
Painel de LED na entrada do estacionamento do Parque dos Patins com informações sobre o Rio Rotativo Digital — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Domingo fui ver “A odisseia” no Shopping Leblon. Três horas de filme. Sessenta e seis reais de estacionamento. Sábado à noite,um cineminha no Shopping da Gávea: quarenta e sete reais para parar o carro. O leitor já deve estar completando esta lista com seus próprios exemplos. Foi neste fim de semana que me caiu a ficha: é um absurdo.
A primeira reação foi me culpar: quem mandou trair o cinema de rua? Deveria ter ido de táxi,seria bem mais barato.
Mas peraí: a responsabilidade é minha se os shoppings me tratam como trouxa? Tem algum motivo razoável para ser depenado no estacionamento? O nome do lugar já diz: shopping center. É um espaço para se fazer compras,gastar dinheiro. Ninguém vai lá para ler um livro,dar milho aos pombos ou admirar o pôr do sol. Também não tem crianças brincando nos balanços ou famílias fazendo piqueniques.
Me avisem,leitores,se eu estiver errado: o estacionamento não deveria ser barato,já que as pessoas estão consumindo nas lojas e restaurantes? Ou essa é uma ideia louca e subversiva,de um cronista sem nenhuma noção de economia?
Pode até ser,mas volta e meia este mesmo cronista lê notícias de que o comércio on-line está tirando clientes dos shoppings. Tem cada vez mais gente que prefere comprar no computador e receber seus produtos em casa. E aí,como é que fica? Não seria uma boa ideia os shoppings deixarem os preços do estacionamento menos assustadores? Ou será que eles já estão pensando em cobrar pelo uso dos banheiros ou instalar pedágios nas escadas rolantes?
Aliás,já que estamos no comércio on-line,esta semana tive outro episódio na mesma linha: entrei na farmácia para comprar um remédio. Um que custa cem reais no site da própria farmácia. Ao vivo,custava cento e cinquenta. Mostrei o preço do site para a atendente. Ela não se abalou: “O senhor tem que comprar on-line e pedir para retirar aqui”. Foi o que fiz. Comprei no celular,dei uma volta no quarteirão e apareci de novo na farmácia para retirar o remédio,agora cinquenta reais mais barato. Faz sentido? Acho que farmácias e shoppings deveriam ter umas aulas sobre comércio on-line.
Muitos devem estar pensando: ah,mas se o estacionamento do shopping for barato,como quer o cronista,as pessoas que trabalham por perto vão deixar o carro lá o dia todo,sem gastar um centavo. Pois basta usar aquele antigo sistema em que a loja carimba o comprovante de estacionamento,como faziam os gregos e os troianos. Fácil,não?
Os donos dos shoppings,indignados,dirão: “Mas este cronista,além de subversivo,é um miserável! Quarenta e sete reais não são nada para nossos clientes! Aqui é lugar para gente diferenciada,premium,que não liga para dinheiro.”
Aí é que está o engano.
O problema não é só o valor exorbitante. O problema é fazer o cliente se sentir otário. “Dinheiro não admite desaforo”,como dizem os farialimers. Vê se os Elons Musk da vida andam por aí pagando cem pelo que vale dez. Nunca,né?
Se a ideia dos shoppings é trazer de volta o público que anda comprando apenas on-line,melhor não tratá-lo como trouxa: cobrar um preço justo para parar o carro é um bom começo. Conselho de um cronista meio sem noção,mas que não rasga dinheiro.
“A odisseia”? Excelente filme. Agora imaginem quanto o cavalo de Troia teria pago para estacionar num shopping carioca?
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