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Cardeal poeta que vem à Flip é fã de Rosalía e dialoga com obras de Pasolini e Patti Smith para pensar a fé

Jul 16, 2026 Artes IDOPRESS

José Tolentino Mendonça,que cita “um disco dos Smiths” num de seus escritos,fala sobre nomes como Tarkóvski: 'Esses artistas são mestres inesperados da vida espiritual' — Foto: Reprodução

RESUMO

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O cardeal português José Tolentino Mendonça,prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação no Vaticano,lança na Flip sua primeira antologia poética publicada no Brasil,"Os enigmas singulares". Além de participar de mesa literária sobre poesia,o cardeal celebrará uma missa na Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios antes da abertura oficial do evento. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

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O primeiro poema escrito pelo português José Tolentino Mendonça já traçava um mapa do que viria a ser sua obra. Todas as suas preocupações literárias (e espirituais) já se anunciavam nos versos de “A infância de Herberto Helder”,publicado em 1990. O título presta homenagem ao autor nascido na Ilha da Madeira (assim como Tolentino) que se firmou como o maior nome da chamada Poesia Experimental Portuguesa. Os primeiros versos do poema juntam o Antigo e o Novo Testamento,o relato da Criação e a abertura do Evangelho de João.

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Na versão de Tolentino,o princípio não era o Verbo,mas “a ilha”. E “o Espírito de Deus/ abraçava as águas”,como no Gênesis. Nas estrofes seguintes,o eu lírico recorda um tempo ancestral,quando olhava as estrelas e não pensava que houvesse perigo naqueles “corpos de fogo”; espanta-se com a natureza da poesia (“não sabia que todo o poema/ é um tumulto/ que pode abalar/ a ordem do universo”) e termina por descobrir o divino para além de toda racionalidade: “Nesse tempo/ ainda era possível/ encontrar Deus/ pelos baldios/ Isto foi antes/ de aprender a álgebra”.

O mistério que é intrínseco ao fazer poético,e que pode nos colocar em contato com o sagrado,sempre foi a maior das obsessões de Tolentino.

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— Acredito muito no que disse o poeta catalão Joan Brossa: “O poeta não quer fazer poesia; quer ser poema” — diz o simpático escritor de 60 anos,que parece fazer poesia enquanto fala. — A reflexão sobre o trabalho poético é,no fundo,uma busca sobre o que significa habitar o mundo poeticamente. Se eu tivesse de dizer qual era a grande invenção humana,não diria a roda,mas a palavra. O homem viu na palavra a possibilidade de transporte da própria consciência,de conhecimento de si e de encontro com o outro.

Com o Papa Francisco

“A infância de Herberto Helder” abre “Os enigmas singulares”,a primeira antologia de Tolentino publicada no Brasil. Ele vem lançá-la na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip),que começa na próxima quarta-feira (22) e homenageia a poeta Orides Fontela. Na quinta (23) às 10h,o português conversa com o brasileiro Edimilson de Almeida Pereira sobre os enigmas da poesia.

Mas Tolentino não estará em Paraty apenas como poeta. Na quarta,às 18h30,antes da abertura oficial da Flip,ele rezará uma missa na Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios,no centro histórico da cidade.

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Sim,Tolentino é padre. Ou melhor: cardeal. Foi nomeado em 2019 pelo Papa Francisco e atualmente é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação,na Cúria Romana. É responsável por supervisionar a educação católica no mundo todo,proteger o patrimônio artístico da Igreja e liderar os diálogos com o setor cultural. O cardeal já deu aula em instituições católicas no Brasil e teve livros de teologia editados por aqui. Mas sempre quis mesmo é que sua poesia chegasse ao país.

— Sou devedor da tradição literária brasileira. Sei que,para o público da Flip,a poesia não é disciplina universitária,material para teses de doutorado,mas é instrumento humano,pão de cada dia,que ajuda a construir a cidade e mapear a vida — diz Tolentino,que falou ao GLOBO por vídeo do Vaticano,embora tivesse “Portugal nas costas”,como destacou (atrás dele,impunha-se o quadro “Biblioteca em fogo”,da franco-portuguesa Maria Helena Vieira da Silva).

Poesia não devocional

Tolentino se tornou sacerdote em 1990,mesmo ano em que lançou seu primeiro livro,“Os dias contados”. Sua poesia,no entanto,não é devocional nem está preocupada em reafirmar dogmas,mas investiga,de peito aberto,as diferentes dimensões da espiritualidade. Um bom exemplo é o poema “Grafito”,que traz uma epígrafe do filósofo francês Emmanuel Lévinas (“O poema é o ato espiritual por excelência”) e,em seguida,lista tudo o que “o poema pode conter”. Para espanto do leitor,o que cabe nesse “ato espiritual” é tudo aquilo que,à primeira vista,nada tem de divino,mas é banal e às vezes terrível: “venenos”,“excursões campestres”,“uma bicicleta caída junto às primeiras paixões sombrias”,“uma guerra civil”,“um disco dos Smiths”.

Em outro poema,“Para ler aos noviços”,ele afirma que “Deus não aparece no poema/ apenas escutamos a sua voz de cinza” e indica o “modo verdadeiro de rezar”: “Estende o teu corpo longo do barco/ que desce silencioso o canal/ e deixa que as folhas mortas dos bosques/ te cubram”. “Rezar deve ser como essas coisas/ que dizemos a alguém que dorme/ temos e não temos esperança alguma”,confunde-nos o cardeal-poeta em “O esterco do mundo”.

Em suas investigações sobre o divino,Tolentino recorre à sabedoria de pensadores e artistas que chama de dissidentes,como o cineasta soviético Andrei Tarkóvski,o italiano Pier Paolo Pasolini e a americana Patti Smith. São personalidades com aspirações espirituais,mas não se submeteram a ortodoxias e apostaram numa relação questionadora e livre com a religião e o sagrado.

— Esses artistas são mestres inesperados da vida espiritual,que me ajudaram a perceber a fé como dissidência. De fato,a fé é uma dissidência do visível. Ter fé é dizer que o que nós vemos não é tudo. Crer é uma luta. Na Bíblia,Jacó sai mancando de seu encontro com Deus — diz Tolentino,autor do poema “Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos”,o livro poético (e erótico) do Rei Salomão que está na Bíblia. — O que uma artista com o percurso de Patti Smith tem a dizer certamente interessa a quem crê.

Se com Patti Smith o cardeal entendeu o Cântico dos Cânticos,com Pasolini ele aprendeu “sobre a blasfêmia/ que a santidade tem de ser”,conforme lemos no poema “Retrato de Pasolini em Nova York”,um dos poemas mais bonitos do livro. No posfácio a “Os enigmas singulares”,o organizador do volume,Marcio Cappelli,afirma que o escritor português elegeu o italiano como “uma espécie de artista-modelo”. Marxista,homossexual e um dos intelectuais mais interessantes do século XX,Pasolini admirava o cristianismo e o papel da religião popular na cultura.

— Num tempo em que a religião era uma espécie de endereço ilegítimo para a razão,Pasolini percebeu que a religião é necessária para entender o humano,que está ligada a um mundo primordial,selvagem — afirma Tolentino. — Ele foi um visionário,que estabeleceu um corte na modernidade. Sua lucidez áspera nos oferece uma gramática para entender o mundo.

Sonâmbulos rumo à IA

Outra artista que o cardeal admira é Rosalía,que se apresenta no Rio mês que vem. Ano passado,quando a espanhola lançou “Lux”,disco que pergunta como amar a Deus e ao mundo como se fossem um só e a mesma coisa,Tolentino declarou que ela havia captado “uma profunda necessidade na cultura contemporânea de se aproximar de razões espirituais,de cultivar uma vida interior,de valorizar a experiência religiosa”. O escritor percebe que os meios intelectuais e artísticos já não têm tanta aversão ou desconfiança da religião como no passado.

— Onde há 20 anos havia preconceito,suspeitas e distanciamento,há uma curiosidade sábia — diz ele,acrescentando que,no início de sua carreira,seus fiéis não sabiam que ele era poeta e seus leitores ignoravam que fosse padre. — Hoje sou apresentado como as duas coisas. Ambas me pedem tudo. A poesia pede que eu seja poeta e a vida religiosa pede que eu seja religioso. Cada uma me pede uma inteireza.

Como sacerdote e poeta,Tolentino celebrou a encíclica “Magnifica Humanitas”,publicada em maio,na qual Leão XIV pede pela preservação da dignidade e da autonomia humanas em meio ao avanço da inteligência artificial. O cardeal afirma que a mensagem do papa fomenta o debate e combate a desinformação e o “sonambulismo cultural que nos faz avançar em fila para um destino desconhecido em vez de pensar,negociar e construir o futuro em liberdade”. Ele não descarta eventuais colaborações poéticas com a tecnologia,mas faz questão de sublinhar os limites da máquina.

— A literatura do futuro vai ser fazer em diálogo com essa ferramenta — diz o português. — A IA pode gerar literatura,mas sempre como resultado da interlocução com o ser humano. Porque a IA não chora,não reza,não pede perdão e,sozinha,também não faz poesia. Ela só imita pensamento e emoção. E o poeta,como esclareceu Fernando Pessoa de uma vez por todas,não imita,ele finge. Essa será sempre a diferença entre o humano e a máquina.

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