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O futebol é uma caixinha de memórias

Jun 29, 2026 Ai IDOPRESS

O 'Menino Ney' — Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP

Eu me lembro que Nilton Santos era o “Enciclopédia”,Pelé,o “Rei”,Gérson,o “Canhotinha de Ouro”,Didi,o “Príncipe Etíope”,Rivelino,a “Patada Atômica”. Hoje,só Neymar,34 anos,carrega um aposto,sintomaticamente diminutivo – é o “Menino Ney”.

Eu me lembro que o primeiro comentarista de arbitragem foi o ex-juiz Mário Vianna,um sujeito-muito-homem,brigão da Urca. Quando um jogador era flagrado em impedimento ele gritava ao microfone da Rádio Globo: “Banheeeeeira! Banheiraaa!!!” Mário Vianna recusar-se-ia a usar uma câmera pregada na bochecha.

Eu me lembro do conto “Abril,no Rio,em 1970”,do Rubem Fonseca,em que um personagem avalia o preparo físico dos jogadores pelo cuspe – o do Gérson saía fininho,cristalino,entre os dentes; já o do Tostão,naquele momento contundido,saía que nem uma bolota de “marchemelo”. Eu tenho reparado nas cusparadas mostradas pela TV – são todas assim,meio marchemeladas.

Eu me lembro que o primeiro time era meu e o segundo time-teu.

Eu me lembro que Mané Garrincha,de pernas tortas,namorava a vedete Angelita Martinez,de pernas fabulosas e cantora da marchinha “Mané que brilhou lá na Suécia/ Mané que nasceu em Pau Grande”. No carnaval,o pessoal do bloco trocava a preposição “em” por outra,o que dava uma dimensão extraordinária aos dotes do grande ponta.

Eu me lembro que dias atrás atribuí ao locutor Orlando Batista,da Rádio Mauá,o bordão “não adianta chorar,a nega tá lá dentro”. Errei. É de Celso Garcia,da Rádio Globo. No pós-gol,Orlando Batista gritava “Bota no meio,Malcher”,sendo Malcher o juiz da partida – e sendo,uma expressão ou outra,as duas bem polêmicas aos ouvidos de hoje.

Eu me lembro que Maneco,o Saci de Irajá,cracaço do América,morava na Rua da Prosperidade,95,perto da minha casa,quando em 1956,endividado,o ídolo do bairro pôs fim à própria vida ingerindo uma porção letal de guaraná com formicida. Irajá chorou de dor e eu também ao ver o féretro saindo da Rua da Prosperidade. Maneco foi meu primeiro luto.

Eu me lembro que o craque da partida ganhava uma noite de amor no motel Champion,na Avenida Brasil.

Eu me lembro que não queria ser o Rubem Braga – eu queria ser o Dida.

Eu me lembro de Otelo,o Caçador,aqui no Globo,mostrando com o seu Placar Moral,que o futebol imita a vida – nem sempre vence quem joga melhor. Era um filósofo do ludopédio.

Eu me lembro que na Copa de 1986,no México,eu fazia parte da equipe do Jornal do Brasil ao lado de monstros sagrados como Oldemário Touguinhó,João Saldanha e Sandro Moreira,o que é evidentemente a linha primeira do meu currículo de jornalista esportivo. Foram todos muito solidários quando passei três dias num quarto de hotel,vítima da Maldição de Montezuma.

Eu me lembro que o Doalcey Bueno de Camargo,na Tupi,chamava a marca do pênalti de “marca fatal”,mais ou menos na mesma linha dramática que o austríaco Peter Handke usou ao intitular seu livro de “O medo do goleiro na hora do pênalti”. Eu me lembro que Camus foi goleiro e,talvez por isso,autor de “A Peste”.

Eu me lembro que esse jogo não pode ser um a um.

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