
O jiló é Cupido nas histórias de Guilherme Studart — Foto: Ilustração Gemini
GERADO EM: 19/04/2026 - 15:45
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Cadê o jiló que estava aqui? Ele ficava ensopado ao lado direito do ovo cor-de-rosa,à esquerda das moelas fritas,e,todos iluminados pela luz fria da vitrine do balcão,sobrevoados por anjos em formato de moscas,compunham o altar fundamental em torno do qual se rezavam as orações.
O freguês escolhia um deles,em seguida deixava escorrer o primeiro gole da jurubeba para o santo e,abençoada a serragem que cobria o chão sagrado,estava completa uma das cenas fundamentais desta religião à beira-mar plantada – o botequim carioca.
Quando o festival Comida di Buteco avisou que este ano privilegiaria os pratos à base de verduras,eu imediatamente senti as papilas gustativas se decepcionarem no conforto da língua que me vai na boca. Uns dizem que jiló é fruta,outros garantem que é legume. Eu,botânico amador,criado nas hortas da Vila da Penha,participo desta polêmica dizendo apenas que passo – e cravo os dentes entusiasmados em mais esta iguaria trazida pelos escravos africanos.
Se o assunto é baixa gastronomia,o jiló está leguminosamente acima de qualquer classificação de gênero. É hors-concours,um Clóvis Bornay que desfila a fantasia sem concorrente de um sabor luxuoso. Àqueles de paladar infantil,sempre repetindo que de amarga já basta a vida ou que não querem saber de comida de passarinho,eu sugiro seguir o conselho de Nelson Rodrigues quando lhe pediram para dar um toque nos jovens: “Envelheçam! Envelheçam!”.
E,no entanto – e no porém mais revoltado –,de todos os 104 balcões do Comida di Buteco apenas UM se lembrou este ano de incluir no cardápio o verde amargo supremo que me inspira o desabafo desde o início da coluna. Cadê o jiló que estava aqui? O Rio é tudo que fica entre a paradinha da Mocidade,o biquini cortininha das meninas,a festa da favela no anel do Maracanã e o que está escrito nos cardápios de seus restaurantes.
Cadê essa identidade fundamental das mesas da cidade? O que foi feito do bife de fígado acebolado com purê e jiló,uma das argamassas sobre a qual foi construída esta gloriosa civilização?
O economista Guilherme Studart,historiador dos botequins,faz parte da comunidade de adoradores-órfãos da tão injustiçada iguaria,e costuma juntar amigos para caravanas pelas catedrais sobreviventes à tentativa de extermínio da espécie. No momento,prepara um livro de histórias de amor,mas não dessas açucaradas – todas unidas pelo fato de terem o jiló servindo de Cupido na união de seus amantes.
Um homem observa encantado a mulher comendo uma porção de jiló empanado,pegando a cebola com as mãos,lambendo os dedos depois. Não resiste ao chamamento irresistível do tesão amoroso – “era como se o jiló ali não fosse amargo,mas prelúdio” – e se aproxima da mesa onde ela está sozinha:
- Posso?
A moça,a alma esfomeada,responde com um sorriso curto:
- Só se você gostar de jiló quente – e ele,claro,gostava.
Os cardápios da cidade precisam fazer como os personagens de Guilherme Studart e ser mais amáveis com o jiló. Não se deixarem impressionar com a sua amargura – afinal,como diz um filósofo no livro,o que não falta na vida é amor de gosto amargo e mesmo assim ninguém desiste dele.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro