
Senador Jaques Wagner — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
GERADO EM: 24/06/2026 - 19:52
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Eleições não se decidem apenas quando eleitores mudam de voto. Muitas vezes,o eleitorado começa a se mover quando encontra razões moralmente aceitáveis para justificar uma escolha que ainda não admite. É nesse território — menos ideológico que afetivo,menos programático que moral — que o episódio com o senador Jaques Wagner deve ser compreendido.
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As últimas pesquisas registraram uma inflexão relevante. Lula voltou a abrir vantagem sobre Flávio Bolsonaro,enquanto a aprovação de seu governo e de algumas políticas sociais também melhorou. A leitura mais óbvia atribui isso à comunicação oficial ou ao maior conhecimento do “pacote de bondades”. Mas os relatórios do Instituto Democracia em Xeque (DX) sugerem outra hipótese: talvez esses programas tenham passado a ser vistos com mais generosidade pelos eleitores pendulares,que precisaram reencontrar motivos para considerar Lula novamente.
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Até o episódio “Dark Horse”,Flávio Bolsonaro surfava os “ventos da mudança” junto a esse público. Para eles,cansados da polarização — e sem ver grande diferença entre Lula e Bolsonaro —,Flávio oferecia a renovação. Não empolgava,mas não assustava. Um bolsonarismo menos estridente e mais moderado. O “Dark Horse” mudou isso. Diante de áudios,versões contraditórias e documentos nunca apresentados,parte desse eleitorado passou a ver Flávio como alguém sob suspeita,que fere dois mandamentos morais básicos: não mentir e não se corromper.


Quando isso acontece,o eleitor não muda automaticamente para o adversário. Procura,antes,uma justificativa para si mesmo. Políticas até então vistas com desatenção — Bolsa Família,Pé-de-Meia,Desenrola,isenção do Imposto de Renda — começaram a funcionar assim: “Não gosto de tudo em Lula,mas ele olha pelos pobres”; “Pode ter problemas,mas entrega alguma coisa”. A melhora de Lula,portanto,se daria menos por entusiasmo e mais por uma dissonância cognitiva a justificar um cálculo emocional e moral.
É aqui que entra Jaques Wagner. Análise do DX nas redes sociais mostra que a direita tentou rapidamente vincular o caso à narrativa de corrupção petista. A repercussão não foi pequena: mais de 223 mil menções em pouco mais de um dia. Mas tampouco teve a força inicial do BolsoMaster,que produzira quase o dobro nas primeiras 24 horas.
Wagner não é candidato a presidente e anunciou ontem que deixará a liderança do governo no Senado. Atinge Lula pelo risco de contaminação institucional. Se o governo sustenta que a Polícia Federal atua com autonomia,que “Quem fez,paga” e que “Lula não abafa as investigações” — como pedem os eleitores pendulares —,pode reduzir o dano da contaminação de sua candidatura. Isso contrasta com a vitimização bolsonarista e com a tentativa permanente de proteger familiares e aliados. Mas esse ativo só se mantém se houver coerência política.
Wagner deixar a liderança não é necessariamente uma confissão de culpa. O governo pode “vender” a mudança como fez Itamar Franco com Henrique Hargreaves no caso dos Anões do Orçamento: um exemplo de independência nas investigações.
O episódio revela ainda o desconforto de Flávio. Um candidato em situação normal teria se aprofundado no caso. Mas,diante do “Dark Horse”,ele buscou refúgio na segurança pública,vinculando o episódio a seu plano “Brasil sem Medo”. A direita ganhou munição,mas seu principal candidato não pode atirar sem risco de ricochete.
A questão agora é como o caso Wagner será processado pelos independentes,chamados a decidir a eleição. Será que esse eleitorado verá o episódio como “são todos iguais”,mas manterá o voto em Lula por falta de alternativa confiável? Ou mandará a fatura eleitoral ao presidente justamente quando começava a se inclinar na direção dele?
*Beto Vasques e Fabiano Garrido são diretores do Instituto Democracia em Xeque
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