
Adeptas de novos estilos de vida rompem antigos paradigmas sobre o envelhecimento — Foto: Shutterstock
GERADO EM: 16/04/2026 - 15:18
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Aos 69 anos,a vida da piauiense Ana Gomes não tem nada de trivial. Nascida em uma família simples,ela contrariou o destino das mulheres ao seu redor: atividades manuais,como bordado e costura,cuidados com a casa e o marido. Formada em Educação Física,aposentou-se cedo,aos 50,e não aceitou o fim da vida profissional. Na mesma época,iniciou uma nova graduação,no curso de Direito,trabalhou na área até 2021 e,desde então,desafia-se constantemente. “Sempre fui competitiva. Estou em um grupo de jogos de tabuleiro e estudo muito para participar dos encontros. Também faço maratonas de corridas e,hoje,minha principal atividade é ser trilheira. Subo um morro correndo,pulo de um penhasco até o riacho. Quanto mais difícil,melhor”,diz ela. O maior problema,Ana faz graça,é coordenar a idade física e a mental. “Dizem que as coisas que gosto não são para idosos. Às vezes,minha filha me chama a atenção,mas sou capaz de fazer tudo o que quiser. Danço forró,toco violão. Construí a velhice que queria.”
O fôlego de Ana faz parte de uma geração de mulheres que vem redefinindo o conceito de maturidade e rejeitando imposições sociais,principalmente após a menopausa,período de muitas incertezas e inseguranças. Recentemente,isso ganhou um nome nas redes sociais: Nolt (New Order Living Trend). Discutir o assunto é importante porque,segundo o IBGE,até 2040,teremos mais idosos do que crianças e adolescentes até os 14 anos no Brasil. “As mulheres percebem que ainda há muita lenha para queimar,entendem que podem envelhecer com atitude e autonomia. O Nolt é a maneira diferente de viver a maturidade. São pessoas que ressignificam carreiras,começam novos relacionamentos,quebram tabus”,acredita Adri Rocha,da plataforma de conteúdo She Talks,direcionada a mulheres 40+.
Entusiasta do Nolt,a empresária Marilene Ramos,de 61,encarou uma mudança de carreira após 40 anos trabalhando na moda. Mais do que isso,descobriu a corrida de rua e,no ano passado,competiu em sua primeira São Silvestre. “Quando esse conceito Nolt surgiu,algumas pessoas vieram dizer que tinha a ver comigo. Mudei de carreira e de estilo de vida. Hoje,acordo 5h30 para treinar. Também me divorciei de um marido gato e mais novo,porque não estava mais a fim de ficar casada”,brinca. Já a terapeuta Débora de Luca,de 53,transformou os apuros da menopausa em um novo momento de vida: “Saí do marketing e fui para a psicologia. O climatério,infelizmente,foi cruel. Estudando mais sobre o assunto,assistindo a palestras,conversando com mulheres,criei o Instagram @menopausa_oquenaotecontaram,e hoje me dedico a falar disso”.
Para a psicóloga Rejane Sbrissa,mudar a rota da vida aos 50,60 ou 70 não é um “ato de coragem isolado”. “É um processo de reposicionamento interno diante de um mundo que ainda não se atualizou. E isso significa,em alguma medida,ir contra um sistema etarista,de forma consciente e estratégica”.
Continuar Lendo
Embora haja benesses,a professora de Comunicação e Consumo da ESPM,Gisela Castro,alerta para um recorte de classe necessário ao colocar o Nolt no centro do debate. “O envelhecimento,num contexto desigual como o do Brasil,deixa de ser uma questão pública,e passa a ser uma questão individual,de performance”,pontua ela. A própria ideia de envelhecimento cheia de transformações,como as histórias que você leu nesta matéria,não são uma opção para todos. “Essa trend foi lançada com o objetivo de promover um certo tipo de envelhecer que é uma negação do envelhecimento”,pontua ela. “Poder envelhecer com proatividade,desenvolvendo novas habilidades e novos conhecimentos é muito bacana. Mas quando vira uma obrigação,torna-se perverso”,finaliza Gisela.
Outra vantagem da idade: sabedoria.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro