
Na diáspora,a literatura iraniana revelou sua face feminina: escritoras exiladas começaram a revisitar suas origens para denunciar as restrições à liberdade das mulheres impostas pela Revolução Islâmica — Foto: Arte de Gustavo Amaral
Escritoras exiladas lideram a literatura da diáspora ao denunciar as restrições do regime islâmico. Suas obras revelam a histórica resistência feminina e combatem visões simplistas do Ocidente. Romances como "Desoriental" e "Mártir!" abordam temas complexos como bissexualidade,luto e dependência química. Essas narrativas humanizam os personagens para além dos conflitos geopolíticos atuais. Para autores no exílio,a arte é uma ferramenta essencial para qualificar o debate público. Os livros oferecem profundidade histórica contraposta ao imediatismo das manchetes de guerra. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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A escritora e cineasta franco-iraniana Négar Djavani conta que muitos à sua volta se surpreenderam com as imagens do Irã que se espalharam pelo Ocidente desde o início do conflito entre a nação persa,os Estados Unidos e Israel,em 28 de fevereiro: como assim há cafés,lojas da moda e mulheres andando pelas ruas de Teerã com a cabeça descoberta? (Embora o uso do hijab,o véu islâmico,ainda seja obrigatório,a polícia da moral afrouxou a fiscalização nos últimos meses.)
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— O Irã é e sempre foi um país paradoxal e singular. Por isso é tão difícil entendê-lo. Nós,iranianos,costumamos dizer que nosso país é como chapéu de um mágico: tudo o que entra (religião,ditadura,cinema etc.) sai diferente,transformado — diz Djavani ao GLOBO,via e-mail,sublinhando o poder da literatura para decifrar o enigma iraniano. — A literatura nos permite ir além das mentiras e das crenças,do medo e da ignorância,e realmente entrar em contato com esse Irã.
Nascida em Teerã,em 1969,ela se exilou em Paris com a família nos anos 1980: opositores da teocracia instalada após a Revolução de 1979,os pais dela estavam recebendo ameaças de morte. Djavani é autora do premiado romance “Desoriental”,que a Cosac Edições lança no Brasil em setembro,e integra a legião de escritores iranianos cuja obra é forjada no exílio. Escrevendo em línguas ocidentais,como o inglês e o francês,esses autores investigam a história acidentada de seu país,questionam sua própria identidade e desconstroem estereótipos propagados no Ocidente — uma missão que ganha ainda mais urgência em tempos de guerra.
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“Desoriental” é narrado por Kimiâ,uma moça iraniana punk e bissexual. Filha de ativistas de esquerda exilados em Paris,ela apresenta a história do Irã desde o século XIX,passando pela sucessão de golpes e revoltas do século XX,ao recordar os percursos da própria família,que inclui uma avó nascida num harém e um tio homossexual. O romance inclui notas de rodapé para contextualizar as referências histórias — a narradora quer poupar o leitor “de pesquisar na Wikipédia”.
Desde a Idade Média,o Irã (que ainda era chamado de Pérsia) se destacou como uma nação de poetas,como Hafez de Shiraz (1325-1389),que acaba de ser publicado pela editora Tabla. O romance só veio a se estabelecer por lá no século XX,mas continuou à sombra da poesia,que era capaz de driblar a censura com as metáforas. Na diáspora,a literatura iraniana revelou sua face feminina: escritoras exiladas começaram a revisitar suas origens para denunciar as restrições à liberdade das mulheres impostas pela Revolução Islâmica. Essas obras se tornaram a expressão mais conhecida da literatura iraniana e ajudaram a pintar a imagem que o Ocidente tem do país.
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Vários desses títulos viraram best-sellers,como a HQ “Persépolis”,de Marjane Satrapi,o livro de memórias “Lendo Lolita em Teerã”,de Azar Nasifi,e “As mulheres-leão de Teerã”,de Marjan Kamali. Este último,recém-lançado no Brasil pelo clube de assinatura TAG Livros,retrata o Irã antes e depois da revolução e acompanha Ellie e Homa,amigas de infância cujos destinos se separam após uma traição política. O título faz referência à expressão persa “shir zan”,usada para descrever a coragem feminina. Outro destaque é “The nights are quiet in Tehran” (As noites são silenciosas em Teerã),da alemã de origem iraniana Shida Bazyar,que concorreu ao International Booker Prize,um dos prêmios literários mais importantes do mundo,e será lançado no Brasil pela editora Instante,em 2027. O romance narra como os personagens responderam (no Irã e no exterior) às convulsões políticas do país ao longo de décadas.
Em julho,serão publicadas no Reino Unido as memórias da poeta Mahvash Sabet: “Open wide the doors” (Abram bem as portas). Adepta da fé Baha’i,surgida no século XIX e perseguida pelos aiatolás,Sabet foi encarcerada pelo regime de 2008 a 2017 e novamente a partir de 2022. Em e-mail ao GLOBO,a escritora Bahiyyih Nakhjavani,que editou o livro,descreveu-o como “uma história de determinação e esperança sobre-humana diante da tortura,de compaixão extraordinária,visão e reconciliação,sem as quais,francamente,não haverá futuro para o povo iraniano”. Radicada na França,Nakhjavani é autora de “Nós & eles” (Dublinense),romance sobre uma família de iranianos dispersos pelo mundo que reúne em Los Angeles para celebrar o Naw Ruz,uma festividade Baha’i.
Professora da Universidade da Virgínia,nos Estados Unidos,Farzaneh Milani aponta as causas do sucesso internacional das narrativas de exílio escritas por mulheres iranianas:
— Há uma longa história de resistência literária e feminina à opressão que,simbolicamente,remete à Sherazade de “As mil e uma noites” e persiste até hoje,dentro e fora do Irã. Os aiatolás tentaram reverter os direitos conquistados pelas iranianas,mas não foram capazes de silenciá-las. Ao contrário,a resistência se intensificou — diz ela,por e-mail. — Além disso,leitores ocidentais se interessam por livros que enfatizam questões de gênero e repressão no Irã. Entre essas narrativas,porém,há obras poderosas,que recusam estereótipos e retratam a insubmissão,a resistência e a complexidade das iranianas.
Milani acrescenta que os homens no exílio também produzem uma literatura “significativa” e destaca o “extraordinário romance” de Kaveh Akbar,“Mártir!” (Rocco). O autor nasceu o Irã e emigrou com a família para o EUA aos 2 anos de idade. Festejado pela crítica,“Mártir!” é protagonizado por Cyrus,um rapaz iraniano-americano,poeta e dependente de álcool. A mãe dele estava num avião atacado por engano pelo exército americano durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Cyrus se propõe a escrever um livro sobre o conceito de martírio,que virou propaganda nas mãos dos aiatolás: no Irã,há até escolas para os filhos daqueles que morreram em defesa da República Islâmica.
Durante suas pesquisas,o rapaz se aproxima de Orkideh,artista iraniana que enfrenta um câncer terminal e passa seus últimos dias fazendo uma performance num museu em Nova York. Ela brinca que Cyrus parece um clichê: “mais um iraniano obcecado pela morte”. A difícil construção de uma identidade iraniana no exílio é um dos temas do romance.
— Muita gente acha que se você não tem uma barba enorme de aiatolá você não é iraniano de verdade. Os estereótipos da cultura persa,das romãs à poesia,são tão parte de mim quanto “Os Simpsons” ou Sonic Youth. Nós,somos tão complexos e fodidos como todo mundo,tão capazes de errar quanto de criar beleza — diz Akbar,leitor de Clarice Lispector e Adélia Prado,em entrevista via vídeo. — Atualmente,há muito interesse por escritores iranianos nos EUA,assim como havia por autores venezuelanos meses atrás. Não sei se é curiosidade genuína ou culpa neoliberal.
O escritor Abdi Nazemian chegou aos EUA aos 2 anos de idade e nunca mais pisou no Irã. Ele é autor de romances LGBT para o público jovem,como “A luz brilha somente agora” (Pitaya),que retrata três gerações de homens de uma mesma família iraniana,da década de 1930 aos dias atuais. Seus livros podem circulam clandestinamente no Irã,onde a prática homossexual é proibida e pode ser punida com a morte.
A guerra em curso,diz ele,dividiu a diáspora iraniana. Nazemian é contra a guerra,mas relata que “há iranianos que acreditam que ela pode libertar o país,mesmo que não haja evidências disso”. O escritor elegeu como “missão” promover a cultura persa a fim de apresentar ao público as complexidades do país e qualificar o debate. À frente de clube de leitura dedicado a obras iranianas,ele já indicou títulos como “As mulheres-leão de Teerã” e “Mártir!”.
— Compreender a história é essencial — afirma ele,via vídeo. — Não basta olhar as manchetes,é preciso entender décadas de sofrimento e esperança,o desejo dos iranianos de viver em paz numa terra que reflita sua identidade. E nisso a arte pode ajudar. Escrevo para humanizar os iranianos. Quero que os leitores nos vejam como filhos e filhas,artistas,pessoas com seus sonhos. E não como peças de um jogo político.
‘Persépolis’ (Quadrinhos na Cia): Nesta autobiografia em quadrinhos,Marjane Satrapi narra sua infância e os primeiros anos da vida adulta vividos sob a teocracia imposta ao país a partir da Revolução de 1979. A HQ foi inicialmente publicada em francês em quatro partes,e já vendeu mais de dois milhões de cópias pelo mundo. No Brasil,a Companhia das Letras lançou uma edição completa em um único volume.
‘As mulheres-leão de Teerã’ (TAG Livros): O romance de Marjan Kamali acompanha a amizade de Ellie e Homa,duas meninas que se conhecem em Teerã nos anos 1950 e crescem em realidades sociais muito diferentes. Enquanto Ellie vem de uma família razoavelmente privilegiada,Homa é filha de militantes e sonha em transformar o país. Ao longo das décadas,as duas enfrentam mudanças profundas no Irã,incluindo a Revolução Islâmica de 1979.
‘Mártir!’ (Rocco): O festejado romance de estreia de Kaveh Akbar é protagonizado por Cyrus Shams,um poeta iraniano-americano em recuperação do alcoolismo que vive assombrado pela morte da mãe durante a Guerra Irã-Iraque. Obcecado pela ideia de martírio,ele se aproxima de uma artista iraniana com câncer terminal que transforma a própria morte em performance num museu de Nova York.
‘A luz brilha somente agora’ (Pitaya): Ambientado entre o Irã e os EUA,o romance de Abdi Nazemian atravessa décadas para contar a história de três homens da mesma família. Em 1939,Bobby é incentivado pela mãe a tentar uma carreira em Hollywood. Já Saaed é um jovem envolvido no movimento revolucionário do Irã no fim dos anos 1970. E Moud,um adolescente gay de Los Angeles,viaja a Teerã para visitar o avô moribundo em 2019.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro