
A vereadora Silvia da Bancada Feminista (PSOL),autora do projeto que propõe mudar o nome da Rua Peixoto Gomide para Sophia Gomide — Foto: Richard Lourenço / Rede Câmara
GERADO EM: 08/04/2026 - 18:26
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Caminhar pelas cidades é andar sobre a História,literalmente. E,assim como as ruas,a História está viva e quente,pronta para se rebelar contra o próprio passado ou quem ousar colocar suas mãos sobre ele.
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Inspirado pelo sensível projeto de lei aprovado em primeiro turno na Câmara Municipal de São Paulo,de Silvia Ferraro (PSOL) e Luna Zarattini (PT),que propõe trocar o nome da Rua Peixoto Gomide por Rua Sophia Gomide (o feminicida Peixoto matou a filha Sophia com um tiro na cabeça em 1906 antes de tirar a própria vida),fui aos jornais da época e voltei preocupado.
O caso é mesmo um horror,mas tem uma coisinha chata que tendemos a querer deixar debaixo do tapete até que o nome Peixoto Gomide seja arrancado das placas. Só não sei se seria certo.
Às 14h do dia 20 de janeiro de 1906,Peixoto conversava com sua filha na sala de jantar. Subitamente,levantou-se,sacou o revólver Smith & Wessone atirou na testa de Sophia,22 anos,“alguns centímetros acima da região superciliar,varando o crânio de lado a lado”,como relatou o Correio Paulistano.
Logo depois,enquanto a família acudia a menina,o homem que chegou a governar São Paulo entre 1897 e 1898,com generosos reconhecimentos entre jornalistas,políticos e bajuladores da época,mirou contra a própria cabeça e puxou o gatilho. Os dois foram enterrados lado a lado no Cemitério da Consolação.
O motivo da ira de Peixoto seria a decisão de Sophia de se casar com o escritor e poeta Manuel Batista Cepelos,um possível filho bastardo do político,fruto de uma relação secreta com uma mulher escravizada. O enterro teve honras de Estado,os jornais lamentaram emocionados a morte de Peixoto (não a de Sophia) e a Igreja da Sé,à época abrindo exceção à alma de um suicida homicida,celebrou a Missa de Sétimo Dia para que ela alcançasse o reino dos céus em paz.
Aí vem isto aqui: a mesma pesquisa que permite saber todos esses detalhes aponta para a existência da Rua Peixoto Gomide antes de 1914,colocado pelas autoras do PL como o ano de batismo do logradouro. A rua aparece pela primeira vez nos jornais em 1º de maio de 1897,nove anos antes da tragédia,o que leva a crer que o homenageado pelo logradouro seja o pai do feminicida,homônimo e também político,morto em 1850.
As deputadas têm agora dois caminhos: defender que,seja pai,seja filho,Peixoto Gomide é um sobrenome no mínimo inadequado para seguir sendo homenageado em São Paulo. Ou usar essa joia aqui que a mesma pesquisa que levanta e derruba a tese do PL aponta nos 45 minutos do segundo tempo: Peixoto pai também não era flor que se cheirasse.
Quando um homem escravizado em Tietê,no interior de São Paulo,fugiu de seu senhor,em setembro de 1869,o político colocou-se ao lado do escravizador e ofereceu-se para receber o fugitivo de quem quer que o capturasse,pagando uma quantia de cem mil réis pela entrega do rapaz. Por muitos dias,os jornais publicaram um anúncio: “Escravo Leopoldino,cabra,rosto achatado,falta de dentes na frente,mais ou menos 28 anos de idade... Recomenda-se a captura à polícia ou ao senhor Francisco de Assis Peixoto Gomide.”
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