um estranho modo de vida” (2023) e “O quarto ao lado” (2024),grande vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza. Mas também o trouxe de volta às reflexões autobiográficas e introspectivas de sua fase mais recente,que culminou com “Dor e glória” (2019).

Desenvolvido a partir de um conto escrito por Almodóvar há alguns anos,“Natal amargo” conta a história de um cineasta com bloqueio criativo (o argentino Leonardo Sbaraglia),que busca inspiração para seu próximo filme quando uma tragédia atinge uma amiga próxima e,a partir dela,começa a desenvolver a trama de Elsa (Bárbara Lennie),uma diretora em crise,cuja trajetória começa a espelhar a dele. Os dois cineastas tornam-se duas faces da mesma moeda,como em um labirinto de espelhos.

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“Natal amargo” se propõe a refletir sobre a amizade,o processo artístico e os aspectos éticos da autoficção: tanto na história “real” quanto na ficcional,ambientada 200 anos antes,Raúl e Elsa estão cercados por amigos próximos que sofrem tragédias familiares,luto e términos de relacionamento,traumas que esses cineastas exploram sem pudor em seus roteiros.

— Dizem que tudo o que não é autobiográfico é mentira. Concordo,já que minha vida,em diferentes níveis,sempre foi fonte de inspiração para meus filmes — disse Almodóvar.

Carmen Maura em "Mulheres à beira de um ataque de nervos": Cineasta diz que adoraria fazer um filme com o mesmo tom de novo — Foto: Divulgação

Filmes barrocos

“Em cada fase da minha vida,houve pontos de virada. Os filmes que fiz na década de 1980 são muito diferentes dos que faço hoje. E,da mesma forma,os filmes que fiz no início do século são muito diferentes dos que fiz nos anos 80 e 90. Faço filmes que falam ao meu coração. Acho que evolui com o tempo,e o fato de ter me soltado,de ter feito filmes muito barrocos na década de 1980,me impede de retornar a esse tom. É verdade,ganhei profundidade,mas perdi um pouco do meu senso de humor. Em ‘Natal amargo’,acho que o redescobri um pouco,especialmente no início do filme. Mas é algo que talvez eu perca. Adoraria fazer um filme como ‘Mulheres à beira de um ataque de nervos’ novamente. Mas filmes não são apenas uma fórmula pronta,são algo muito misterioso,e o ato de criação é misterioso,assim como a relação entre a criação e a vida. No futuro,eu gostaria que as coisas fossem mais divertidas. No meu próximo projeto,haverá muito humor negro,espero.”

Cena de "Natal amargo",filme de Pedro Almodóvar: cineasta diz que provavelmente será o último sobre si mesmo — Foto: Reprodução

‘Estou cheio de mim mesmo’

“Eu já estou cheio de mim mesmo. Mas não quero me recusar para continuar escrevendo. Estou procurando algo diferente,com o qual possa compartilhar coisas diferentes das que conheço,que me são familiares. Gostaria de descobrir um universo,um mundo tão diferente do meu próprio,longe do meu umbigo. Há muitos filmes que eu gostaria de fazer na Espanha,mas não sinto que estou em posição de fazê-los. Mas,sim,eu gostaria de mudar a direção,mudar de caminhos. Eu acho que este filme,‘Natal amargo’,é bastante definitivo. É provavelmente o último sobre mim mesmo. Acho que o próximo filme será diferente.”

Paixão

“Para fazer um filme,preciso me sentir feliz com o roteiro,se eu não sentir as coisas dentro de mim mesmo,então eu coloco o roteiro de lado por alguns anos e volta a ele depois. Mas é uma questão de verdadeira paixão. Isso é o que me inspira a continuar com o meu trabalho,e espero continuar a fazer isso no futuro também.”

Antonio Bandeiras em 'Dor e glória': relação com 'Natal amargo' — Foto: Reprodução

Dor física e dor moral

“Com efeito,‘Natal amargo’ e ‘Dor e glória’ parecem interligados,como uma espécie de díptico,porque falo sobre mim em ambos. Em ‘Dor e glória’,eu realmente estava referindo à paralisia do criador por razões físicas: seu pescoço,seus braços,tudo nele doía,e isso realmente o desligava. Em ‘Natal amargo’ a dor é uma dor moral,é uma dor psicológica,que é percebida como crônica. E eu me reconheço no personagem Raúl Rossetti (Sbaraglia). É uma situação inesperada. Você tem a impressão de que está passando por uma crise existencial terrível e,por causa dessa crise,o personagem tenta encontrar a força que está dentro dele. O problema de alguém próximo o inspira a escrever,sem avisar ou consultar essa pessoa. Quando eu faço algo parecido,sempre tento não machucar ninguém no processo,mas Raúl não se importa com isso. É um egocêntrico,muito perigoso para todos ao redor. Há um debate moral que não foi realmente elucidado,que tem a ver com a sensibilidade ética de um criador.”

Ética e culpa

“Há uma mistura de ambas as coisas,na verdade,quando se toma a realidade de alguém emprestado. Você tem esse sentimento de culpa porque um é consciente do fato no processo de escritura. Quando me inspiro em alguém que conheço,ou que me é próximo,eu misturo muita ficção,para que a pessoa real não se veja lá no filme.”

Inspiração

“A ideia do desafio de ‘Natal amargo’ é ser muito generoso,fazer retratos de uma região,de um tempo,e um certo número de personagens. Eu peço inspiração em alguns detalhes,peço inspiração dos meus entornos,e então eu misturo tudo com ficção. Mas há,uma cota de responsabilidade em tudo isso. A criação é algo muito misterioso,e é extremamente poderoso. E,quando você sente que está contagiado por inspiração ou essa onda de criatividade,para mim,é impossível dizer que não vou seguir esse caminho,mesmo que eu não saiba aonde vai me levar.”

A música de Chavela Vargas

“Quando eu ouço a Chavela (cantora da tradição ranchera mexicana),o que ouço é toda a emoção profunda dessas canções. E você pode aprender muito sobre a vida. Já usei músicas dela em ‘A flor do meu segredo’ (1995),‘Kika’ (1993),‘Carne trêmula’ (1997) e ‘Julieta’ (2016). Chavela fala sobre a dor de ser abandonado e transforma isso em uma espécie de missa cheia de emoções. Cada canção dela falava sobre isso,sobre o dor de ser abandonado. É por isso que eu incluí a canção ‘Amarga Navidad’,que dá título ao filme,na sequência em que Patrícia (Victoria Luengo) decide abandonar seu marido. É como se Chavela estivesse cantando só para ela,Patrícia,mas também confessado que talvez tenha contribuído para o fim da relação e que,apesar de tudo,valeu a pena experimentar toda o dor. Há todo esse amor que cresce. O fato de que ela reconhece tudo isso,reconhece todos os seus erros,é algo que é muito positivo. É absolutamente maravilhoso,é absolutamente incrível.”

Alter ego

“Há a história da aventura criativa desse autor,que é mais ou menos como eu. Raúl vive tudo isso com a mesma paixão que eu. Para mim,fazer um filme não é um trabalho,é uma paixão. Não sei por quanto tempo eu vou poder continuar cumprindo essa paixão. O personagem do Leonardo (Sbaraglia) é o meu ego autêntico. As pessoas falam de ficção autêntica,mas não se trata de uma ficção literal. Os personagens são muito complexos,misturados com muitas outras coisas. Ele é um diretor,que se assemelha a mim,claro. E você tem essa imagem de espelho,que também reflete em Elsa,a diretora da ficção. E,é claro,o casamento de ambos é falho,que é algo que passei por pessoalmente. As coisas se misturam. Mas a paixão passa por todo o filme. Em outras palavras,estamos trabalhando em três níveis diferentes,falando sobre a realidade e misturando com outras coisas ao mesmo tempo. Eu sou eu,Raúl sou eu,e Elsa também. Todos estão escrevendo.”

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