
Com módicos 8 m²,o Bar do Trotta é uma portinha só,mas abriga a história de uma vida todinha ali — Foto: Divulgação
GERADO EM: 08/07/2026 - 20:59
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Como e bebo de quase tudo. E,desse quase tudo,como e bebo bastante por aí. Mas,quando me perguntam se tenho alguma restrição,respondo na lata: comida da sua avó. Não é uma grosseria gratuita,nem estou podendo comprar briga à toa. É que associar uma receita,um menu ou mesmo um lugar inteiro a antepassados carismáticos que quase ninguém conheceu virou desculpa para justificar ideias e conceitos frágeis. Uma jogada barata para conquistar corações moles,como o meu.
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Nem tudo,no entanto,é conversa fiada. No miolo do Maracanã,em uma encruzilhada etílica,existe um lugar que me arrepia toda vez que visito. Com módicos 8 metros quadrados,o Bar do Trotta é uma portinha só. Não tem cozinha,o banheiro é o do vizinho,e abriga a história de uma vida todinha ali: a do Adolfo Trotta,avô do Felipe,que criou o espaço em homenagem a ele. Um álbum vivo de lembranças aberto ao público.
Italiano radicado no Rio desde o primeiro ano de vida,Adolfo não teve muita opção a não ser virar carioca da gema. Era tricolor,portelense,frasista dos bons e tinha aquela cara meio enigmática,meio bonachona,que todo dono de botequim precisa ter para prosperar no negócio. Para completar,nasceu em fevereiro,durante as festas de Momo.
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Como eu sei disso? Ninguém me contou,está tudo lá. Nas paredes com fotografias e nos objetos que narram esses momentos ao longo dos anos,seja na vara de pescar que ele usava encostada na parede,no dominó de madeira que jogava com os netos ou nos cortadores e carretilhos de massa que compõem o menor salão da cidade,com apenas uma mesa.
O cardápio também é parte da biografia. É enxuto,não precisa de muito blá-blá-blá. São dez itens escritos à mão numa lata de linha de pesca,com tudo o que Adolfo gostava de comer e de fazer.
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Filho de pescador,ele fazia seu próprio aliche. Chegava do mar,limpava sardinha por sardinha,deixava no sal grosso em potinhos de sorvete espalhados pela casa por meses,depois temperava e fazia o maior sucesso em família.
Seria impossível repetir esse processo num bar. Foi aí que Felipe chegou à receita de alichela,antepasto com anchova em conserva,salsinha picada,bastante azeite,temperos e mais azeite,que faz jus às suas memórias. Com um chopinho bem tirado ao lado é mole fazer desaparecer uma bisnaga inteira em minutos,de pedacinho em pedacinho,como uma recordação boba que arranca um sorriso do rosto.
Vistoso,com uns seis quilos mais ou menos,o pernil é parte fixa da decoração. Coisa bonita de se ver. Suculento,douradinho,assado por oito horas,no tempo dele. Pode vir na porção para beliscar ou no sanduíche,com cebola e muito provolone.
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Aquela ingenuidade que protege os netos,levando-os a acreditar que os avôs são eternos,fez com que Felipe nunca perguntasse a receita original. A partir da intimidade que desenvolvi com Adolfo nas minhas idas ao bar,posso garantir que ele aprovaria o resultado e soltaria uma das suas frases clássicas: “assim você me comove”.
Mas é um petisco com quatro canoinhas de pão recheadas com pernil,provolone derretido e alichela que mais me pega ali. O “Naquela mesa” é inspirado na música de Sérgio Bittencourt,sucesso nas vozes de Elizeth Cardoso e de Nelson Gonçalves,o cantor preferido do meu avô. E naquela mesa tá faltando ele. Ele e o Adolfo.
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