
O presidente dos Estados Unidos,Donald Trump,na Casa Branca — Foto: Alex Brandon/AFP
GERADO EM: 13/04/2026 - 05:42
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O papa Leão XIV é um dos mais influentes críticos globais da guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Nos últimos dias,ele condenou a idolatria de pessoas e do dinheiro,os perigos da arrogância e a “violência absurda e desumana” desencadeada pelo conflito,que aprofundou a instabilidade no Oriente Médio.
Suas repetidas advertências ao longo da última semana parecem ter chegado ao presidente Donald Trump,que respondeu aos apelos por paz com críticas duras ao primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos em uma postagem nas redes sociais,além de reivindicar para si o mérito pela ascensão de Leão ao papado.
— Leão deveria ser grato porque,como todos sabem,ele foi uma surpresa chocante — escreveu Trump em uma longa publicação na noite de domingo. — Ele não estava em nenhuma lista para ser papa e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano,e acharam que essa seria a melhor forma de lidar com o presidente Donald J. Trump. Se eu não estivesse na Casa Branca,Leão não estaria no Vaticano.
Ao fazer a publicação,o presidente vinha de um fim de semana em que assistiu a uma luta de MMA em Miami e passou tempo com apoiadores em seu clube de golfe,após o fracasso das negociações com o Irã. Ele criticou Leão como “fraco contra o crime” — insulto que costuma direcionar a prefeitos democratas — e “péssimo para a política externa”. Disse ainda preferir o irmão do papa,Louis,por seu apoio ao movimento MAGA — “Ele entende!”,escreveu Trump. O presidente também acusou o pontífice de “agradar a esquerda radical” e aconselhou que ele se concentrasse em “ser um grande papa,não um político”.
A postagem hostil indicou que praticamente não há limites para os alvos de Trump — nem mesmo o líder dos 1,4 bilhão de católicos no mundo. Pouco depois de publicar a mensagem,ao desembarcar do Air Force One,Trump afirmou a jornalistas que não considera que o papa esteja fazendo um bom trabalho e sugeriu que Leão “gosta de crime,eu acho”. Também o acusou de apoiar armas nucleares e o classificou como “uma pessoa muito liberal”.
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A reação enfurecida de Trump ao tom moderado de Leão,nascido Robert Francis Prevost,em Chicago,evidenciou estilos opostos de lidar com conflitos. Enquanto um pede resolução,o outro eleva imediatamente a tensão.
Em seu primeiro ano como pontífice,Leão evitou críticas diretas ao presidente e recusou discretamente um convite inicial para visitar Washington. Em janeiro,porém,manifestou preocupação com a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo Trump.
As críticas do papa à guerra com o Irã tornaram-se mais incisivas à medida que o conflito avançou e autoridades americanas passaram a invocar argumentos teológicos para justificar a ofensiva ordenada por Trump sem autorização do Congresso,apoio popular ou adesão de aliados.
Em março,o secretário de Defesa Pete Hegseth convocou os americanos a rezarem pela vitória na guerra e pela segurança das tropas “em nome de Jesus Cristo”. Pouco depois,o papa advertiu contra o uso do nome de Jesus para justificar batalhas,afirmando que Ele “não escuta as orações de quem faz guerra,mas as rejeita”.
Durante uma homilia antes da Páscoa,na semana passada,Leão afirmou que a missão cristã havia sido “distorcida por um desejo de dominação,totalmente estranho ao caminho de Jesus Cristo”.
No domingo de Páscoa,renovou o apelo pela paz:
— Neste dia de celebração,abandonemos todo desejo de conflito,dominação e poder,e peçamos ao Senhor que conceda sua paz a um mundo devastado por guerras — disse,diante de dezenas de milhares de fiéis na Praça de São Pedro.
Na semana passada,também circularam relatos de que um integrante do governo Trump teria se reunido com o cardeal Christophe Pierre,ex-embaixador do Vaticano nos EUA,para reclamar das críticas do papa. Tanto o governo quanto o Vaticano negaram o encontro.
Na terça-feira,a ameaça de Trump de destruir a civilização iraniana caso Teerã não aceitasse abrir o Estreito de Ormuz levou a uma rara resposta direta do papa,que classificou a declaração como “verdadeiramente inaceitável” e contrária ao direito internacional.
— É um sinal do ódio,da divisão e da destruição de que os seres humanos são capazes — afirmou. — Todos queremos trabalhar pela paz.
No domingo à noite,Trump voltou a atacar o pontífice após cardeais americanos participarem do programa “60 Minutes” para explicar por que apoiavam as críticas do papa aos conflitos internos e externos associados ao governo.
— É um regime abominável e deve ser removido — disse o cardeal Robert McElroy,referindo-se ao governo iraniano. — Mas esta é uma guerra de escolha,e estamos diante da possibilidade de guerra após guerra.
Após os ataques,líderes católicos saíram em defesa do pontífice. O arcebispo Paul S. Coakley afirmou em nota:
“Lamento que o presidente tenha escolhido escrever palavras tão depreciativas sobre o Santo Padre. O papa Leão não é seu rival,nem um político. Ele é o Vigário de Cristo.”
O padre jesuíta James Martin também criticou Trump nas redes sociais:
“Duvido que o papa perca o sono com isso. Mas nós deveríamos. Isso é descontrolado,sem caridade e não cristão.”
Em maio passado,após a eleição de Leão,seu irmão John Prevost afirmou que o pontífice não permaneceria em silêncio diante de discordâncias com Trump:
— Sei que ele não está satisfeito com o que acontece na imigração. Até onde vai levar isso é incerto,mas ele não ficará calado.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro