
Suzana Pamplona e Felipe Nunes esmiúçam resultado do estudo 'Cultura no espelho' durante painel no evento Rio2C — Foto: Divulgação/Filmart
GERADO EM: 08/06/2026 - 17:08
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Há um novo contorno no mapa cultural do Brasil. A terra do samba,do banquinho e do violão está mais alinhada hoje ao sertanejo,à música gospel e ao piseiro. Cheio de pequenos detalhes,o retrato dos gostos e práticas de lazer dos brasileiros ganha nitidez por meio de uma nova pesquisa da TV Globo — realizada em parceria com a Quaest — que traça um painel inédito,e revelador,sobre a identidade nacional.
Caso bem-sucedido: No Rio,roteirista de 'La casa de papel' fala do fracasso que precedeu o sucesso da sérieLançamentos à vista: TV Globo anuncia novidades e mira 'pluralidade singular' do Brasil de várias telas
Os dados,apresentados num summit durante o Rio2C (e disponíveis no site gente.globo.com),ajudam a direcionar a criação de conteúdos de entretenimento num país que tem como principal marca uma escancarada “pluralidade singular”,como afirma Felipe Nunes,CEO da Quaest e idealizador do estudo “A cultura no espelho” junto a Suzana Pamplona,diretora de pesquisa e conhecimento da Globo.
Derivação do mapeamento “O Brasil no espelho”,recentemente publicado em livro,a nova análise aponta que determinados clichês seguem firmes como a fotografia ideal do país. Na prática,porém,a imagem é outra. Exemplos: samba e pagode,embora sejam as preferências musicais de apenas 9% dos cidadãos — contra o sertanejo,com predileção de 26% — aparecem como os ritmos mais representativos da nação para 23%.
— Essa realidade mostra que o consumo não está atrelado necessariamente à representatividade — diz Felipe Nunes.


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“Essa foto expressa a intensidade e a tradição do carnaval”,analisa Brenno Carvalho sobre a imagem do componente da Grande Rio no desfile de 2022. “Um instante rápido que exigiu atenção e sensibilidade para transformar essa explosão de cultura em imagem” — Foto: Brenno Carvalho


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Esse detalhe de uma integrante da Colorado do Brás,de São Paulo,foi a preferência de Maria Isabel Oliveira: “passa bem a energia do carnaval e o desprendimento da censura” — Foto: Maria Isabel Oliveira
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No desfile da Banda de Ipanema no carnaval de 2015,Paulo Moreira retratou “a velha briga entre o bem e o mal” encenado por duas folionas por trás de uma lona amarela,“representando o etéreo no carnaval carioca” — Foto: Paulo Moreira

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“Durante o desfile das escolas,procuro retratar além das imagens figurativas” conta Guito Moreto,que fez esse registro da Mangueira em busca de “situações que sejam mais lúdicas e gráficas” — Foto: Guito Moreto
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“É um momento de pura descontração: a pequena foliona assoprava confetes,dando uma composição boa”,conta Fabiano Rocha sobre este detalhe do ensaio do Céu na Terra em janeiro do ano passado — Foto: Fabiano Rocha

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“Escolhi essa foto pela plasticidade dos componentes de um carro alegórico da Unidos da Tijuca,que fez uma revolução ao trazer esse tipo de elemento para os desfiles”,conta Gabriel de Paiva,em relação a esse momento do desfile de 2005. “Na avenida,a pressão pela boa foto,e a multidão ao seu lado,torna tudo mais complexo” — Foto: Gabriel de Paiva
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“A escolha dessa foto passa muito pela expressão da integrante do Salgueiro,que incorporou a Medusa”,diz Márcio Alves,que selecionou um momento em que a mitologia grega desfilou pela avenida em 2017 — Foto: Márcio Alves

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A foto escolhida por Júlia Aguiar procurou traduzir a energia do bloco Vem Cá Minha Flor,que desfila há dez anos no Rio,“com as pessoas de perna de pau criando uma sensação de movimento que enche a cena de vida” e chamando quem estava em volta para dançar. — Foto: Julia Aguiar
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A luz ajuda a criar novas fantasias dentro do desfile de carnaval,como mostra essa foto de Alexandre Cassiano,em que ela cria a impressão de que parte das fantasias da bateria se transforma em “uma plateia assistindo à cena que faz parte do carro alegórico na frente dos componentes” — Foto: Alexandre Cassiano

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“Fantasia de carnaval e alegria são meus critérios para fazer o clique”,explica Marcelo Theobald. “Quanto mais irreverente e alegre,a foto fica mais vibrante”. Como neste momento do desfile do Carmelitas,de Santa Teresa,em 2020,nos 30 anos do bloco — Foto: Marcelo Theobald
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As baianas mirins da Beija-Flor no desfile de 2024 impressionaram Custódio Coimbra: “Para mim é uma foto que marca os desfiles. A ala das baianas,sempre tradicional,carrega o peso da escola,e nesse dia,a chuva se tornou mais um obstáculo a vencer” — Foto: Custódio Coimbra

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A visão geral do desfile do Bloco Baixo Augusta no carnaval de 2019,em São Paulo,foi a escolha de Edilson Dantas. “Uma multidão. Carnaval,nesse país,com certeza é a maior diversão. Parece que saiu todo mundo pra curtir” — Foto: Edilson Dantas
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No meio do desfile do Céu na Terra em 2011,Ana Branco capturou este “beijo único,que se destaca na multidão,em meio à irreverência do carnaval” — Foto: Ana Branco

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“O carnaval ameniza meu olhar em relações as tragédias sociais do cotidiano com que vivo na profissão”,diz Domingos Peixoto,que clicou um bate-bola em Rocha Miranda,na Zona Norte do Rio,em 2022 — Foto: Domingos Peixoto
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“O espaço da ‘corda’ nos blocos é sempre disputado: a segurança,a proximidade com a banda,a visão privilegiada”,diz Márcia Foletto,que escolheu essa foto do Céu na Terra em 2020. “Criada para proteger os músicos e facilitar o avanço,também evidencia divisões na festa” — Foto: Márcia Foletto

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“No ano passado,no bloco Pacotão,em Brasília,folião foi caracterizado de Jair Bolsonaro presidiário”,lembra Cristiano Mariz. “À época,muitos consideraram a fantasia exagerada. Mas com a prisão do ex-presidente este ano,se tornou simbólica” — Foto: Cristiano Mariz
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Selecionamos 16 imagens do acervo do jornal,explicadas por seus autores
Apesar de gastronomia e música serem os temas que mais despertam identificação — 9% e 21% associam a cultura brasileira a tais tópicos,respectivamente —,isso não se traduz num forte sentimento de pertencimento. Atualmente,apenas 20% dos brasileiros afirmam se sentir “muito representados” pela cultura nacional,enquanto 48% se dizem “pouco representados” e 29%,“nada representados”.


A pesquisa indica ainda que os ídolos que mais orgulham os brasileiros são,em sua maioria,figuras do passado — no esporte,Ayrton Senna e Pelé; na cultura,Silvio Santos e Roberto Carlos. Eis um dado aparentemente banal,mas que levanta uma questão crucial para criadores e produtores: o país está,talvez,carente de novas referências.
— Na era dos influencers,os profissionais da internet parecem dar muito pouco orgulho aos brasileiros,e este é um recado importante — ressalta Nunes. — Precisamos voltar a pensar estrategicamente em como usar a cultura para criar ídolos,ou seja,para projetar pessoas que serão vistas como um modelo para a sociedade.
O conceito difuso de cultura — 25% não sabem dizer o que o termo designa — revela barreiras de acesso e formação e expõe como o consumo de bens e atividades artísticas no Brasil é fragmentado. Mais do que isso,evidencia como a ideia de identidade coletiva se constrói no cotidiano de formas muito distintas.
O que é cultura brasileira?
Música: 21% | Comida: 9% | Festa: 7% | Esporte: 6% | Não sabe responder: 22%
Tipo de música preferido
Sertanejo: 26% | Religiosa/cristã/gospel: 16% | Forró/piseiro/arrocha: 10% | Samba/pagode: 9% | MPB: 8%
Música que representa o país
Sertanejo: 25% | Samba/pagode: 23% | MPB: 14% | Forró/piseiro/arrocha: 12% | Religiosa/cristã/gospel: 5%
Artista que dá mais orgulho
Outros: 23% | Não sabe responder: 18% | Nenhum: 12% | Silvio Santos: 7% | Roberto Carlos: 6% | Fernanda Montenegro: 3% | Tony Ramos: 2% | Antonio Fagundes: 2% | Tarcísio Meira: 2% | Marília Mendonça: 2% | Luiz Gonzaga: 2% | Alcione: 2% | Gilberto Gil: 1% | Tim Maia: 1% | Amado Batista: 1% | Lima Duarte: 1% | Caetano Veloso: 1% | Cazuza: 1% | Chico Buarque: 1% | Chico Anysio: 1% | Djavan: 1% | Renato Russo: 1% | Gusttavo Lima: 1% | Tom Jobim: 1% | Raul Seixas: 1% | Machado de Assis: 1% | Anitta: 1% | Lázaro Ramos: 1% | Zeca Pagodinho: 1% | Elis Regina: 1% | Milton Nascimento: 1%
Esportista ou atleta que dá mais orgulho
Ayrton Senna: 22%| Pelé: 21%| Não sabe responder: 15% | Nenhum: 10% | Neymar: 5% | Outros: 4% | Ronaldinho Gaúcho: 4% | Marta: 3% | Rebeca Andrade: 2% | Daiane dos Santos: 2% | Ronaldo Nazário (Fenômeno): 2% | Zico: 2% | Vinícius Júnior: 1% | Guga (Gustavo Kuerten): 1% | Raissa Leal: 1% | Romário: 1% | Garrincha: 1% | Gabriel Medina: 1% | Cafu: 1% | Anderson Silva: 1%
Veja o resultado completo da pesquisa na Plataforma Gente
Não à toa,grandes conglomerados de mídia tentam descentralizar,cada vez mais,a própria produção. Hoje,entre os mais de 200 projetos em desenvolvimento pela TV Globo,praticamente a metade é realizada junto ao mercado independente. O advento de novos modelos de negócio — como licenciamentos e coproduções,formas cada vez mais exploradas pelo mercado — busca espelhar a diversidade que compõe um país de proporções continentais.

O diretor Gabriel Martins no set do filme "Vicentina pede desculpas" — Foto: Divulgação / Netflix
Um dos projetos recém-renovados pela emissora já colocou no ar 13 telefilmes produzidos com afiliadas — todos foram exibidos em rede nacional,na faixa “Tela Quente”,nas noites de segunda-feira. A proposta visa justamente fortalecer indústrias regionais e estabelecer um olhar mais abrangente sobre o país ao pôr a lupa em aspectos locais.
— O Brasil possui uma infinidade de possibilidades narrativas. O que a gente observa,agora,é que a audiência quer ver essa textura cultural. Faz parte de uma visão estratégica buscar histórias hiperlocais — indica Gabriel Jacome,diretor de conteúdo da TV Globo,que participou de uma mesa sobre o assunto no Rio2C.


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Adriana (Letícia Colin) — Foto: Manoella Mello / TV Globo


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Arthur (Antônio Fagundes) — Foto: Manoella Mello / TV Globo
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Pedro (Chay Suede) — Foto: Manoella Mello / TV Globo

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Otoniel (Tony Ramos) — Foto: Manoella Mello / TV Globo
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Ulisses (Alexandre Borges) — Foto: Manoella Mello / TV Globo

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Ingrid (Agatha Moreira) — Foto: Manoella Mello / TV Globo
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Fábia (Flávia Alessandra) — Foto: Manoella Mello / TV Globo

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Ademir (Dan Stulbach) — Foto: Manoella Mello / TV Globo
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Rafael (João Vitor Silva) — Foto: Manoella Mello / TV Globo

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Elisa (Isabela Garcia) — Foto: Manoella Mello / TV Globo
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Bruna (Nanda Marques) — Foto: Manoella Mello / TV Globo

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Silvana (Belize Pombal) — Foto: Manoella Mello / TV Globo
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Brigitte (Tata Werneck),Ingrid (Agatha Moreira),Mau Mau (João Victor Gonçalves) e Pilar (Isabel Teixeira) — Foto: Manoella Mello / TV Globo

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Ademir (Dan Stulbach) e Eudora (Mariana Ximenes) — Foto: Manoella Mello / TV Globo
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André (Henrique Barreira) — Foto: Manoella Mello / TV Globo
Trama é assinada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto
Multinacional do streaming,a Netflix segue um caminho parecido. Para ampliar a diversidade no catálogo — tanto com novidades quanto com produções clássicas —,a empresa tem experimentado diferentes formas e acordos de trabalho. Produções com selo próprio,como “Cabras da peste” (2021),“Inexplicável” (2024) e o inédito “Vicentina pede desculpas”,ilustram esse esforço de ampliar a pluralidade de vozes,cenários e sotaques. O tópico foi detalhado em outra mesa do Rio2C.
— Nosso objetivo é ter sempre os filmes,as séries,as novelas e os documentários que o público quer ver... E nosso público é diverso. Então,precisamos de uma gama ampla de conteúdos — afirma Barbara Adams,head de licenciamento da Netflix Brasil.
Outro achado relevante da pesquisa “Cultura no espelho” ajuda a compreender o espaço crescente ocupado por narrativas de fé na indústria cultural. Entre todas as dimensões analisadas,a chamada “cultura religiosa” aparece como a mais vivenciada pelos brasileiros,superando inclusive a “cultura de mídia”,que envolve televisão,internet,redes sociais,rádio e cinema.

Cena de "Nosso lar 2: Os mensageiros" — Foto: Divulgação
Os dados encontram eco no setor audiovisual. Em outra mesa do Rio2C,realizadores destacaram a expansão dos conteúdos de espiritualidade no mercado nacional,algo impulsionado por tramas capazes de dialogar com públicos que vão além dos praticantes de uma religião específica.
Um marco temporal nesse segmento foi o filme “Nosso lar”(2010),baseado no livro homônimo de Chico Xavier. Somando a continuação da obra lançada em 2024,foram mais de cinco milhões de espectadores nos cinemas. Segundo o diretor do filme,Wagner de Assis,a audiência chegou a 40 milhões,contando todos os formatos,entre televisão e streaming.
— Semanalmente,recebo mensagem de algum lugar do mundo sobre o filme — celebra o realizador.


Para Ygor Siqueira,CEO da Heaven Content & 360 WayUp,produtora dedicada a filmes do gênero,os números reforçam a consolidação desse mercado. Não há mais ponto de retorno,é um filão que veio para ficar,como sublinha.
— Há 15 anos,a gente chegava para o exibidor,mas ninguém acreditava no projeto. Ao longo dos últimos dez anos,o mercado do cinema cristão se consolidou — analisa. — Hoje os exibidores já estão falando: “Me tragam projetos,por favor”.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro