
Como ler melhor as pessoas? Os sinais que vão além das palavras — Foto: Magnific
Se nas redes sociais influenciadores e celebridades têm cada gesto,silêncio e mudança de comportamento interpretados pelo público,a inteligência artificial acrescentou uma nova camada à discussão sobre como entendemos uns aos outros. Hoje,máquinas já conseguem analisar linguagem e produzir respostas em segundos. Mas o que acontece com aquilo que não está explícito em uma frase?
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Foi trabalhando com tecnologia que Miller Augusto começou a prestar atenção justamente nessa dificuldade. Arquitetura de TI,cibersegurança e sistemas fizeram parte de boa parte de sua carreira,em um cotidiano no qual problemas costumam ser analisados a partir de dados,processos e respostas objetivas. À frente de empresas,porém,ele percebeu que algumas das situações mais difíceis não podiam ser resolvidas pela mesma lógica.
Contratações,negociações,conflitos e decisões envolvendo equipes trouxeram uma questão que passou a despertar seu interesse: as pessoas nem sempre dizem exatamente o que pensam. Parte do que acontece em uma relação profissional pode estar em uma mudança de comportamento,na maneira de reagir,em um silêncio ou até naquilo que alguém evita dizer.
A percepção levou o empresário a estudar o tema e deu origem a "A Arte Perdida de Ler Gente: Psicanálise e PNL aplicadas à liderança,negócios e relações humanas". Com mais de 500 páginas,o livro aproxima conceitos relacionados ao comportamento humano de situações comuns no ambiente profissional.
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"Trabalhando com tecnologia,você se acostuma a procurar padrões,entender sistemas e identificar onde alguma coisa não está funcionando. Com pessoas,percebi que essa lógica não era suficiente. Muitas vezes,a informação mais importante não estava sendo dita",afirma.
Para construir a obra,o autor recorreu a nomes como Freud,Lacan,Melanie Klein e Donald Winnicott. Os conceitos aparecem relacionados a situações de liderança,vendas,contratação,negociação e gestão de equipes.
Parte do conteúdo também nasceu de experiências em que a própria leitura de Miller sobre o outro não funcionou. Em um dos episódios relatados no livro,ele relembra uma negociação na qual o preço estava praticamente acertado,mas o negócio não avançou. Ao rever a situação,percebeu que estava tão concentrado em conduzir a conversa e chegar a um resultado que deixou de prestar atenção em quem estava do outro lado da mesa.
"Eu comecei a perceber que muitos problemas que pareciam ser de processo eram,na verdade,problemas de comunicação. Você pode chegar extremamente preparado para uma negociação e ainda assim perder informações importantes porque está preocupado demais com o que vai dizer e pouco atento ao que está ouvindo",conta.
A experiência também mudou sua maneira de observar a liderança. Indicadores podem mostrar desempenho,metas e resultados,mas não necessariamente revelam que alguém está desconfortável,perdeu a confiança no gestor ou já decidiu procurar outro emprego.
Para Miller,"ler gente" não significa tentar adivinhar pensamentos. Também não deveria ser usado como uma ferramenta de manipulação. A ideia apresentada no livro passa por observar melhor,ouvir e considerar que uma mesma reação pode ter significados diferentes dependendo da pessoa e da situação.
O tema ganha outra camada em um momento em que a inteligência artificial passa a participar de tarefas que antes dependiam diretamente das pessoas. Textos podem ser produzidos em segundos,dados analisados rapidamente e parte das interações profissionais já acontece de maneira automatizada.
Miller não coloca tecnologia e relações humanas em lados opostos. Sua própria trajetória profissional torna essa divisão pouco coerente. A questão,para ele,está no risco de acreditar que a velocidade com que processamos informações pode ser aplicada também à maneira como entendemos as pessoas.
"Quanto mais recursos temos para acelerar processos,maior é o risco de acreditar que todas as respostas também ficaram rápidas. Pessoas não funcionam assim. Às vezes é preciso ouvir uma conversa inteira para entender aquilo que não apareceu em nenhuma frase",conclui.

Miller Augusto,autor de livro sobre comportamento humano,explica como perceber sinais sutis nas relações profissionais — Foto: Divulgação
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro