
Vacinação é essencial para mulheres e homens — Foto: Magnific
GERADO EM: 17/07/2026 - 19:32
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O Ministério da Saúde prorrogou até dezembro o prazo da estratégia de “resgate” da vacina contra o HPV (papilomavírus humano),que busca imunizar adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que não receberam a dose na idade recomendada,de 9 a 14 anos. É a segunda prorrogação: o prazo terminaria em dezembro de 2025 e já havia sido esticado para o primeiro semestre deste ano. Cerca de 300 mil pessoas dessa faixa foram vacinadas até agora,segundo a pasta.
A insistência tem motivo. O país segue distante da meta do Programa Nacional de Imunizações (PNI),de imunizar 90% do público-alvo. Em 2025,último ano com dados fechados,a cobertura ficou em 80,26% — o melhor resultado da série,mas ainda quase dez pontos abaixo da meta. O índice sobe de forma consistente desde 2021,quando estava em 59,7%,e passou para 61,92% em 2022,70,53% em 2023 e 75,49% em 2024.
Chegar aos 90%,porém,não encerraria todos os problemas verificados em um país continental e desigual como o Brasil. É o que argumenta Fernando Wehrmeister,professor de epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel),autor de um estudo sobre a cobertura contra o HPV. Isso porque a meta nacional pode camuflar a falta de imunização de grupos específicos.
— Se a meta é 90%,temos que atingi-la. Mas há uma dificuldade: grupos são deixados para trás e ainda vão demorar para atingir o mesmo patamar. Ter a média de 90% de cobertura no Brasil é ótimo. Mas tem gente ficando para trás. Por exemplo,os de menor escolaridade — diz.
Também há uma discrepância relevante quando a comparação é por sexo. Em 2025,a cobertura foi de 86,22% entre as meninas e de apenas 74,55% entre os meninos — quase 12 pontos de diferença,e mais de 15 abaixo da meta.
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A defasagem entre meninos e meninas não é uma peculiaridade brasileira. Praticamente todos os países registram cobertura menor entre eles,afirma Mônica Levi,presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). A explicação está na origem do imunizante,desenvolvido para prevenir o câncer de colo do útero — o único então associado ao vírus. Só depois as pesquisas mostraram que homens também desenvolvem câncer e verrugas genitais ligados ao HPV,mas a comunicação não acompanhou a ciência.
— Ainda está no imaginário de muita gente que essa vacina é para mulheres e que,se o menino for vacinar,é só para ele não transmitir para uma mulher — diz.
Essa leitura cobra caro dos dois lados. Além de deixar os próprios meninos desprotegidos,mantém em circulação um vírus que volta às mulheres.
Wehrmeister avalia que os meninos se julgam dispensados justamente por não se verem como alvo da doença,e defende que a campanha explicite o benefício individual e o coletivo. Há,sinais de virada,segundo a SBIm: a cobertura masculina cresceu mais que a feminina em 2025,resultado creditado às ações nas escolas.
Há ainda outra barreira: o adolescente não procura serviço de saúde com regularidade e depende dos pais para se vacinar. É aí que aparece a recusa,sobretudo quando a dose é oferecida aos 9 ou 10 anos — profissionais de salas de vacina relatam resistência alta nessa idade,segundo Mônica.
— Muitos pais ainda acreditam que a vacina estimula o início da vida sexual ou consideram que a criança de 9 ou 10 anos é muito nova para ser vacinada contra uma doença sexualmente transmissível — afirma.
À resistência soma-se a baixa percepção de risco. A infecção pelo HPV é silenciosa e pode levar anos até virar lesão,o que retira da vacina o senso de urgência que existe,por exemplo,em um surto de meningite. Nesse terreno é que a desinformação prospera.
— Acredito que depois da Covid,o HPV é a principal na quantidade de desinformação nas redes sociais — diz a presidente da SBIm.
Os efeitos disso estão mapeados. Estudos brasileiros,segundo ela,apontam quatro motivos principais de hesitação entre os pais: o medo de eventos adversos,alimentado por informação falsa sobre uma vacina considerada segura; o desconhecimento sobre o que é o HPV e as doenças que provoca; a percepção de que a criança é jovem demais; e a falta de recomendação médica.
Nem sempre,portanto,o problema é acesso. Wehrmeister chama atenção para um grupo que contraria a intuição: as famílias de melhor situação socioeconômica. Num país historicamente exemplar em vacinação,diz,a baixa adesão entre os mais ricos sugere hesitação deliberada. É a mesma média nacional escondendo,na outra ponta da renda,gente que poderia se vacinar e escolhe não fazê-lo.
Se a renda separa,as especificidades regionais também contribuem para o desafio. Em 2024,a cobertura entre meninas de 9 a 14 anos foi de 83% no país,mas apenas oito estados — Roraima,Espírito Santo,Paraná,Santa Catarina,Amazonas,Mato Grosso do Sul,Tocantins e Distrito Federal — bateram os 90%,segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A média do Sul chega a 93,6%; a do Nordeste,a 77,3%. São 16 pontos de distância dentro do mesmo país e sob a mesma política federal.
No Calendário Nacional de Vacinação de 2026,a HPV4 aparece na rotina apenas para a faixa de 9 a 14 anos; o resgate dos 15 aos 19 está em nota de rodapé,que recomenda a estratégia "conforme a organização do estado".
Ou seja: a União prorroga o prazo,mas a execução depende de como cada unidade da federação se estrutura,inclusive as que já estão mais atrás.
Para Wehrmeister,sair desse ciclo exige medir melhor. Ele defende que a cobertura seja monitorada por marcadores sociais — cor da pele,escolaridade,renda e local de moradia —,porque só assim é possível desenhar estratégias para quem não está sendo alcançado.
— É preciso realmente monitorar e monitorar bem por grupos sociais. Seja por cor da pele,riqueza,região de moradia. Justamente assim,conseguimos pensar em estratégias mais adequadas. Sabemos que é difícil implementar isso,não é uma coisa que vai ser de uma hora para outra,mas precisamos ter essa situação bem clara para poder atingir a todos de uma maneira igual — diz o professor.
A prorrogação,ainda assim,é bem avaliada pelos especialistas. A pandemia empurrou uma geração inteira para fora da faixa de rotina: com o isolamento e a interrupção temporária dos serviços,muitos adolescentes passaram da idade recomendada sem receber a dose. E há benefício em vacinar mesmo quem já iniciou a vida sexual — alguns países fazem o resgate até os 26 anos.
O limite é operacional. As duas principais engrenagens de aumento de cobertura no país — a vacinação em escolas e a campanha de multivacinação,voltada a menores de 15 anos — não alcançam o público do resgate,avalia Mônica,porque boa parte dos jovens de 17 a 19 anos já deixou a sala de aula.
A busca ativa nessa faixa é especialmente difícil. Um instrumento pode ajudar: o registro nominal por CPF na Rede Nacional de Dados de Saúde (RNDS) permite identificar quem não recebeu a dose.
A saída de fundo,para a SBIm,é institucionalizar a vacinação escolar. Os países que chegaram aos 90% o fizeram basicamente por programas nas escolas,afirma Mônica,que cita Reino Unido,Austrália,Portugal e Escócia. O modelo exige uma colaboração entre saúde e educação que ela considera insuficiente no Brasil.
— Não é só marcar um dia na escola e vacinar — afirma.
Seria preciso conferir a caderneta previamente,aplicar as doses durante o período letivo,voltar às escolas de baixa adesão,incluir a rede privada e criar estratégias para quem está fora da sala de aula. A vantagem é justamente reduzir a dependência da iniciativa dos pais — a barreira que aparece lá atrás,aos 9 anos. Experiências municipais brasileiras,segundo a entidade,mostram que combinar escolas,UBS,espaços públicos e busca ativa pode levar a cobertura acima de 90%. Na mesma linha,a SBIm defende que o profissional de saúde recomende a vacina de forma presumida e que toda consulta de adolescente sirva para checar a caderneta.
O que está em jogo nessa diferença de pontos percentuais é uma carga de doença conhecida. O HPV está associado a cânceres de colo do útero,vagina,vulva,pênis,ânus e canal anal e orofaringe. No colo do útero,100% dos casos são atribuíveis ao vírus,segundo o INCA. A fração é de 88% no câncer de ânus e canal anal,50% no de pênis e 31% no de orofaringe — os dois últimos,exemplos de por que a defasagem masculina não é um problema apenas das mulheres.
O Brasil aderiu à meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública,que prevê,até 2030,vacinar 90% das meninas até os 15 anos,rastrear 70% das mulheres e tratar adequadamente 90% dos casos. Segundo a pesquisadora Flávia de Miranda Corrêa,da Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede do INCA,a eliminação depende de integrar as três frentes.
—A eliminação do câncer do colo do útero é prioridade para o Ministério da Saúde e do Governo Federal e,assim sendo,ações voltadas para o aumento da cobertura vacinal estão em curso,como campanhas de comunicação,informação e conscientização da população; retorno da vacinação nas escolas; adoção do esquema de dose única da vacina contra o HPV (recomendação da OMS); e resgate,até dezembro de 2026,de adolescentes de 15 até 19 anos ainda não vacinados — diz Flávia.
Em nota,o Ministério da Saúde afirmou que a vacinação é a principal medida de prevenção contra a infecção pelo HPV,complementada pelo uso de preservativos,e que quem não se imunizou deve procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou outro posto do SUS para checar a situação vacinal.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro