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Álcool é uma das drogas mais perigosas, afirma especialista em vício

Jul 11, 2026 Filmes IDOPRESS

Estudos recentes reforçam que mesmo pequenas quantidades de álcool podem aumentar o risco de câncer e outros problemas de saúde — Foto: Reprodução/ Magnific

RESUMO

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GERADO EM: 09/07/2026 - 16:50

Álcool: Riscos à Saúde e a Ilusão do Consumo Seguro no Brasil

O álcool,amplamente aceito socialmente,é uma das drogas mais perigosas,contribuindo para milhões de mortes anuais e aumentando o risco de doenças como câncer e problemas hepáticos. A desconexão entre seu papel cultural e os danos à saúde é notável. Pesquisas recentes contestam o "consumo seguro",destacando riscos mesmo em doses moderadas. A OMS classifica o álcool como carcinógeno,mas a conscientização pública ainda é limitada.

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Poucas substâncias estão tão profundamente enraizadas no cotidiano quanto o álcool. Ele está presente em comemorações,confraternizações de trabalho,eventos esportivos,aeroportos e até nas refeições. Um brinde com as taças erguidas,o tradicional open bar em casamentos ou as bebidas compartilhadas em festas e feriados mostram o quanto o álcool se tornou parte dos costumes sociais e das tradições culturais.

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Mas o álcool contribui para milhões de mortes em todo o mundo todos os anos e está associado ao câncer,às doenças hepáticas,aos acidentes não intencionais,à violência e,principalmente,à dependência. Ainda assim,a desconexão entre seu papel cultural e o grave impacto que provoca na saúde pública é impressionante.

Embora os padrões de consumo variem significativamente entre os países,estima-se que 2,3 bilhões de pessoas consumam álcool em todo o mundo. Apesar dos riscos à saúde amplamente documentados,a bebida continua profundamente integrada à vida social.

Como médico que atua na área de medicina da dependência química,atendo regularmente pacientes cujo consumo de álcool afeta praticamente todos os sistemas do organismo. Muitas vezes,é somente quando acabam internados que eles percebem o impacto da bebida em diferentes partes do corpo,e não apenas no fígado.

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Não existe quantidade "segura"

As evidências mais recentes colocam em xeque a ideia do chamado "consumo seguro" de álcool. Mesmo o consumo moderado oferece riscos e não é tão inofensivo quanto muitas pessoas — inclusive especialistas — acreditavam.

Muitas pessoas associam os riscos do álcool apenas à dependência ou a problemas legais,como dirigir embriagado. No entanto,seus efeitos vão muito além disso e atingem praticamente todos os aspectos da saúde e do bem-estar.

Embora o álcool possa melhorar temporariamente o humor e aliviar a ansiedade social,seu consumo prolongado pode piorar o humor,comprometer a cognição e causar distúrbios do sono,o que,por sua vez,pode agravar ainda mais o padrão de consumo.

Uma revisão da literatura publicada em 2021 constatou que consumir cerca de duas doses-padrão praticamente dobra o risco de lesões em acidentes de trânsito e em outros tipos de acidentes. O estudo também mostrou que episódios de consumo excessivo de álcool (binge drinking) podem aumentar esse risco de 20 a 50 vezes,dependendo da quantidade ingerida e do tipo de lesão. Embora os efeitos do álcool sobre o fígado sejam amplamente conhecidos,a bebida também pode causar problemas gastrointestinais e doenças cardiovasculares.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 2,6 milhões de mortes por ano sejam atribuídas ao consumo de álcool,o equivalente a quase uma em cada 20 mortes registradas no mundo.

Mensagens contraditórias sobre a relação entre álcool e câncer

Embora muitas pessoas reconheçam os riscos da dependência do álcool,elas ainda sabem pouco sobre a relação entre o consumo da bebida e o aumento do risco de câncer.

A Organização Mundial da Saúde classifica o álcool como um carcinógeno do Grupo 1 — a mesma categoria do tabaco e do amianto. Em outras palavras,trata-se de substâncias para as quais há evidências suficientes de que causam câncer em seres humanos.

Em 2025,um comunicado do cirurgião-geral dos Estados Unidos destacou que o álcool aumenta o risco de pelo menos sete tipos de câncer e defendeu a atualização dos rótulos de advertência das bebidas alcoólicas. Segundo o documento,o consumo de álcool eleva o risco de desenvolver câncer de mama,colorretal,de fígado,de boca,de esôfago e de laringe,entre outros.

Mesmo assim,menos da metade dos norte-americanos reconhece o álcool como um fator de risco para o câncer,especialmente para tipos como o câncer de mama,que normalmente não são associados ao consumo de bebidas alcoólicas.

A relação entre álcool e câncer é complexa. Ao longo da década de 1990 e no início dos anos 2000,estudos observacionais sugeriram que o consumo moderado de álcool poderia trazer benefícios para a saúde cardiovascular.

Na última década,porém,pesquisas de maior qualidade passaram a questionar essas conclusões,indicando que grande parte desse aparente benefício pode estar relacionada às melhores condições de saúde e aos hábitos de vida de quem bebe moderadamente — e não a um efeito protetor do álcool em si.

De acordo com as Diretrizes Alimentares para os Americanos,as evidências atuais apontam cada vez mais que mesmo baixos níveis de consumo de álcool podem aumentar o risco de câncer.

As diretrizes afirmam que os adultos devem "consumir menos álcool para melhorar a saúde de forma geral". No entanto,a versão mais recente,referente ao período de 2025 a 2030 e atualizada em janeiro de 2026,retirou a recomendação anterior de limitar o consumo a,no máximo,uma dose-padrão por dia para mulheres e duas para homens. O documento também deixou de abordar de forma explícita a relação entre álcool e câncer.

As mudanças geraram críticas de especialistas em saúde pública,que argumentam que a nova redação minimiza as evidências cada vez mais robustas sobre os danos relacionados ao álcool e oferece orientações menos claras aos consumidores. Nesse contexto,o Dr. Mehmet Oz,administrador dos Centros de Serviços do Medicare e do Medicaid,caracterizou o álcool como um "lubrificante social",destacando seu papel em aproximar as pessoas,em vez de enfatizar os riscos à saúde amplamente comprovados.

Isso pode até fazer sentido do ponto de vista fisiológico,pelo menos temporariamente,mas deixa em segundo plano o fato de que recorrer ao álcool como um "lubrificante social" pode levar à dependência física e psicológica. Na minha opinião,declarações como essa são limitadas,pois priorizam efeitos sociais de curto prazo e ignoram problemas mais sutis e duradouros,como a dependência.

Uma mudança cultural profunda

Embora muitas substâncias psicoativas de alto risco permaneçam à margem da sociedade,o álcool ocupa um lugar de destaque na vida social — e não há sinais de que isso vá mudar tão cedo.

Além disso,a indústria continua investindo em publicidade que atrai especialmente o público jovem.

Olhar para a história do tabagismo oferece algumas lições importantes. Em 1965,42,4% da população dos Estados Unidos fumava. Em 2022,esse percentual havia caído para 11,6%.

Essa redução expressiva não foi resultado de uma única medida,mas de décadas de acúmulo de evidências científicas,campanhas de conscientização,rótulos de advertência,restrições à publicidade,políticas de controle do tabagismo,aumento dos impostos sobre o cigarro e mudanças nas normas sociais. Em conjunto,essas ações transformaram o tabagismo de um comportamento amplamente aceito em um hábito reconhecido como um importante fator de risco à saúde e,consequentemente,menos aceito socialmente.

Embora o consumo de álcool tenha diminuído modestamente nos últimos anos,ele continua muito mais enraizado na vida social do que o tabagismo atualmente.

Muitas pessoas presumem que,se uma substância é legal,comum,amplamente aceita e até incentivada socialmente,ela também deve ser segura. No entanto,a história da saúde pública mostra que essas percepções podem — e devem — mudar.

* Emma Fenske é médica de Clínica Médica e pesquisadora em Medicina das Dependências da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon (Oregon Health & Science University).

* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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