pesquisa rápida
Hoje:

Com data center no Ceará, China inaugura nova fase de investimentos no Brasil

Jul 3, 2026 Música IDOPRESS

Obras do data center no Ceará: estado aposta em fomentar start-ups e ecossistema de tecnologia. Posição estratégica como hub de cabos submarinos ajuda a atrair investimentos — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg

RESUMO

Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você

GERADO EM: 01/07/2026 - 12:59

China Investe em Data Center de US$ 39 Bi no Ceará,Brasil

A China inaugura um novo ciclo de investimentos no Brasil com a construção de um data center da ByteDance no Ceará,o maior fora do país asiático. O projeto,avaliado em US$ 39 bilhões,aproveita a energia renovável abundante no Brasil. Este investimento reforça os laços comerciais entre Brasil e China,enquanto comunidades indígenas locais protestam contra o impacto social e ambiental da construção.

O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO

Avistadas da rodovia,parcialmente escondidas por palmeiras-leque e outras formas de vegetação,as fileiras simétricas de colunas de cerca de 5,5 metros evocam os grandiosos edifícios do Império Romano. De perto,porém,percebe-se que não se trata de uma ruína antiga,mas de um monumento em ascensão às ambições geopolíticas de uma superpotência contemporânea: a China.

Distrito de IA e inovação: Goiás vai investir R$ 300 milhões para erguer polo de IA aplicada no paísCapital: Governo da China compra pedaço de data center do TikTok de até R$ 200 bi no Brasil

Neste remoto canto do estado do Ceará,centenas de trabalhadores estão construindo um data center para a ByteDance,proprietária do TikTok. A instalação será o maior complexo de centros de dados da empresa fora da China,em um projeto cujo custo total estimado é de R$ 200 bilhões (US$ 39 bilhões).

O gerente da obra,Wellysson Costa,mal consegue conter o entusiasmo.

— Aqui era tudo mato e vegetação rasteira — diz ele,caminhando entre guindastes,betoneiras e blocos quadrados de fundação de concreto do tamanho de banheiras de hidromassagem.

Continuar Lendo

Mais Sobre TikTok

Datafolha: medo de perder o emprego para IA cai,mas ainda atinge 48% dos brasileiros,mostra pesquisa

Austrália anuncia que vai dobrar multas para redes sociais que permitirem acesso a menores de 16 anos

Costa trabalha para a Omnia,empresa brasileira especializada na construção de data centers. No ano passado,a companhia apresentou aos executivos da ByteDance a proposta de instalar o empreendimento em uma zona de livre comércio no Ceará,evitando assim as elevadas tarifas que o Brasil cobra sobre a importação de equipamentos de informática.

A nuvem tem som: Insônia e dor de cabeça são o custo implacável e invisível dos data centers de IA

Em menos de seis meses,as equipes de construção transformaram uma área de vegetação na estrutura de aço e concreto do complexo. Em breve,as colunas serão fechadas por paredes,e a cobertura do primeiro dos 20 salões de dados já está sendo instalada. Esses espaços serão futuramente preenchidos com servidores e equipamentos de rede.

Fileiras de colunas evocam os grandiosos edifícios do Império Romano,mas,na verdade,a instalação será o maior complexo de centros de dados da ByteDance fora da China — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg

O complexo terá capacidade computacional inicial de 200 megawatts,com expansão prevista para 1 gigawatt. A expectativa é que o primeiro salão entre em operação no fim de 2027.

Computação para IA: ‘Brasil está construindo estratégia ambiciosa’,diz gerente-geral do chileno Cenia

O Brasil é uma plataforma natural para as empresas chinesas de inteligência artificial que buscam ampliar sua presença global e superar suas concorrentes americanas. A maior economia da América Latina dispõe de abundante energia renovável: hidrelétricas,usinas solares e parques eólicos respondem por quase 90% de toda a geração de eletricidade do país.

Além disso,o Brasil é um centro estratégico de telecomunicações no Hemisfério Sul,graças aos diversos cabos submarinos que o conectam à América do Norte,à Europa e à África.

O país já abriga mais de 100 centros de dados,segundo a BloombergNEF,embora esse número represente apenas uma fração do total existente nos Estados Unidos,líder mundial no setor,com quase 1.700 instalações.

— O Brasil reúne todos os atributos para se tornar um polo de centros de dados — afirma Rodrigo Borges,representante no Brasil da Aurora Energy Research,empresa britânica de consultoria.

Nos EUA:Boom dos data centers ameaça provocar divisão do maior operador de rede elétrica

A Aurora projeta que a capacidade instalada de centros de dados no Brasil mais do que quadruplicará,ultrapassando quatro gigawatts no início da década de 2030.

Outras gigantes chinesas de tecnologia estão seguindo o exemplo da ByteDance. Segundo pessoas familiarizadas com os planos — que pediram para não ser identificadas —,a Alibaba pretende alugar espaço em um complexo de centros de dados cuja construção está prevista para São Paulo,destinado ao processamento de cargas de trabalho de inteligência artificial.

Em Fortaleza,prédio cinza à direita é um hub de cabos submarinos que conectam Brasil à América do Norte,à Europa e à África — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg

A Ascenty,empresa brasileira que possui 40 centros de dados em operação ou em construção na América Latina,está investindo US$ 1,2 bilhão nessas instalações. A Alibaba não respondeu aos pedidos de comentário.

A Elea Data Centers e a Scala Data Centers,ambas apoiadas por investidores americanos,também estão planejando projetos de grande porte no Brasil e disputando contratos tanto com hiper escaladoras chinesas quanto americanas — termo usado pela indústria para designar as gigantes da tecnologia que controlam a capacidade computacional necessária para alimentar desde grandes modelos de linguagem até serviços de streaming de vídeo.

Com avanço da IA: Rio atrai novos projetos de data centers; veja onde e como serão

As empresas chinesas,naturalmente,estão investindo ainda mais em seu próprio país. Órgãos do governo elaboraram um plano para gastar 2 trilhões de yuans (US$ 295 bilhões) na criação de uma rede de polos de computação interligados em todo o território chinês.

Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva,o centro de dados da ByteDance no Ceará é apenas o mais recente resultado de seu esforço,desenvolvido ao longo de décadas,para estreitar os laços entre Brasília e Pequim.

A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil,tendo importado quase US$ 100 bilhões em petróleo bruto,minério de ferro,açúcar,soja e carne bovina no ano passado. Além disso,em 2025,o Brasil foi o principal destino dos investimentos chineses no exterior,segundo o American Enterprise Institute,centro de estudos sediado em Washington.

Concorrência: China planeja investir US$ 296 bi para financiar data centers de IA e desafiar os EUA

O projeto da ByteDance diversificará os investimentos chineses no Brasil,que até agora se concentravam em hidrelétricas,linhas de transmissão de energia e portos construídos ou adquiridos por empresas chinesas. Ao mesmo tempo,representa um desafio direto ao objetivo do presidente Donald Trump de restabelecer a predominância dos Estados Unidos nas Américas.

Atualmente,cerca de dois terços dos dados do Brasil são processados no exterior,o que fez da expansão da infraestrutura nacional de centros de dados uma prioridade estratégica para o governo Lula.

— Essa é nossa principal vulnerabilidade nacional: a soberania digital — afirma Luis Fernandes,secretário-executivo do Ministério da Ciência,Tecnologia e Inovação.

Segundo a ByteDance,seu novo centro de dados não reduzirá essa dependência,pois atenderá usuários localizados fora dos Estados Unidos e da Europa.

Mesmo com todas as suas vantagens e com o apoio declarado do governo,o Brasil tem perdido oportunidades no setor de centros de dados. Um programa de incentivos destinado a reduzir os impostos de importação sobre servidores e outros equipamentos está parado no Congresso,enquanto um leilão para a contratação de sistemas de armazenamento por baterias — essenciais para dar suporte à geração intermitente de energia eólica e solar — foi adiado para dezembro.

Conheça: A cidade de luxo erguida pelo boom da inteligência artificial em Taiwan

Embora o Brasil conte com mais de 140 milhões de usuários de redes sociais,Alphabet,Meta,Microsoft e outras empresas americanas ainda não se apressaram em construir centros de dados no país. Um dos fatores que inibem esses investimentos é o risco de ficarem no meio de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e o Brasil.

Viaduto em construção próximo ao data center da ByteDance — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg

No ano passado,Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre as importações brasileiras em resposta ao processo judicial movido contra seu aliado,o ex-presidente Jair Bolsonaro. Uma decisão da Suprema Corte,em fevereiro,derrubou essas tarifas,mas a Casa Branca indicou que novas medidas poderão ser adotadas. E,embora Trump e Lula tenham se encontrado e estabelecido uma relação de trabalho,ainda persistem sinais de tensão.

— Os chineses estão dispostos a assumir certos riscos — afirma Eduardo Menossi,fundador do Grupo EBM,empresa de engenharia de centros de dados sediada em São Paulo.

Ele trabalhou durante anos exclusivamente com empresas americanas,mas hoje também tem companhias chinesas entre seus clientes:

— O americano é mais conservador.

Menossi acredita,que a guerra no Irã — durante a qual centros de dados operados pela Amazon no Oriente Médio sofreram danos provocados por ataques de drones — pode ter tornado o Brasil mais atraente para as gigantes americanas de tecnologia. Afinal,o país está distante das atuais zonas de conflito do mundo.

— Então,qual seria o plano B para uma empresa americana? — questiona. — O Brasil passa a ser uma região estratégica.

Nos Estados Unidos,os centros de dados elevaram as contas de energia,pressionaram o abastecimento de água e se transformaram em um tema politicamente delicado às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato. No Brasil,até agora praticamente não houve reação contrária.

Cerca de 90% do tráfego internacional de internet do país passa por 16 cabos submarinos enterrados sob a Praia do Futuro,nos arredores de Fortaleza,capital do Ceará. Em uma tarde de sexta-feira de maio,nenhum dos turistas ou garçons dos bares à beira-mar parece ter consciência da superestrada digital que passa sob seus chinelos.

A importância da região como um nó estratégico de comunicações torna-se mais evidente algumas quadras afastadas da praia,onde se concentra um conjunto de centros de dados de primeira geração.

Trabalhadores da Ninna Hub,incubadora de empresas de tecnologia instalada em um edifício moderno no centro de Fortaleza — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg

Essa infraestrutura digital é a razão pela qual Fortaleza atraiu centenas de startups. Caetano Lima,analista sênior da Ninna Hub,incubadora de empresas de tecnologia instalada em um edifício moderno no centro da cidade,espera ter acesso a centros de dados mais avançados.

— Do ponto de vista de uma startup,é uma excelente oportunidade para testar softwares e novas tecnologias — afirma.

Protestos de comunidades indígenas

Nem todas as comunidades,veem com entusiasmo a perspectiva de viver perto de um centro de dados. Quando Lula esteve no Ceará,em dezembro passado,para anunciar o investimento da ByteDance,integrantes do povo indígena Anacé bloquearam estradas em protesto contra o projeto. Desde então,eles têm realizado manifestações esporádicas em frente ao canteiro de obras.

Para os Anacé,trata-se do episódio mais recente de uma longa história de abusos praticados por governos e investidores ao longo de décadas. No início dos anos 1990,autoridades estaduais começaram a remover famílias de suas terras ancestrais para abrir espaço à construção de um porto de águas profundas e de um parque industrial adjacente — hoje conhecido como Complexo Industrial e Portuário do Pecém.

Posteriormente,na década de 2010,a estatal brasileira de petróleo passou a planejar a construção de uma grande refinaria dentro da zona de livre comércio do porto,o que provocou o deslocamento de outras famílias Anacé.

Andréa Coelho,líder indígena da etnia Anacé,não apoia o projeto da ByteDance — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg

O projeto da refinaria acabou sendo abandonado,deixando a área disponível para a ByteDance. Para muitos integrantes do povo Anacé,é doloroso ver surgir um centro de dados que consumirá tanta eletricidade quanto uma cidade de porte médio,enquanto eles próprios convivem com frequentes interrupções no fornecimento de energia em sua terra indígena.

— Sinceramente,não vejo nada de positivo para a nossa comunidade. Eu não apoio esse projeto — afirma Andrea Coelho,uma das lideranças Anacé.

A Omnia,responsável pela construção do empreendimento,informa que está capacitando centenas de moradores da comunidade local para trabalhar na obra como eletricistas e montadores de tubulações.

Fábio Feijó,secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará,afirma que o projeto da ByteDance é apenas o começo.

— Quando o primeiro salão de dados estiver pronto,ele atrairá outros — diz,em seu amplo gabinete no governo estadual,em Fortaleza.

Segundo Feijó,sua secretaria já manteve conversas com cerca de seis das chamadas hiper escaladoras (hyperscalers),nome dado às gigantes da tecnologia que operam infraestrutura de computação em larga escala:

— O mundo inteiro está de olho.

Pesquisa rápida

Reportagem diária do entretenimento brasileiro:Receba todas as últimas notícias e atualizações de entretenimento - sua melhor fonte de todas as coisas da cultura pop! De resenhas de filmes a notícias musicais, nós ajudamos você. Mantenha-se informado e nunca perca as últimas novidades do mundo do entretenimento. Por favor, siga-nos a qualquer momento!

© Reportagem diária do entretenimento brasileiro