
O presidente dos Estados Unidos,Donald Trump,e Javier Milei,presidente da Argentina,na Casa Branca,em Washington — Foto: Stefani Reynolds/Bloomberg
GERADO EM: 03/06/2026 - 22:00
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Investidores em mercados emergentes concentram a atenção em uma métrica-chave ao avaliar o risco da dívida de um país: se seus líderes mantêm uma boa relação com o presidente dos EUA,Donald Trump.
A relação de uma nação com os EUA sempre foi importante,é claro,mas o estilo diplomático de Trump — que pode escalar rapidamente de uma mensagem publicada tarde da noite na Truth Social para tarifas e até uma intervenção militar — tornou mais importante do que nunca distinguir aliados de adversários.
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Os vencedores são mais fáceis de identificar,como os títulos da Venezuela,que acumulam os maiores ganhos entre os mercados emergentes neste ano após a reaproximação do país rico em petróleo com o governo Trump.

Delcy Rodríguez: presidente da Venezuela vem cooperando com os EUA — Foto: Federico Parra / AFP
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Outro exemplo é a Argentina,que registrou retornos expressivos depois que os EUA concederam ao presidente Javier Milei,aliado próximo de Trump,uma linha de apoio financeiro no fim do ano passado.
Os títulos do Paquistão se recuperam à medida que o país emerge como mediador entre os EUA e o Irã,papel que pode ajudá-lo a conquistar prestígio em Washington. Em contraste,a dívida da Colômbia teve desempenho inferior ao do mercado durante boa parte do último ano,desde que seu presidente passou a entrar em conflito com Trump.
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— As relações com os EUA se tornaram mais transacionais e também mais baseadas em relações pessoais — disse Christopher Hays,gestor sênior de portfólio da TCW Group Inc.,que tem visão positiva para os títulos da Argentina e da Venezuela. — Às vezes,realmente importa quem são os adversários de Trump.
A tendência é mais evidente na América Latina,reflexo em parte da promessa de Trump de reafirmar a predominância dos EUA no Hemisfério Ocidental.
E talvez em nenhum lugar isso seja tão evidente quanto na Argentina. Em outubro,o governo Trump montou um pacote de apoio de US$ 20 bilhões para sustentar o peso,os títulos do governo e manter a frágil agenda de reformas pró-mercado de Milei no rumo.

Presidente da Bolívia,Rodrigo Paz,enfrenta oposição interna — Foto: Aizar RALDES / AFP
A estratégia funcionou: o peso se estabilizou,os títulos se recuperaram e,semanas depois,a coalizão de Milei venceu a crucial eleição legislativa de meio de mandato.
Os títulos de El Salvador e do Equador também foram beneficiados pela boa relação de seus líderes com Trump. Os papéis dos dois países estão entre os de melhor desempenho nos mercados emergentes,com retorno pelo menos duas vezes superior à média desde que Trump assumiu o cargo em janeiro do ano passado.

O presidente dos EUA,cumprimenta o presidente de El Salvador,Nayib Bukele,em Washington,em 14 de abril de 2025 — Foto: ROBERTO SCHMIDT / AFP
Procurado para comentar,o porta-voz da Casa Branca,Kush Desai,afirmou que a influência global do governo dos EUA “não é um fenômeno novo” e que “o presidente Trump continuará colocando os americanos e os EUA em primeiro lugar em sua política externa e em suas negociações”.
A súbita recuperação dos títulos venezuelanos ilustra as complexidades dessa estratégia. O regime socialista em Caracas era um inimigo declarado — a ponto de Trump ordenar uma incursão militar em janeiro que derrubou o presidente Nicolás Maduro e levou ao poder sua vice-presidente,Delcy Rodriguez,uma entusiasta aliada de Washington.
A intervenção desencadeou uma forte alta nos títulos venezuelanos em default,recompensando investidores que aguardavam havia anos o início de negociações para reestruturar a dívida do governo,pressionado pela escassez de recursos. O preço dos títulos saltou de 30 centavos por dólar no fim do ano passado para até 60 centavos por dólar.
— Trump gosta muito de Javier Milei na Argentina,então houve um apoio enorme para intervir e estabilizar essa história — disse Hays. — Ele gosta muito de Delcy e do petróleo que ela pode liberar e fornecer aos Estados Unidos. Portanto,é uma relação muito sólida.
Um cenário diferente ocorreu na Hungria,revelando os limites da influência de Trump. Seu apoio não foi suficiente para impedir a saída de Viktor Orban do poder. Ainda assim,os títulos húngaros avançaram porque investidores apostaram que o novo primeiro-ministro,Peter Magyar,restauraria as relações com a União Europeia — outra potência global com grande capacidade financeira que,ao lado da China,serve de contraponto à influência dos EUA.
Uma série de fatores além do chamado efeito Trump determina o desempenho dos títulos de um país,de preços de commodities à política doméstica.
Na Bolívia,por exemplo,protestos de rua contra um governo alinhado aos EUA desencadearam uma venda maciça dos títulos do país.
Estrategistas especulam que os EUA poderiam oferecer apoio ao governo caso a situação se agrave,o que potencialmente ajudaria a conter a liquidação dos ativos. No Paquistão,alguns investidores,como Soeren Moerch,do Danske Bank,apostam que o papel do país como mediador-chave nas negociações de paz entre EUA e Irã fortalecerá sua posição junto a Washington.
Após uma queda inicial de 10% no início da guerra,os títulos paquistaneses dispararam e superaram o desempenho do mercado mais amplo desde o fim de março.
— O papel do Paquistão como mediador no conflito com o Irã melhorará as relações com os EUA e Israel — disse Moerch,que comprou títulos do país nos últimos meses. — Isso é claramente positivo.
Na África,a República Democrática do Congo,maior produtora de cobalto do mundo,fechou acordos com os EUA sobre minerais críticos,aceitou deportados de terceiros países e concordou com um acordo de paz entre Ruanda e Congo mediado pelos EUA.
Esses acontecimentos,juntamente com a melhora das finanças do país,ajudaram a atrair forte demanda pela estreia de seus títulos em dólar,em uma emissão de US$ 1,25 bilhão realizada em abril.
Mas mesmo investidores otimistas afirmam que laços estreitos com o governo Trump não substituem fundamentos econômicos. Os países ainda precisam de políticas críveis para sustentar a confiança dos investidores.
— Certamente a RDC se tornou mais importante do ponto de vista estratégico,e isso ajuda o país a contar sua história — disse Matthew Graves,gestor de portfólio da PPM America Inc. — Mas não acredito que isso,por si só,teria sido suficiente sem o contexto geral do sentimento de risco macroeconômico.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro