
Luiz Fernando Guimarães celebra 50 anos de carreira — Foto: Leo Aversa
GERADO EM: 04/06/2026 - 18:52
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Meio século dedicado à arte de fazer rir não tirou de Luiz Fernando Guimarães o frescor dos iniciantes — nem o clássico frio na barriga antes de entrar em cena. Prestes a estrear no Rio a comédia “Baixa sociedade”,clássico de Juca de Oliveira (1935-2026) que ganha roupagem atualizada no Teatro Clara Nunes,no Shopping da Gávea,o ator de 76 anos celebra 50 anos de carreira com o mesmo foco de sempre e a habitual leveza com que domina os palcos.
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Sob direção de Pedro Neschling,completam o elenco Isabella Santoni,Paulo Mathias Jr. e Bruna Trindade. Na peça,Luiz interpeta Otávio,um homem capaz de tudo para alcançar reconhecimento,dinheiro e status. Entre mentiras e planos mirabolantes,ele transforma o cotidiano de sua família em uma tentativa permanente de subir na vida e sustentar uma imagem de sucesso. No entanto,situações cômicas e absurdas revelam,aos poucos,as fragilidades e contradições do patriarca.
Em conversa com o GLOBO,o comediante reflete sobre o vício contemporâneo das aparências nas redes sociais,a gratidão pelas parcerias históricas e a intuição afiada que o ensinou a saber a hora exata de dizer “não”.

Isabella Santoni e Luiz Fernando Guimarães em cena de "Baixa sociedade",que faz temporada no Teatro Clara Nunes — Foto: Divulgação/Paula Tonelotto
O GLOBO: “Baixa sociedade” é um dos textos mais célebres de Juca de Oliveira (1935-2026),escrito no Brasil dos anos 1970. Por que a peça continua dialogando tão bem com o público quase 50 anos depois de ter sido escrita?
LUIZ FERNANDO GUIMARÃES: A gente sente que o público se identifica completamente. O mais interessante é como,tanto tempo depois,o espetáculo ainda tem ecos nos momentos atuais. A sociedade,por mais que tenha mudado,tem uma coisa cultural que permanece. A gente vê pela reação do público: quando o público ri,não é somente porque está achando engraçado,mas porque se identifica com aquilo que está vendo.
A peça fala sobre a busca por status e reconhecimento. Como você enxerga essa questão hoje,em tempos de redes sociais?
As redes sociais são onde as pessoas podem se mostrar. E as pessoas nem sempre se mostram como elas realmente são,mas como elas gostariam que fossem vistas. Então existe todo um processo aí: "Eu quero ser visto assim,quero que as pessoas me vejam desse jeito". Ou seja,isso é galgar um status. A internet é um prato cheio para isso. Todo mundo está se mostrando de alguma forma.
Qual é a expectativa para estrear no Rio,depois de uma temporada de sucesso em São Paulo?
Estou muito alegre de estar voltando ao Rio de Janeiro,me sinto em casa. Estou feliz da vida. Acho que o espetáculo vai ser ótimo. Todo dia eu procuro saber como estão as vendas. O ator é carente,né? (Risos) A gente carece de afeto. E acho que a temporada vai ser tão boa quanto a de São Paulo.
Você está comemorando 50 anos de carreira. O que mais te marcou?
Meio século,né? Eu me sinto muito agradecido pelas oportunidades que eu tive na vida e muito por pessoas que que estão à minha volta. Eu fui para a novela pelo Guel Arraes,pelo Jorge Fernando,fiz musicais que eu jamais poderia imaginar que teria feito. Sou um ator que sabe dizer não. Tenho colegas que dizem que têm uma dificuldade enorme de dizer não. E eu tenho uma intuição muito forte que me leva a trabalho X e a trabalho Y,e a dizer não para outros trabalhos. Existem,no nosso caminho,ganhos e perdas. E eu acho que,fazendo uma balança desses 50 anos,eu tive mais ganhos do que perdas.
Qual conselho você daria ao Luiz que começou lá atrás?
“Calma,Luiz. Calma”. Sou muito acelerado (risos).
Como a comédia mudou nos últimos 50 anos?
Existem comédias e comédias. Eu sempre botei isso na minha cabeça e ninguém entende muito bem,mas eu acho que a comédia e o humor são muito diferentes. Eu não sou um humorista. Me considero um comediante,que faz uma comédia a partir de situações,ou seja,a partir da relação com o outro ator ou atriz. Eu também sei fazer humor,sei tirar leite de pedras. Mas isso requer também muito trabalho e muita atenção,e eu sou muito focado naquilo que eu faço. Eu quero parecer para o público que faço isso com a perna nas costas. Gosto dessa sensação. As pessoas dizem: “Você faz isso com muita leveza”,mas não é como eu realmente faço. Isso exige muito trabalho e atenção. Mas eu acho importante,porque eu já fui muito ao teatro e fico tenso com ator que é muito exagerado. Acho esquisitíssimo o ator que se exagera,tenho um pouco de pena,muitas vezes.
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