
Andy Burnham discursa ao ser escolhido líder do Partido Trabalhista britânico — Foto: HENRY NICHOLLS / POOL / AFP
GERADO EM: 19/07/2026 - 17:36
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Assim,o sétimo primeiro-ministro do Reino Unido em uma década será Andy Burnham. Veterano dos governos do Novo Trabalhismo e prefeito carismático,Burnham foi o único candidato indicado pelos parlamentares trabalhistas,que entraram em pânico com os resultados desastrosos das eleições locais em maio. Ele agora tem a missão de reanimar a popularidade do governo,que despencou sob o comando de seu antecessor,o sisudo Keir Starmer.
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Com seu sotaque do norte da Inglaterra,vestimentas casuais e imagem de homem comum,Burnham explora seu status de outsider,um bem precioso nestes tempos antipolíticos. Extraordinariamente,ele retornou ao Parlamento — onde iniciou sua carreira política — apenas no mês passado. Por quase uma década,atuou como prefeito de Manchester,adquirindo o apelido de "Rei do Norte". Sugestivo mais de um programa de TV de fantasia do que de um regionalismo insurgente,o título captura muito do que Burnham oferece: uma quimera de subversão do londrino e a dispersão do poder e da prosperidade.
No entanto,o Rei do Norte sempre foi uma criatura de Westminster. Apesar do que Burnham chama de "doses graves de síndrome do impostor",ele deslizou com naturalidade pelos corredores do poder. Essa dualidade,entre ser um cidadão comum e um funcionário público,faz parte de um padrão em que Burnham promete romper com a ortodoxia apenas para se apegar a ela. Os primeiros sinais sugerem que seu mandato como primeiro-ministro será semelhante. Mas o Reino Unido está atolado em estagnação econômica e mergulhado em distúrbios sociais. Será preciso mais do que uma reformulação do Partido Trabalhista para resolver seus problemas de longa data.
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Nascido e criado no noroeste da Inglaterra,filho de uma recepcionista e um técnico de telefonia,Burnham estudou literatura inglesa na Universidade de Cambridge. Aos 24 anos,tornou-se pesquisador parlamentar para um proeminente membro do Partido Trabalhista. Após a vitória esmagadora do Novo Trabalhismo em 1997,que levou o partido ao poder,Burnham trabalhou como assessor especial de um ministro do Gabinete; Tony Blair,então,rapidamente o indicou para uma vaga segura na região metropolitana de Manchester. Aos 31 anos,sua carreira política estava em pleno andamento.
No Parlamento,o histórico foi notavelmente lealista. Ele votou a favor da guerra do Iraque e,como ministro júnior do Interior,adotou uma postura rigorosa em relação à lei e à ordem. Na época,era conhecido em Westminster como "Flog'em and Burnham" (um trocadilho em inglês com seu nome,algo como "Açoite-os e Queime-os"). Promovido ao Gabinete sob o governo de Gordon Brown,ele impulsionou o programa ruinosamente caro do Novo Trabalhismo para reconstruir hospitais com financiamento privado.
Suas ambições,no entanto,eram maiores. Quando o Partido Trabalhista perdeu o poder em 2010,Burnham candidatou-se à liderança do partido com um discurso confuso sobre o "socialismo aspiracional" e terminou em quarto lugar. Ele concorreu novamente em 2015 como o favorito das casas de apostas,mas perdeu após a surpreendente onda de apoio a Jeremy Corbyn. Dois anos depois,encontrou uma eleição que poderia vencer mais perto de casa,tornando-se o primeiro prefeito da Grande Manchester.

Andy Burnham fala com apoiadores após vencer eleição suplementar em Makerfield,em junho de 2026 — Foto: Oli Scarff/AFP
A prefeitura tem poucos poderes. Suas principais funções,segundo a consultoria Oxford Economics,são "defender a região" e servir como "ponto de contato para investidores privados". Burnham havia encontrado seu lugar. A região metropolitana,com uma população de 2,9 milhões de habitantes,registrou um crescimento mais forte do que outras conurbações britânicas. No entanto,a renda disponível não cresceu muito e a inflação dos preços dos imóveis deixou muitos moradores para trás. Mesmo assim,há atividade suficiente na construção civil e um setor de serviços dinâmico para considerá-la uma história de sucesso.
Burnham afirma ter descoberto uma fórmula secreta para o sucesso econômico,um "socialismo favorável aos negócios" ou simplesmente "manchesterismo". No entanto,seu mandato como prefeito será lembrado principalmente por dois fatos: a retomada do controle público dos ônibus,para a qual precisou ser convencido,e sua reação furiosa e espontânea em 2020 às restrições mais rígidas de lockdown impostas pelo governo de Boris Johnson. Burnham vociferou contra a forma como Westminster estava "oprimindo as pessoas". Por sua afronta repentina,a mídia lhe conferiu o apelido de "Rei do Norte".
No entanto,o apelido não surgiu do nada,mas sim foi criado em laboratório pelo próprio homem. Em um evento realizado no início daquele ano,Burnham havia fantasiado sobre "estar sentado em meu castelo ao estilo 'Game of Thrones',no coração da poderosa região do Norte,abrindo meu telegrama de aniversário do monarca do sul da Inglaterra". Um aliado do Partido Trabalhista aproveitou a deixa e brincou: "Andy vai estar no Trono de Ferro e será o Rei do Norte". O Manchester Evening News,publicou a manchete.


O discurso inflamado de Burnham ajudou-o a ser reeleito com folga como prefeito por duas vezes. Mas seus olhos estavam cada vez mais voltados para outros alvos. Enquanto Starmer se debatia em Downing Street (sede do governo e a residência oficial do premier),o homem de Manchester inseriu-se na discussão sobre quem poderia substituí-lo. É importante notar que ele era a única figura reconhecível do partido cujos índices de popularidade não estavam abaixo de zero. Mas,para uma terceira tentativa de chegar à liderança,Burnham precisava estar no Parlamento. Eventualmente,um caminho de volta a Westminster — na forma de uma eleição especial para o distrito eleitoral de Makerfield,a 32 quilômetros a oeste de Manchester — se abriu.
A campanha de Burnham culminou em um discurso de liderança afirmando que esta era a "última chance" de "traçar um novo caminho para o Reino Unido". Sua vitória ofereceu a prova de que — pelo menos por enquanto — sua marca política pessoal pode fortalecer os redutos regionais do Partido Trabalhista,ameaçados pelo partido de direita Reform UK,de Nigel Farage. Percebendo a situação,Starmer anunciou sua renúncia. A primeira medida de Burnham foi anunciar uma filial do número 10 de Downing Street em Manchester,como parte de um pacote mais amplo de descentralização.
De resto,os preparativos apressados de Burnham para assumir o governo apontam para uma ampla continuidade com o mundo de Starmer — e,de fato,com o de Blair. Ele recrutou James Purnell,seu contemporâneo do Novo Trabalhismo,como chefe de Gabinete e manteve Jonathan Powell,outrora peça fundamental da equipe de Blair em Downing Street,como conselheiro de Segurança Nacional. Em termos de políticas,ele se mantém fiel às rígidas regras fiscais da administração anterior e às duras mudanças nas leis de asilo,concebidas para dificultar a entrada de refugiados no país,além de vagas promessas de crescimento econômico.
O estilo de Burnham é decididamente provinciano. Mas,quando pressionado sobre assuntos externos durante sua candidatura anterior à liderança do Partido Trabalhista,ele disse que renunciaria à política externa se Corbyn retirasse o Reino Unido da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Em um artigo publicado para coincidir com a cúpula da Otan na Turquia na semana passada,ele reafirmou seu apego ao atlantismo,à dissuasão nuclear britânica,ao aumento dos gastos com defesa e ao apoio à segurança de longo prazo da Ucrânia. Embora tenha reiterado que Starmer foi "muito lento" para pedir um cessar-fogo em Gaza,sua política em relação a Israel é impecavelmente conformista.
O Partido Trabalhista queria uma revitalização após a gestão de Starmer. Na ausência de algo melhor,optaram por um político de carreira alinhado a Blair,com alma nortista e experiência em Whitehall. Para o Reino Unido,parece mais do mesmo.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro