
Cães desaparecem antes da proibição de consumo de carne de cachorro na Coreia do Sul — Foto: Jung Yeon-je/AFP
GERADO EM: 29/06/2026 - 03:41
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Agulhas elétricas para gado encostam-se em uma parede ao lado de gaiolas enferrujadas contendo crânios de cães em um matadouro abandonado em uma vila sul-coreana. O local abandonado em Pyeongtaek,ao sul de Seul,oferece um vislumbre de uma indústria à beira do desaparecimento,com a entrada em vigor da proibição do consumo da carne de cachorro na Coreia do Sul no próximo ano. Isso também levanta uma questão: o que aconteceu com as centenas de milhares de cães criados para consumo humano?
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A carne de cachorro,antes popular entre os idosos e em áreas rurais,perdeu popularidade entre os coreanos mais jovens,que veem os cães como animais de estimação. Em janeiro de 2024,o país aprovou uma lei que proíbe a criação,o abate e a venda de cães para consumo. Quando a lei entrar em vigor,em fevereiro de 2027,os infratores poderão ser condenados a até três anos de prisão. Com a proximidade da proibição,a indústria está desaparecendo rapidamente.
Dados do governo indicam que,em 2024,entre 400 mil e 450 mil cães eram criados para abate. O Ministério da Agricultura estima que restem apenas 20 mil. Não existem estatísticas sobre as tendências de consumo de carne,mas considera-se que o consumo é popular entre uma pequena minoria dos 51 milhões de habitantes da Coreia do Sul. Para ajudar os criadores na transição,o governo ofereceu-lhes até 600.000 won (cerca de R$ 2 mil) por cada cão abatido. No entanto,o destino desses cães ainda não foi rastreado.
"O nosso papel é verificar se os cães não estão em fazendas ou matadouros antes de distribuir a compensação",disse um inspetor do ministério à AFP sob condição de anonimato. "Não nos envolvemos no que acontece aos cães",acrescentou.
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Dados obtidos por um legislador indicam que,até fevereiro,apenas 623 cães haviam sido adotados e menos de 500 foram enviados para abrigos. Grupos de proteção animal e ex-criadores acreditam que o restante provavelmente foi morto.
"Se vários cães resgatados tivessem entrado em programas de adoção,grupos de direitos dos animais como o nosso saberiam",disse Kim Young-hwan,da organização de direitos dos animais CARE. "Não vimos nenhuma campanha de adoção para cães resgatados de criadouros",comentou ela.

Cães desaparecem antes da proibição de consumo de carne de cachorro na Coreia do Sul — Foto: Jung Yeon-je/AFP
Em mais de duas décadas,a CARE afirma ter resgatado e encaminhado para lares aproximadamente 2.500 cães de criadouros,a maioria dos quais foi enviada para o exterior. Cães criados para abate são grandes,e os coreanos geralmente preferem cães menores como animais de estimação para seus apartamentos.
"Na Coreia do Sul,há muito tempo se faz uma distinção entre cães criados para abate e animais de estimação",disse Ju Yeong-bong,ex-criador de cães,à AFP. Questionado sobre o paradeiro de milhares de cães desaparecidos,ele reconheceu que talvez "eles já tenham sido comidos". Kim,da CARE,está "furioso" com essa possibilidade,mas a realidade é que os grupos de proteção animal não têm recursos para resgatar mais cães.
Segundo o Ministério da Agricultura,1.265 criadouros de cães — 82% do total — anunciaram seu fechamento até o final de maio. Ju,que também é pastor cristão,começou seu criadouro de cães em 1994,depois de perceber que não conseguia mais se sustentar apenas com seu ministério.
"Acredito que a proibição da carne de cachorro é uma traição",disse ele à AFP. "Foi imposta por razões políticas,sem diálogo suficiente ou medidas para proteger nossos meios de subsistência",comentou.

Cães salvos por entidade filantrópica na Coreia do Sul,que vê animais desaparecerem das ruas poucos antes de proibição de consumo desse animal entrar em vigor — Foto: Jung Yeon-je/AFP
Outros criadores de cães estão buscando criar outros tipos de animais,mas os longos processos de licenciamento governamental dificultam a transição,acrescentou Ju. Para os ativistas,a mudança na lei também fecha uma brecha legal em relação ao tratamento de cães,afirmou a advogada Park Joo-yeon,chefe do grupo de direitos dos animais PNR.
Ao contrário do gado ou dos porcos,os cães nunca foram classificados como animais de criação na Coreia do Sul. Isso significa que a indústria operou por décadas sem regulamentações sobre criação e abate humanitários. Os cães são geralmente mortos por eletrocussão,enforcamento ou espancamento,de acordo com ativistas dos direitos dos animais. Em Pyeongtaek,jornalistas da AFP encontraram ferramentas abandonadas aparentemente usadas para eletrocutar cães.
"Eles frequentemente ficavam conscientes enquanto seus órgãos internos queimavam",disse Shin Joo-woon,ativista da KARA,à AFP. "Outros cães testemunharam o processo."

Em Pyeongtaek,jornalistas da AFP encontraram ferramentas abandonadas aparentemente usadas para eletrocutar cães — Foto: Jung Yeon-je/AFP
A KARA resgatou 29 cães em maio da fazenda de Pyeongtaek e denunciou o dono por crueldade contra animais,o que é proibido.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro