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O primeiro amigo do ser humano: ciência revela que cachorros estão conosco há, pelo menos, 15.800 anos

Apr 8, 2026 Artes IDOPRESS

Os cães-lobos da República Tcheca são os cachorros mais parecidos com lobos,mas a raça é nova — Foto: Wikimedia Commons

RESUMO

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GERADO EM: 07/04/2026 - 12:17

Sequenciamento de genoma revela cães como antigos companheiros humanos

Cientistas sequenciaram o genoma de uma cadela de 15.800 anos da Turquia,revelando que cães são companheiros humanos há milênios,muito antes da agricultura. Estudos mostram que cães já estavam na Europa e Oriente Médio há mais de 14 mil anos. As descobertas,publicadas na Nature,indicam uma evolução complexa dos cães de lobos,com implicações para a diversidade genética atual.

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Se Adão e Eva tivessem um pet,ele seria um cachorro. Pois no princípio e por muitas eras,havia somente o cão. Milênios antes de cavalos,bovinos,cabras,ovelhas,porcos e gatos se tornarem animais domésticos,cachorros já eram companheiros dos seres humanos. Mais que apenas o melhor amigo do ser humano,o cão foi o primeiro parceiro. A descoberta foi possível graças à genômica. Cientistas europeus sequenciaram o mais antigo genoma de um cão: uma cadelinha que viveu na Turquia há 15.800 anos.

O DNA abriu o portal do tempo para uma época em que a agricultura ainda não existia e o cão era a única companhia que o ser humano poderia ter. Um tempo de luta diária para conseguir alimento e não virar a comida de alguém.

Pessoas e seus cachorros dividiam o mundo com ursos-das-cavernas gigantescos,tigres-de-dentes-de-sabre,rinocerontes lanudos e mamutes. Todos estes animais da Era do Gelo se foram,mas os humanos e seus cães persistiram a mudanças do clima,da paisagem e da cultura.

Com a genômica,cientistas mostraram ainda que os cães já estavam espalhados por Europa e Oriente Médio há mais de 14 mil anos,parceiros de variados grupos humanos.

A assinatura genética desses primeiros cachorros permanece nos cães modernos,como um fio contínuo de DNA,ligando os cães que viviam ao lado de caçadores de mamutes a borders collies,shi-tsus,caramelos e os restante da cachorrada atual.

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Muito além da curiosidade

Mais que apenas curiosidade,pesquisas assim pavimentam um caminho para compreender a evolução dos cães,como surgiram e se diversificaram nas mais de 400 raças existentes hoje. Também podem revelar genes importantes para o entendimento e o tratamento de doenças que afligem os cães,com variados tipos de câncer. Iluminam também segredos do DNA partilhados por humanos e canídeos.

O genoma do cão mais antigo e as revelações sobre o espalhamento dos cachorros estão em duas pesquisas publicadas este mês pela revista Nature. As descobertas vêm de sítios arqueológicos em Reino Unido,Suíça e Turquia e retrocedem em 5.000 anos os registros genéticos dos cachorros.

São conhecidos vestígios de cães (Canis lupus familiaris) em sítios arqueológicos com mais de 30 mil anos,mas os ossos deles são difíceis de distinguir dos de lobos (Canis lupus). Por ora,segue impossível saber se esses animais de 30 milênios atrás eram de fato cães ou lobos que eventualmente toleravam a presença humana.

Uma cadelinha reveladora

Ainda não se descobriu quando exatamente ocorreu a transição do lobo para o cão,mas tudo indica que foi bem antes de 16 mil anos. Tampouco se sabe se houve um único evento de domesticação ou um processo mais contínuo,envolvendo várias populações de lobos,domesticados em momentos e lugares diferentes. O genoma da cadelinha turca começa a contar essa história.

Domesticar não é apenas amansar. Mas mudar toda uma série de comportamentos e características físicas de uma espécie para adequá-las a necessidades humanas. É um processo de muitas gerações,que promove grandes transformações. No caso do lobo,a transformação foi tão profunda que acabou por produzir uma nova espécie,o cachorro.

Dois consórcios científicos internacionais foram responsáveis por esses avanços. Um deles,liderado pela Universidade Ludwig Maximilian de Munique (Alemanha) e pelo Museu de História Natural de Londres,extraiu genomas completos de restos extremamente degradados de uma cadelinha ainda filhote,encontrada em Pinarbasi,na Turquia,com cerca de 15.800 anos; e de um cão escavado na Caverna Gough,na Inglaterra,de 14.300 anos.

O outro grupo é do Instituto Francis Crick,na Inglaterra. Esses pesquisadores empregaram uma técnica de “pescaria” de DNA antigo e conseguiu distinguir geneticamente o que era lobo e o que era cão em 130 amostras de ossos fragmentados.

Com isso,identificaram 14 cães que viveram com caçadores coletores europeus,entre eles um animal de Kesslerloch,na Suíça,com 14.200 anos.

Quando os genomas foram comparados,os três cães — de Pinarbaşi,Gough e Kesslerloch — se mostraram surpreendentemente próximos. É como se fossem membros de uma mesma população,que já estava espalhada,no fim da Idade do Gelo,por milhares de quilômetros entre a Europa e o Oriente Médio.

Todos os sítios analisados são de caçadores coletores,muito anteriores à invenção da agricultura. Isso desfaz a ideia de que os cães tenham surgido apenas como auxiliares estáveis de agricultores,em vilas cercadas de plantações. Quando estas surgiram,os cães já acompanhavam os humanos.

Em Pinarbasi,as pessoas caçavam,pescavam e capturavam aves selvagens. Já em Gough eram predominantemente caçadores de grandes mamíferos,como mamutes. Mas não importa a comida,ela era partilhada por pessoas e cães,mostraram análises químicas dos ossos.

Canibalismo e arte em ossos

O tratamento que os corpos desses cães receberam após a morte também sugere um vínculo que ultrapassava o mero utilitarismo. Na caverna inglesa,o crânio do cão apresenta perfurações e modificações decorativas muito semelhantes às vistas em crânios humanos do mesmo sítio. Essa “arte” em ossos foi associada por arqueólogos a rituais complexos que provavelmente incluíam canibalismo.

Já na Turquia,os restos mortais de cães foram enterrados intencionalmente sobre corpos humanos,em gestos que lembram homenagens funerárias. Em lugares separados por cerca de quatro mil quilômetros,a essência era a mesma e não muito diferente do século XXI: cães comendo como gente,sendo sepultados como gente e claramente ocupando um lugar simbólico nas comunidades.

Cara de lobo e coração de caramelo

Do ponto de vista genético,talvez o aspecto mais impressionante seja a persistência dessa linhagem,disseram os cientistas. Mesmo quando,milhares de anos depois,agricultores vindos do Oriente Médio chegaram à Europa trazendo seus próprios cães,a “marca” genética dos cães de caçadores coletores não desapareceu: ela se misturou às novas linhagens e ainda hoje é detectável em muitas raças europeias,como o pastor alemão.

"Os cães não se importam muito com a cultura à qual estão ligados",disse à Nature,Adam Boyko,um geneticista de cães da Universidade de Cornell (EUA),que trabalhou em parceria com o grupo do Instituto Francis Crick.

Os novos dados não resolvem o enigma de origem — o “onde” e o “quando” exatos em que lobos começaram a se transformar em cães —,mas ajudam a estreitar o campo de possibilidades.

Vários estudos de genômica comparativa indicam que cães antigos e modernos se assemelham mais a lobos da Ásia (Sibéria e Ásia Central,por exemplo) do que a lobos europeus,o que torna pouco provável uma origem europeia.

Análises com “cães comunitários”,sem raça definida,apontam ainda que a maior diversidade genética canina atual se concentra em regiões da Ásia Central,algo que costuma ser interpretado como sinal de berço evolutivo.

Pelados e sobreviventes

E cães de raças sul americanas pré-colombianas,como o cão pelado do Peru e o xoloitzcuintli,têm variações genéticas que podem ter vindo de cães que já estavam nas Américas antes da chegada de Colombo.

Os cães domésticos chegaram às Américas há milhares de anos,quando pessoas atravessaram a então existente ponte de terra de Bering,que ligava o Alasca à Sibéria. Mas esses cães do Novo Mundo desapareceram,quando cães europeus e asiáticos chegaram às Américas. Porém,o cão pelado do Peru e o xoloitzcuintli podem ser herdeiros desses cães pioneiros extintos.

Uma faísca perdida no tempo

Os autores dos estudos da Nature insistem que ainda estamos longe de fechar o caso. Sabemos agora que já havia cães domesticados e espalhados há pelo menos 16 mil anos.

Mas a primeira faísca — o momento em que alguns lobos começaram a se aproximar das fogueiras humanas e,geração após geração,foram se tornando cães — continua escondida em camadas de sedimento mais antigas. Tudo indica que isso ocorreu na Ásia,há muitos milhares de anos.

"A resposta está por lá. O problema é que a Ásia é um lugar muito,muito grande",salienta o geneticista evolutivo Lachie Scarsbrook,da Universidade Ludwig Maximilian e um dos autores dos estudos.

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