
A Neoenergia viabiliza a circulação do primeiro ônibus de transporte público do Brasil movido a H2V,em Brasília — Foto: Divulgação/Neoenergia
GERADO EM: 16/04/2026 - 01:33
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A combinação entre matriz elétrica com alta participação de fontes renováveis,boa infraestrutura de exportação e avanços regulatórios criam no Brasil um cenário ideal para o hidrogênio de baixo carbono e seus derivados — mas não para agora. Os projetos em larga escala de produção do chamado hidrogênio verde (H2V),obtido a partir de fontes renováveis,só devem começar a operar entre 2029 e 2030. Até janeiro de 2026,os projetos no Brasil com FID (decisão final de investimento,na sigla em inglês) para este ano somavam R$ 53 bilhões em investimentos. Para o período de 2027 a 2029,estão previstos mais R$ 55 bilhões,segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde (ABIHV).
Nos últimos três anos,uma euforia invadiu o mercado,com hubs de pesquisa e produção nos principais complexos portuários do país e memorandos de entendimento para viabilizar empreendimentos. Nem todos as iniciativas,porém,alcançaram a etapa de FID.
— Os projetos tiveram de esperar marco legal,agência reguladora,decisão dos investidores,infraestrutura de energia — enumera Fernanda Delgado,diretora-executiva da ABIHV.
Hoje,o mercado global de hidrogênio é estimado em 100 milhões de toneladas/ano,das quais 1% é obtido por meio de processos de baixo carbono. O Brasil produz 550 mil toneladas/ano,sendo 0,3% “verde”. O horizonte para a expansão do H2V é mais amplo,visto que ele pode ser utilizado como insumo para descarbonização de setores intensivos em emissões (como aço,cimento,refino e petroquímica),na fabricação de fertilizantes e como combustível de veículos.

Projeto-piloto usa H2V na combustão da caldeira de geração de vapor de usina no Porto de Pecém,no Ceará — Foto: Divulgação
Estima-se que,se ao menos três projetos de grande porte se concretizarem,o Brasil terá triplicado a produção em 2030. No entanto,só entre 6% e 7% dos projetos anunciados globalmente chegam à FID atualmente,e apenas 2% entram de fato em construção.
— Muitos projetos ainda precisam avançar nos estudos de viabilidade técnica e econômica. Então,o patamar de produção que pode ser alcançado pelo Brasil até 2030 ainda é incerto — pondera Paulo Emílio de Miranda,presidente da Associação Brasileira do Hidrogênio (ABH2) e chefe do Laboratório de Hidrogênio da Coppe/UFRJ.
O H2V é produzido a partir da eletrólise da água,um processo que usa eletricidade para separar a molécula (H₂O) em hidrogênio e oxigênio. Quando essa energia vem de fontes renováveis,como solar ou eólica,a produção se torna praticamente livre de emissões de carbono,o que rendeu o apelido de “combustível do futuro”.
A consolidação do H2V,contudo,depende ainda da estabilidade geopolítica. O cenário de curto prazo — sobretudo a guerra no Irã,que escancarou a necessidade de diversificar fontes de energia — deslocou o senso de urgência dos projetos,avalia Ricardo Assumpção,líder de sustentabilidade da consultoria EY.
— Os investidores devem se voltar aos biocombustíveis,incluindo etanol,biodiesel e SAF (combustível sustentável de aviação). O hidrogênio seria uma solução estruturada para descarbonização,mas a longo prazo — opina Assumpção,acrescentando que o investimento elevado para infraestruturas de eletricidade e geração de energia renovável e a escassez de contratos de compras mínimas são outros motivos para que o H2V seja uma aposta para os próximos anos.
Hoje,projetos de pequeno e médio portes recebem menos investimentos,mas são importantes para o desenvolvimento do mercado. A White Martins foi pioneira na América do Sul a iniciar a produção de hidrogênio verde em escala industrial no complexo industrial portuário de Suape (PE),em 2022. A unidade produz 156 toneladas de H2V e utiliza energia solar para realizar a eletrólise de água,e a produção é destinada a atender o mercado pernambucano.

Hidrogênio verde produzido a partir de energia solar e água — Foto: Divulgação/UFMG
A empresa passou a operar um segundo espaço de produção no ano passado,em Jacareí (SP),destinado a abastecer o Sudeste. Somadas,as duas instalações terão capacidade produtiva de 1.000 toneladas/ano.
— Nosso objetivo primordial é viabilizar a descarbonização de setores industriais críticos. Em Jacareí,80% da produção serão destinados ao mercado,para atender indústrias de siderurgia,metal mecânico,alimentos e químico — elenca Gilney Bastos,CEO da White Martins,que cita ainda planos de exportação. — O hidrogênio verde nacional pode ser decisivo para países que possuem metas climáticas ambiciosas,mas não contam com matriz energética tão privilegiada quanto a nossa.
A Neoenergia,que inaugurou uma usina em Taguatinga (DF) em 2025 para produção de H2V a partir de eletrólise da água com energia fotovoltaica,testa inicialmente o gás como combustível para veículos. A unidade viabiliza a circulação do primeiro ônibus do transporte público do Brasil movido a H2V,em Brasília,em parceria com a TEVX. A companhia também firmou parceria com a Honda para testes com o CR-V e:FCEV,veículo elétrico híbrido com célula de combustível de hidrogênio.
— Os testes pretendem validar o desempenho do abastecimento,a operação dos veículos a célula de combustível e as condições necessárias para futura expansão da tecnologia — diz Tatsumi Igarashi,chefe de hidrogênio verde da empresa.
A mineração é outro setor que acena ao hidrogênio de baixo carbono. A Brazil Iron,que prevê investir US$ 5,7 bilhões em um projeto de produção de ferro verde na Bahia,planeja incorporar o H2V como agente redutor em seu processo industrial para alcançar emissões líquidas zero.
*Especial para O GLOBO
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