
Ilustração mostra a enzima CMLase (em roxo) degradando produtos finais de glicação avançada (AGEs),compostos que se acumulam nos tecidos ao longo do envelhecimento e estão associados a doenças relacionadas à idade — Foto: La Nacion
GERADO EM: 27/07/2026 - 07:30
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O mesmo processo químico responsável por dourar um bolo no forno também ocorre,lentamente,no organismo humano e está associado ao envelhecimento. Ao longo dos anos,açúcares reagem com proteínas e gorduras do corpo,formando os chamados produtos finais de glicação avançada (AGEs,na sigla em inglês),compostos que se acumulam nos tecidos e contribuem para sua perda de elasticidade e funcionamento. Agora,um estudo publicado na revista Nature Communications apresenta uma estratégia inédita para remover parte dessas moléculas,abrindo caminho para futuros tratamentos contra doenças relacionadas à idade.
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Pesquisadores da empresa americana Revel Pharmaceuticals desenvolveram uma enzima capaz de degradar um dos AGEs mais comuns encontrados em tecidos humanos. Em testes de laboratório,a tecnologia conseguiu eliminar esse acúmulo mesmo após sua formação,um resultado considerado um avanço em relação às tentativas anteriores,que buscavam impedir a produção dessas substâncias,mas sem sucesso.
— É um pequeno passo em uma direção muito maior,porque o envelhecimento é extremamente complexo. Acho que esta é a primeira vez que alguém demonstra,em nível estrutural,que é possível reverter algumas dessas alterações — afirmou Aaron Cravens,fundador e CEO da Revel Pharmaceuticals e principal autor do estudo.
Os AGEs se acumulam naturalmente ao longo da vida e tornam proteínas estruturais,como o colágeno,mais rígidas e resistentes à renovação. Esse processo está associado à inflamação crônica e ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares,diabetes,problemas renais e enfermidades oculares.
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Grande parte das pesquisas sobre envelhecimento concentra esforços nas células,que perdem gradualmente a capacidade de se reparar e se dividir. O novo trabalho,porém,volta a atenção para estruturas de longa duração,cuja meia-vida pode chegar a cerca de 15 anos.
Para John Baynes,bioquímico aposentado da Faculdade de Medicina Floyd,da Universidade da Carolina do Sul,que dedicou décadas ao estudo dos AGEs,a pesquisa representa um marco. Segundo ele,tentativas anteriores de bloquear a formação desses compostos fracassaram.
— Eles se acumulam nas proteínas dos tecidos como ferrugem. Nunca houve sucesso na criação de medicamentos capazes de impedir essas reações químicas. Demonstrar que essa enzima funciona em proteínas extraídas de tecido humano é um trabalho realmente excelente — avaliou Baynes,que não participou da pesquisa.
A investigação partiu da hipótese de que,se todos os tecidos humanos acabam sendo reciclados na natureza após a morte,deveria existir algum mecanismo biológico capaz de degradar também esses compostos altamente resistentes.
Para encontrar essa solução,os pesquisadores analisaram,com auxílio de ferramentas de inteligência artificial,sequências de DNA de mais de 50 mil microrganismos. O software previu as estruturas das enzimas produzidas por esses organismos,permitindo selecionar candidatas com potencial para quebrar os AGEs.
Após identificar uma enzima promissora,a equipe a aprimorou por meio de sucessivos ciclos de evolução dirigida,aumentando sua eficiência. O resultado foi a criação da CMLase,capaz de remover um dos principais AGEs presentes nos tecidos humanos.
Segundo Cravens,os experimentos produziram resultados expressivos.
— No caso mais extremo,pegamos pele humana de uma pessoa de 70 anos e reduzimos os níveis desse composto para valores semelhantes aos encontrados em uma pessoa de 30 anos — disse.
Os pesquisadores pretendem iniciar testes voltados para doenças oculares,especialmente aquelas associadas ao diabetes,nas quais o acúmulo de AGEs danifica estruturas da retina e do cristalino. A expectativa é que a enzima possa eliminar parte desse material inflamatório e preservar a função dos tecidos.
Se os resultados forem confirmados em estudos clínicos,a tecnologia poderá futuramente ser aplicada em diferentes condições relacionadas ao envelhecimento,como alterações na elasticidade da pele,doenças cardiovasculares e comprometimento da função renal.
Para Michael C. Jewett,bioengenheiro da Universidade Stanford que não participou da pesquisa,o estudo representa uma importante prova de conceito.
— Ainda não se trata de uma solução clínica,mas esta demonstração abre caminho para novas estratégias terapêuticas voltadas à longevidade.
Jewett acrescenta que o trabalho também evidencia o potencial pouco explorado das enzimas desenvolvidas por engenharia molecular.
— Este estudo foi uma aula de como projetar uma enzima. Existe um enorme potencial ainda inexplorado nessa classe de proteínas para tratar inúmeras doenças humanas.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro